Dorme a estrela no céu Dorme a rosa em seu jardim Dorme a lua no mar Dorme o amor dentro de mim
É preciso pisar leve Ai, é preciso não falar Meu amor se adormece Que suave o seu perfume
Dorme em paz rosa pura O teu sono não tem fim
Ária para assovio
Inelutavelmente tu Rosa sobre o passeio Branca! e a melancolia Na tarde do seio
As cássias escorrem Seu ouro a teus pés Conheço o soneto Porém tu quem és?
O madrigal se escreve: Se é do teu costume Deixa que eu te leve
(Sê... mínima e breve A música do perfume Não guarda ciúme)
Amor nos três pavimentos
Eu não sei tocar, mas se você pedir Eu toco violino fagote trombone saxofone. Eu não sei cantar, mas se você pedir Dou um beijo na lua, bebo mel himeto Pra cantar melhor. Se você pedir eu mato o papa, eu tomo cicuta Eu faço tudo que você quiser.
Você querendo, você me pede, um brinco, um namorado Que eu te arranjo logo. Você quer fazer verso? É tão simples!... você assina Ninguém vai saber. Se você me pedir, eu trabalho dobrado Só pra te agradar.
Se você quisesse!... até na morte eu ia Descobrir poesia. Te recitava as Pombas, tirava modinhas Pra te adormecer. Até um gurizinho, se você deixar Eu dou pra você...
Allegro
Sente como vibra Doidamente em nós Um vento feroz Estorcendo a fibra
Dos caules informes E as plantas carnívoras De bocas enormes Lutam contra as víboras
E os rios soturnos Ouve como vazam A água corrompida
E as sombras se casam Nos raios noturnos Da lua perdida.
A paixão da carne
Envolto em toalhas Frias, pego ao colo O corpo escaldante. Tem apenas dois anos E embora não fale Sorri com doçura. É Pedro, meu filho Sêmen feito carne Minha criatura Minha poesia. É Pedro, meu filho Sobre cujo sono Como sobre o abismo Em noites de insônia Um pai se debruça. Olho no termômetro: Quarenta e oito décimos E através do pano A febre do corpo Bafeja-me o rosto Penetra-me os ossos Desce-me às entranhas Úmida e voraz Angina pultácea Estreptocócica? Quem sabe... quem sabe... Aperto meu filho Com força entre os braços Enquanto crisálidas Em mim se desfazem Óvulos se rompem Crostas se bipartem E de cada poro Da minha epiderme Lutam lepidópteros Por se libertar. Ah, que eu já sentisse Os êxtases máximos Da carne nos rasgos Da paixão espúria! Ah, que eu já bradasse Nas horas de exalta- Ção os mais lancinantes Gritos de loucura! Ah, que eu já queimasse Da febre mais quente Que jamais queimasse A humana criatura! Mas nunca como antes Nunca! nunca! nunca! Nem paixão tão alta Nem febre tão pura.
A ausente
Amiga, infinitamente amiga Em algum lugar teu coração bate por mim Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus. Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas Como que cega ao meu encontro... Amiga, última doçura A tranqüilidade suavizou a minha pele E os meus cabelos. Só meu ventre Te espera, cheio de raízes e de sombras. Vem, amiga Minha nudez é absoluta Meus olhos são espelhos para o teu desejo E meu peito é tábua de suplícios Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim Como no mar, vem nadar em mim como no mar Vem te afogar em mim, amiga minha Em mim como no mar...
A rosa de Hiroxima
Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas oh não se esqueçam Da rosa da rosa Da rosa de Hiroshima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida e inválida A rosa com cirrose A anti-rosa atômica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada
Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo (da noite Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
A mulher que passa
Meu Deus, eu quero a mulher que passa. Seu dorso frio é um campo de lírios Tem sete cores nos seus cabelos Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas Que me sacias e suplicias Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia Teus sofrimentos, melancolia. Teus pêlos leves são relva boa Fresca e macia. Teus belos braços são cisnes mansos Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas Que vens e passas, que me sacias Dentro das noites, dentro dos dias! Por que me faltas, se te procuro? Por que me odeias quando te juro Que te perdia se me encontravas E me encontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas? Por que não enches a minha vida? Por que não voltas, mulher querida Sempre perdida, nunca encontrada? Por que não voltas à minha vida? Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa! Eu quero-a agora, sem mais demora A minha amada mulher que passa!
