Como discutem e como gritam! Como desconfiam e se desesperam! Nunca param de brigar! Que tua vida se ponha entre eles, inalterável e pura Como uma língua de luz E lhes imponha silêncio com sua formosura. Que cruéis os torna a cobiça e o ciúme! Como Violências disfarçadas sedentas de sangue são suas palavras. Ponha-se entre seus corações irados e que Teu olhar sublime caia sobre eles como cai a indulgente Paz do anoitecer sobre a batalha do dia. Deixe que olhem tua face E que assim compreendam o sentido de todas as coisas. Que te amem, e assim amem um ao outro. Vem ocupar teu lugar nos braços do Eterno. Abre e levanta teu coração ao nascer do sol, como uma nova flor. E quando o sol se pôr, inclina tua cabeça e reze Em silêncio a oração da tarde.
Aforismos
° Como as gaivotas e as ondas se encontram, nos encontramos e nos unimos. Vão-se as gaivotas voando, vão pairando sobre as ondas; e nós também vamos.
° Se de noite choras pelo sol, não verás as estrelas.
° A luz do sol me saúda sorrindo. A chuva, sua irmã triste, me fala ao coração.
° Se faço sombra em meu caminho, é porque há uma lâmpada em mim que ainda não foi acesa.
° Teu sol sorri nos dias de inverno de meu coração, e não duvido jamais das flores de tua primavera.
° Quando o dia cai, a noite o beija e lhe diz ao ouvido: 'Sou tua mãe a morte, e te hei de dar nova vida'.
° O mistério da vida é tão grande como a sombra na noite.
° A ilusão da sabedoria é como a névoa do amanhecer.
° Lemos mal o mundo, e dizemos logo que nos engana.
° A borboleta conta momentos e não meses, e tem tempo de sobra.
° Quando eu estiver contigo no fim do dia, poderás ver as minhas cicatrizes, e então saberás que eu me feri e também me curei.
° Cada criança nos chega com uma mensagem de que Deus ainda não se esqueceu dos homens.
° Elogios me acanham, mas secretamente imploro por eles.
Cantar me enlouquece
Quando me ordenas cantar, parece que o meu coração vai arrebentar-se... Pensei que poderia te pedir a grinalda de flores que levas no pescoço...
Essa que ficou sempre na profundidade do meu ser...
A minha libertação... Daqui por diante eu me expressarei em sussurros...
Cantar me enlouquece...
Quando me ordenas cantar, parece que o meu coração vai arrebentar-se de orgulho. Então contemplo a tua face e as lágrimas me vêm aos olhos.
Tudo o que é duro e dissonante em minha vida se dissolve em única e doce harmonia, e a minha adoração abre as suas asas, como um pássaro alegre voando sobre o mar.
Sei que tens prazer no meu canto. Sei que posso chegar à tua presença apenas como um cantor.
Com a ponta da asa imensamente aberta do meu canto eu roço os teus pés, que eu jamais poderia querer alcançar.
Embriagado pela alegria de cantar, esqueço a mim mesmo e te chamo amigo, tu que és o meu Senhor.
Pensei que poderia te pedir a grinalda de flores que levas no pescoço, mas não me atrevi. Fiquei esperando pela manhã, quando tivesses ido embora, para encontrar pedaços dela no leito. E fiquei na madrugada feito mendiga, procurando uma ou duas pétalas caídas.
Coitada de mim, o que foi que encontrei? O que me restou do teu amor? Nem flor, nem perfume, nem jarro de água perfumada... Apenas a tua espada poderosa, flamejante como chama e pesada como raio na tempestade. A luz jovem da manhã entra pela janela e se derrama em teu leito. O pássaro da manhã começa a cantar, e me pergunta: "Mulher, o que é que encontraste?" Não, não foi uma flor, nem perfume e nem jarro de água perfumada. Encontrei apenas a tua espada poderosa.
Sento-me e fico cismando, admirada com essa tua dádiva. Não acho lugar onde escondê-la. Tenho vergonha de usá-la, tão frágil sou, e ela me fere quando eu a aperto contra o peito. Mesmo assim, porém, eu levarei no meu coração esse honroso fardo de dor, que é a tua dádiva para mim.
Doravante nada mais temerei neste mundo, e tu conquistarás a vitória em todas as minhas lutas. Deste-me a morte por companheira, e eu vou coroá-la com a minha vida. A tua espada está comigo para cortar as minhas amarras, e nada mais temerei neste mundo.
Doravante eu abandono todos os adornos fúteis. Senhor do meu coração, não vou mais ficar esperando ou me desesperando pelos cantos, e nunca mais vou ser tímida ou caprichosa. Deste-me como ornamento a tua espada. Não preciso mais dos enfeites de boneca.
Essa que ficou sempre na profundidade do meu ser, no crepúsculo de vislumbres e percepções momentâneas; essa que jamais retirou seus véus na luz da manhã, essa irá ser a minha última oferenda a ti, meu Deus, envolta na minha canção final.
As palavras a cortejam, mas não conseguiram vencê-la, e a persuasão inutilmente estendeu para ela os seus braços ansiosos.
Vaguei de país em país, conservando-a no íntimo do meu coração, e ao redor dela a minha vida ergueu-se e caiu, ao mesmo tempo forte e frágil.
Embora habite sozinha e afastada, ela sempre reinou sobre todos os meus pensamentos e ações, sobre todos os meus sonos e sonhos.
Muitos bateram à minha porta, perguntaram por ela, e foram-se embora, sem esperança.
Ninguém no mundo conseguiu vê-la face a face, e ela continua em sua solidão, à espera do teu reconhecimento.
A minha libertação, para mim, não está na renúncia. Sinto o abraço da liberdade em mil laços de prazer.
Daqui por diante eu me expressarei em sussurros... ...Gastei muitas e muitas horas na luta entre o bem e o mal. Mas agora o prazer do meu companheiro de jogos nos dias vazios é atrair o meu coração para o seu. E eu não compreendo por que esse repentino convite para não sei qual inútil inconseqüência!
Cantar me enlouquece, e se eu me desfizesse todo num vôo de canção, nada me pesaria tanto...
Desejo
Desejo dizer-lhe as palavras mais profundas, mas não me atrevo, porque temo sua gozação. Por isso acho graça de mim mesmo e transformo em brincadeira meu segredo. Duvido de minha angústia, para que você não duvide. Desejo dizer-lhe as palavras mais sinceras, mas não me atrevo, porque temo que não acredite. Por isso as disfarço de mentiras e digo o contrário do que penso. Me esforço para que minha angústia não pareça absurda para que você não ache que é. Desejo dizer-lhe