No santo nome do teu martírio Do teu martírio que nunca cessa Meu Deus, eu quero, quero depressa A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica Que é tanto pura como devassa Que bóia leve como a cortiça E tem raízes como a fumaça.
A mulher na noite
Eu fiquei imóvel e no escuro tu vieste. A chuva batia nas vidraças e escorria nas calhas – vinhas andando e eu não (te via Contudo a volúpia entrou em mim e ulcerou a treva nos meus olhos. Eu estava imóvel – tu caminhavas para mim como um pinheiro erguido E de repente, não sei, me vi acorrentado no descampado, no meio de insetos E as formigas me passeavam pelo corpo úmido. Do teu corpo balouçante saíam cobras que se eriçavam sobre o meu peito E muito ao longe me parecia ouvir uivos de lobas. E então a aragem começou a descer e me arrepiou os nervos E os insetos se ocultavam nos meus ouvidos e zunzunavam sobre os meus (lábios. Eu queria me levantar porque grandes reses me lambiam o rosto E cabras cheirando forte urinavam sobre as minhas pernas. Uma angústia de morte começou a se apossar do meu ser As formigas iam e vinham, os insetos procriavam e zumbiam do meu desespero E eu comecei a sufocar sob a rês que me lambia. Nesse momento as cobras apertaram o meu pescoço E a chuva despejou sobre mim torrentes amargas.
Eu me levantei e comecei a chegar, me parecia vir de longe E não havia mais vida na minha frente.
A que há de vir
Aquela que dormirá comigo todas as luas É a desejada de minha alma. Ela me dará o amor do seu coração E me dará o amor da sua carne.
Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios Ela é a querida da minha alma Que me fará longos carinhos nos olhos Que me beijará longos beijos nos ouvidos Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso. Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego Ela abandonará filho e esposo Abandonará o mundo e o prazer do mundo Abandonará Deus e a Igreja de Deus E virá a mim me olhando de olhos claros Se oferecendo à minha posse Rasgando o véu da nudez sem falso pudor Cheia de uma pureza luminosa. Ela é a amada sempre nova do meu coração Ela ficará me olhando calada Que ela só crerá em mim Far-me-á a razão suprema das coisas. Ela é a amada da minha alma triste É a que dará o peito casto Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração Ela é a minha poesia e a minha mocidade É a mulher que se guardou para o amado de sua alma Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.
Ela é o amor vivendo de si mesmo. É a que dormirá comigo todas as luas E a quem eu protegerei contra os males do mundo.
Ela é a anunciada da minha poesia Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.
Uma mulher no meio do mar
Na praia batida de vento a voz entrecontada chama Dentro da noite amarga a grande lua está contigo e está com ela – pousa o (teu rosto sobre a areia! A tua lágrima de homem ficará correndo sobre o teu corpo dormindo e te (levará boiando E talvez a tua mão inerme encontre a sua mão cheia de frio Tudo está sozinho e o supremo abandono pousou sobre o corpo nu da que (deixaste ir A onda solitária é o berço do amor e há uma música eterna nas formas (invisíveis Passa o teu braço sobre o que foi o triste destroço de um outro mar bem (mais revolto E sentirás que nunca o pobre corpo foi mais flexuoso ao teu afago nem o (olhar mais aberto ao teu desejo. Afaga os seios que os seus beijos poluíram e que a água amante fez altos e (serenos Mergulha os dedos pela última vez na úmida cabeleira espessa que se vai (abrir como as medusas Porque também a lua vive a vez derradeira a visão escrava Porque nunca mais também os olhos que estão parados te mostrarão o céu E as linhas que vês desfeitas já pesam como que para o descanso do fundo (que não atingirás. Não sentes que é preciso que ela vá, vá dar morada às algas que lhe cobrirão (amorosamente o corpo Para fugir de ti que o cobrias apenas com a ardência imutável do teu desejo?
Oh, o amor que abre os braços à piedade!…
A música das almas
"Le mal est dans le monde comme un esclave qui fait monter l’eau." Claudel
Na manhã infinita as nuvens surgiram como a Ioucura numa alma E o vento como o instinto desceu os braços das árvores que estrangularam (a terra... Depois veio a claridade, o grande céu, a paz dos campos... Mas nos caminhos todos choravam com os rostos levados para o alto Porque a vida tinha misteriosamente passado na tormenta.
A máscara da noite
Sim, essa tarde conhece todos os meus pensamentos Todos os meus segredos e todos os meus patéticos anseios Sob esse céu como uma visão azul de incenso As estrelas são perfumes passados que me chegam...
Sim! essa tarde que eu não conheço é uma mulher que me chama E eis que é uma cidade apenas, uma cidade dourada de astros Aves, folhas silenciosas, sons perdidos em cores Nuvens como velas abertas para o tempo...
Não sei, toda essa evocação perdida, toda essa música perdida É como um pressentimento de inocência, como um apelo... Mas para que buscar se a forma ficou no gesto esvanecida E se a poesia ficou dormindo nos braços de outrora...
Como saber se é tarde, se haverá manhã para o crepúsculo Nesse entorpecimento, neste filtro mágico de lágrimas? Orvalho, orvalho! desce sobre os meus olhos, sobre o meu sexo Faz-se surgir diamante dentro do sol!
Lembro-me!... como se fosse a hora da memória Outras tardes, outras janelas, outras criaturas na alma O olhar abandonado de um lago e o frêmito de um vento Seios crescendo para o poente como salmos...
Oh, a doce tarde! Sobre mares de gelo ardentes de revérbero Vagam placidamente navios fantásticos de prata E em grandes castelos cor de ouro, anjos azuis serenos Tangem sinos de cristal que vibram na imensa transparência!
Eu sinto que essa tarde está me vendo, que essa serenidade está me vendo Que o momento da criação está me vendo neste instante doloroso de sossego (em mim mesmo Oh criação que estás me vendo, surge e beija-me os olhos Afaga-me os cabelos, canta uma canção para eu dormir!
És bem tu, máscara da noite, com tua carne rósea Com teus longos xales campestres e com teus cânticos És bem tu! ouço teus faunos pontilhando as águas de sons de flautas Em longas escalas cromáticas fragrantes...
Ah, meu verso tem palpitações dulcíssimas! – primaveras! Sonhos bucólicos nunca sonhados pelo desespero Visões de rios plácidos e matas adormecidas Sobre o panorama crucificado e monstruoso dos telhados!
Por que vens, noite? por que não adormeces o teu crepe Por que não te esvais – espectro – nesse perfume tenro de rosas? Deixa que a tarde envolva eternamente a face dos deuses Noite, dolorosa noite, misteriosa noite!
Oh tarde, máscara da noite, tu és a presciência Só tu conheces e acolhes todos os meus pensamentos O teu céu, a tua luz, a tua calma São a palavra da morte e do sonho em mim!
A brusca poesia da mulher amada
Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente... Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada (é como a fonte! A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito? Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?
Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida (dos lírios E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos (transfigurados...
Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.
A vida vivida
Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da noite imóvel E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?
De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra Que se destrói à presença das fortes claridades Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério E cuja forma é prodigiosa treva informe?
Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino Rio que sou em busca do mar que me apavora Alma que sou clamando o desfalecimento Carne que sou no âmago inútil da prece?
O que é a mulher em mim senão o Túmulo O branco marco da minha rota peregrina Aquela em cujos braços vou caminhando para a morte Mas em cujos braços somente tenho vida?
O que é o meu amor, ai de mim! senão a luz impossível Senão a estrela parada num oceano de melancolia O que me diz ele senão que é vã toda a palavra Que não repousa no seio trágico do abismo?
O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo O meu eterno partir da minha vontade enorme de ficar Peregrino, peregrino de um instante, peregrino de todos os instantes?
A quem respondo senão a ecos, a soluços, a lamentos De vozes que morrem no fundo do meu prazer ou do meu tédio A quem falo senão a multidões de símbolos errantes Cuja tragédia efêmera nenhum espírito imagina?
Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso a Língua Da nuvem a Palavra imortal cheia de segredo E do fundo do inferno delirantemente proclamá-los Em Poesia que se derrame como sol ou como chuva?
O que é o meu ideal senão o Supremo Impossível Aquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu anelo O que é ele em mim senão o meu desejo de encontrá-lo E o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?
O que sou eu senão ele, o Deus em sofrimento O temor imperceptível na voz portentosa do vento O bater invisível de um coração no descampado... O que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim?
A partida
Quero ir-me embora pra estrela Que vi luzindo no céu Na várzea do setestrelo. Sairei de casa à tarde Na hora crepuscular Em minha rua deserta Nem uma janela aberta Ninguém para me espiar De vivo verei apenas Duas mulheres serenas Me acenando devagar. Será meu corpo sozinho Que há de me acompanhar Que a alma estará vagando Entre os amigos, num bar. Ninguém ficará chorando Que mãe já não terei mais E a mulher que outrora tinha Mais que ser minha mulher É mãe de uma filha minha. Irei embora sozinho Sem angústia nem pesar Antes contente da vida Que não pedi, tão sofrida Mas não perdi por ganhar. Verei a cidade morta Ir ficando para trás E em frente se abrirem campos Em flores e pirilampos Como a miragem de tantos Que tremeluzem no alto. Num ponto qualquer da treva Um vento me envolverá Sentirei a voz molhada Da noite que vem do mar Chegar-me-ão falas tristes Como a querer me entristar Mas não serei mais lembrança Nada me surpreenderá: Passarei lúcido e frio Compreensivo e singular Como um cadáver num rio E quando, de algum lugar Chegar-me o apelo vazio De uma mulher a chorar Só então me voltarei Mas nem adeus lhe darei No oco raio estelar Libertado subirei.
Cântico
Não, tu não és um sonho, és a existência Tens carne, tens fadiga e tens pudor No calmo peito teu. Tu és a estrela Sem nome, és a morada, és a cantiga Do amor, és luz, és lírio, namorada! Tu és todo o esplendor, o último claustro Da elegia sem fim, anjo! mendiga Do triste verso meu. Ah, fosses nunca Minha, fosses a idéia, o sentimento Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora Ausente, amiga, eu não te perderia! Amada! onde te deixas, onde vagas Entre as vagas flores? e por que dormes Entre os vagos rumores do mar? Tu Primeira, última, trágica, esquecida De mim! És linda, és alta! és sorridente És como o verde do trigal maduro Teus olhos têm a cor do firmamento Céu castanho da tarde – são teus olhos! Teu passo arrasta a doce poesia Do amor! prende o poema em forma e cor No espaço; para o astro do poente És o levante, és o Sol! eu sou o gira O gira, o girassol. És a soberba Também, a jovem rosa purpurina És rápida também, como a andorinha! Doçura! lisa e murmurante... a água Que corre no chão morno da montanha És tu; tens muitas emoções; o pássaro Do trópico inventou teu meigo nome Duas vezes, de súbito encantado! Dona do meu amor! sede constante Do meu corpo de homem! melodia Da minha poesia extraordinária! Por que me arrastas? Por que me fascinas? Por que me ensinas a morrer? teu sonho Me leva o verso à sombra e à claridade. Sou teu irmão, és minha irmã; padeço De ti, sou teu cantor humilde e terno Teu silêncio, teu trêmulo sossego Triste, onde se arrastam nostalgias Melancólicas, ah, tão melancólicas... Amiga, entra de súbito, pergunta Por mim, se eu continuo a amar-te; ri Esse riso que é tosse de ternura Carrega-me em teu seio, louca! sinto A infância em teu amor! cresçamos juntos Como se fora agora, e sempre; demos Nomes graves às coisas impossíveis Recriemos a mágica do sonho Lânguida! ah, que o destino nada pode Contra esse teu langor; és o penúltimo Lirismo! encosta a tua face fresca Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma É o último suspiro da poesia O mar é nosso, a rosa tem seu nome E recende mais pura ao seu chamado. Julieta! Carlota! Beatriz! Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto Que se não brinco, choro, e desse pranto Desse pranto sem dor, que é o único amigo Das horas más em que não estás comigo.
Elegia desesperada
Alguém que me falasse do mistério do Amor Na sombra – alguém! alguém que me mentisse Em sorrisos, enquanto morriam os rios, enquanto morriam As aves do céu! e mais que nunca No fundo da carne o sonho rompeu um claustro frio Onde as lúcidas irmãs na branca loucura das auroras Rezam e choram e velam o cadáver gelado ao sol! Alguém que me beijasse e me fizesse estacar No meu caminho – alguém! – as torres ermas Mais altas que a lua, onde dormem as virgens Nuas, as nádegas crispadas no desejo Impossível dos homens – ah! deitariam a sua maldição! Ninguém... nem tu, andorinha, que para seres minha Foste mulher alta, escura e de mãos longas... Revesti-me de paz? – não mais se me fecharão as chagas Ao beijo ardente dos ideais – perdi-me De paz! sou rei, sou árvore No plácido país do Outono; sou irmão da névoa Ondulante, sou ilha no gelo, apaziguada! E no entanto, se eu tivesse ouvido em meu silêncio uma voz De dor, uma simples voz de dor... mas! fecharam-me As portas, sentaram-se todos à mesa e beberam o vinho Das alegrias e penas da vida (e eu só tive a lua Lívida, a lésbica que me poluiu da sua eterna Insensível polução...). Gritarei a Deus? – ai dos homens! Aos homens? – ai de mim! Cantarei Os fatais hinos da redenção? Morra Deus Envolto em música! – e que se abracem As montanhas do mundo para apagar o rasto do poeta!
Mar
Na melancolia de teus olhos Eu sinto a noite se inclinar E ouço as cantigas antigas Do mar.
Nos frios espaços de teus braços Eu me perco em carícias de água E durmo escutando em vão O silêncio.
E anseio em teu misterioso seio Na atonia das ondas redondas. Náufrago entregue ao fluxo forte Da morte.
O escândalo da rosa
Oh rosa que raivosa Assim carmesim Quem te fez zelosa O carme tão ruim?
Que anjo ou que pássaro Roubou tua cor Que ventos passaram Sobre o teu pudor
Coisa milagrosa De rosa de mate De bom para mim
Rosa glamourosa? Oh rosa que escarlate: No mesmo jardim!
O riso
Aquele riso foi o canto célebre Da primeira estrela, em vão. Milagre de primavera intacta No sepulcro de neve Rosa aberta ao vento, breve Muito breve...
Não, aquele riso foi o canto célebre Alta melodia imóvel Gorjeio de fonte núbil Apenas brotada, na treva... Fonte de lábios (hora Extremamente mágica do silêncio das aves).
Oh, música entre pétalas Não afugentes meu amor! Mistério maior é o sono Se de súbito não se ouve o riso na noite.
O poeta e a lua
Em meio a um cristal de ecos O poeta vai pela rua Seus olhos verdes de éter Abrem cavernas na lua. A lua volta de flanco Eriçada de luxúria O poeta, aloucado e branco Palpa as nádegas da lua. Entre as esferas nitentes Tremeluzem pêlos fulvos O poeta, de olhar dormente Entreabre o pente da lua. Em frouxos de luz e água Palpita a ferida crua O poeta todo se lava De palidez e doçura. Ardente e desesperada A lua vira em decúbito A vinda lenta do espasmo Aguça as pontas da lua. O poeta afaga-lhe os braços E o ventre que se menstrua A lua se curva em arco Num delírio de volúpia. O gozo aumenta de súbito Em frêmitos que perduram A lua vira o outro quarto E fica de frente, nua. O orgasmo desce do espaço Desfeito em estrelas e nuvens Nos ventos do mar perspassa Um salso cheiro de lua E a lua, no êxtase, cresce Se dilata e alteia e estua O poeta se deixa em prece Ante a beleza da lua. Depois a lua adormece E míngua e se apazigua... O poeta desaparece Envolto em cantos e plumas Enquanto a noite enlouquece No seu claustro de ciúmes.
Poema enjoadinho
Filhos... Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos Como sabê-los? Se não os temos Que de consulta Quanto silêncio Como os queremos! Banho de mar Diz que é um porrete... Cônjuge voa Transpõe o espaço Engole água Fica salgada Se iodifica Depois, que boa Que morenaço Que a esposa fica! Resultado: filho. E então começa A aporrinhação: Cocô está branco Cocô está preto Bebe amoníaco Comeu botão. Filhos? Filhos Melhor não tê-los Noites de insônia Cãs prematuras Prantos convulsos Meu Deus, salvai-o! Filhos são o demo Melhor não tê-los... Mas se não os temos Como sabê-los? Como saber Que macieza Nos seus cabelos Que cheiro morno Na sua carne Que gosto doce Na sua boca! Chupam gilete Bebem xampu Ateiam fogo No quarteirão Porém, que coisa Que coisa louca Que coisa linda Que os filhos são!
Quietação
No espaço claro e longo O silêncio é como uma penetração de olhares calmos... Eu sinto tudo pousado dentro da noite E chega até mim um lamento contínuo de árvores curvas. Como desesperados de melancolia Uivam na estrada cães cheios de lua. O silêncio pesado que desce Curva todas as coisas religiosamente E o murmúrio que sobe é como uma oração da noite...
Eu penso em ti. Minha boca cicia longamente o teu nome E eu busco sentir no ar o aroma morno da tua carne. Vejo-te ainda na visão que te precisou no espaço Ouvindo de olhos dolentes as palavras de amor que eu te dizia Fora do tempo, fora da vida, na cessação suprema do instante Ouvindo, junta de mim, a angústia apaixonada da minha voz Num desfalecimento. Pelo espaço claro e longo Vibra a luz branca das estrelas. Nem uma aragem, tudo parado, tudo silêncio Tudo imensamente repousado. E eu cheio de tristeza, sozinho, parado Pensando em ti.
Quatro sonetos de meditação
I
Mas o instante passou. A carne nova Sente a primeira fibra enrijecer E o seu sonho infinito de morrer Passa a caber no berço de uma cova.
Outra carne vírá. A primavera É carne, o amor é seiva eterna e forte Quando o ser que viver unir-se à morte No mundo uma criança nascerá.
Importará jamais por quê? Adiante O poema é translúcido, e distante A palavra que vem do pensamento
Sem saudade. Não ter contentamento. Ser simples como o grão de poesia. E íntimo como a melancolia.
II
Uma mulher me ama. Se eu me fosse Talvez ela sentisse o desalento Da árvore jovem que não ouve o vento Inconstante e fiel, tardio e doce.
Na sua tarde em flor. Uma mulher Me ama como a chama ama o silêncio E o seu amor vitorioso vence O desejo da morte que me quer.
Uma mulher me ama. Quando o escuro Do crepúsculo mórbido e maduro Me leva a face ao gênio dos espelhos
E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos Vindos de ver a morte em mim divina: Uma mulher me ama e me ilumina.
III
O efêmero. Ora, um pássaro no vale Cantou por um momento, outrora, mas O vale escuta ainda envolto em paz Para que a voz do pássaro não cale.
E uma fonte futura, hoje primária No seio da montanha, irromperá Fatal, da pedra ardente, e levará À voz a melodia necessária.
O efêmero. E mais tarde, quando antigas Se fizerem as flores, e as cantigas A uma nova emoção morrerem, cedo
Quem conhecer o vale e o seu segredo Nem sequer pensará na fonte, a sós... Porém o vale há de escutar a voz.
IV
Apavorado acordo, em treva. O luar É como o espectro do meu sonho em mim E sem destino, e louco, sou o mar Patético, sonâmbulo e sem fim.
Desço na noite, envolto em sono; e os braços Como ímãs, atraio o firmamento Enquanto os bruxos, velhos e devassos Assoviam de mim na voz do vento.
Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe Sem dimensão e sem razão me leva Para o silêncio onde o Silêncio dorme
Enorme. E como o mar dentro da treva Num constante arremesso largo e aflito Eu me espedaço em vão contra o infinito.
Soneto da rosa
Mais um ano na estrada percorrida Vem, como o astro matinal, que a adora Molhar de puras lágrimas de aurora A morna rosa escura e apetecida.
E da fragrante tepidez sonora No recesso, como ávida ferida Guardar o plasma múltiplo da vida Que a faz materna e plácida, e agora
Rosa geral de sonho e plenitude Transforma em novas rosas de beleza Em novas rosas de carnal virtude
Para que o sonho viva da certeza Para que o tempo da paixão não mude Para que se una o verbo à natureza.
Soneto do maior amor
Maior amor nem mais estranho existe Que o meu, que não sossega a coisa amada E quando a sente alegre, fica triste E se a vê descontente, dá risada.
E que só fica em paz se lhe resiste O amado coração, e que se agrada Mais da eterna aventura em que persiste Que de uma vida mal-aventurada.
Louco amor meu, que quando toca, fere E quando fere vibra, mas prefere Ferir a fenecer – e vive a esmo
Fiel à sua lei de cada instante Desassombrado, doido, delirante Numa paixão de tudo e de si mesmo.
Soneto de despedida
Uma lua no céu apareceu Cheia e branca; foi quando, emocionada A mulher a meu lado estremeceu E se entregou sem que eu dissesse nada.
Larguei-as pela jovem madrugada Ambas cheias e brancas e sem véu Perdida uma, a outra abandonada Uma nua na terra, outra no céu.
Mas não partira delas; a mais louca Apaixonou-me o pensamento; dei-o Feliz – eu de amor pouco e vida pouca
Mas que tinha deixado em meu enleio Um sorriso de carne em sua boca Uma gota de leite no seu seio.
Soneto de véspera
Quando chegares e eu te vir chorando De tanto te esperar, que te direi? E da angústia de amar-te, te esperando Reencontrada, como te amarei?
Que beijo teu de lágrimas terei Para esquecer o que vivi lembrando E que farei da antiga mágoa quando Não puder te dizer por que chorei?
Como ocultar a sombra em mim suspensa Pelo martírio da memória imensa Que a distância criou – fria de vida
Imagem tua que eu compus serena Atenta ao meu apelo e à minha pena E que quisera nunca mais perdida...
Soneto de separação
De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente.
Soneto à lua
Por que tens, por que tens olhos escuros E mãos lânguidas, loucas e sem fim Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim Impuro, como o bem que está nos puros?
Que paixão fez-te os lábios tão maduros Num rosto como o teu criança assim Quem te criou tão boa para o ruim E tão fatal para os meus versos duros?
Fugaz, com que direito tens-me presa A alma que por ti soluça nua E não és Tatiana e nem Teresa:
E és tampouco a mulher que anda na rua Vagabunda, patética, indefesa Ó minha branca e pequenina lua!
Soneto de agosto
Tu me levaste, eu fui... Na treva, ousados Amamos, vagamente surpreendidos Pelo ardor com que estávamos unidos Nós que andávamos sempre separados.
Espantei-me, confesso-te, dos brados Com que enchi teus patéticos ouvidos E achei rude o calor dos teus gemidos Eu que sempre os julgara desolados.
Só assim arrancara a linha inútil Da tua eterna túnica inconsútil... E para a glória do teu ser mais franco
Quisera que te vissem como eu via Depois, à luz da lâmpada macia O púbis negro sobre o corpo branco
Soneto de contrição
Eu te amo, Maria, eu te amo tanto Que o meu peito me dói como em doença E quanto mais me seja a dor intensa Mais cresce na minha alma teu encanto.
Como a criança que vagueia o canto Ante o mistério da amplidão suspensa Meu coração é um vago de acalanto Berçando versos de saudade imensa.
Não é maior o coração que a alma Nem melhor a presença que a saudade Só te amar é divino, e sentir calma...
E é uma calma tão feita de humildade Que tão mais te soubesse pertencida Menos seria eterno em tua vida.
Soneto de fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento
Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa lhe dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure
Soneto de devoção
Essa mulher que se arremessa, fria E lúbrica aos meus braços, e nos seios Me arrebata e me beija e balbucia Versos, votos de amor e nomes feios.
Essa mulher, flor de melancolia Que se ri dos meus pálidos receios A única entre todas a quem dei Os carinhos que nunca a outra daria.
Essa mulher que a cada amor proclama A miséria e a grandeza de quem ama E guarda a marca dos meus dentes nela.
Essa mulher é um mundo! – uma cadela Talvez... – mas na moldura de uma cama Nunca mulher nenhuma foi tão bela!
Soneto ao inverno
Inverno, doce inverno das manhãs Translúcidas, tardias e distantes Propício ao sentimento das irmãs E ao mistério da carne das amantes:
Quem és, que transfiguras as maçãs Em iluminações dessemelhantes E enlouqueces as rosas temporãs Rosa-dos-ventos, rosa dos instantes?
Por que ruflaste as tremulantes asas Alma do céu? o amor das coisas várias Fez-te migrar – inverno sobre casas!
Anjo tutelar das luminárias Preservador de santas e de estrelas... Que importa a noite lúgubre escondê-las?
Soneto de carnaval
Distante o meu amor, se me afigura O amor como um patético tormento Pensar nele é morrer de desventura Não pensar é matar meu pensamento.
Seu mais doce desejo se amargura Todo o instante perdido é um sofrimento Cada beijo lembrado uma tortura Um ciúme do próprio ciumento.
E vivemos partindo, ela de mim E eu dela, enquanto breves vão-se os anos Para a grande partida que há no fim
De toda a vida e todo o amor humanos: Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo Que se um fica o outro parte a redimi-lo.
Ternura
Eu te peço perdão por te amar de repente Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos Das horas que passei à sombra dos teus gestos Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos Das noites que vivi acalentado Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente. E posso te dizer que o grande afeto que te deixo Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas Nem as misteriosas palavras dos véus da alma... É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias E só te pede que te repouses quieta, muito quieta E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.
Vazio
A noite é como um olhar longo e claro de mulher. Sinto-me só. Em todas as coisas que me rodeiam Há um desconhecimento completo da minha infelicidade. A noite alta me espia pela janela E eu, desamparado de tudo, desamparado de mim próprio Olho as coisas em torno Com um desconhecimento completo das coisas que me rodeiam. Vago em mim mesmo, sozinho, perdido Tudo é deserto, minha alma é vazia E tem o silêncio grave dos templos abandonados. Eu espio a noite pela janela Ela tem a quietação maravilhosa do êxtase. Mas os gatos embaixo me acordam gritando luxúrias E eu penso que amanhã... Mas a gata vê na rua um gato preto e grande E foge do gato cinzento. Eu espio a noite maravilhosa Estranha como um olhar de carne. Vejo na grade o gato cinzento olhando os amores da gata e do gato preto Perco-me por momentos em antigas aventuras E volto à alma vazia e silenciosa que não acorda mais Nem à noite clara e longa como um olhar de mulher Nem aos gritos luxuriosos dos gatos se amando na rua.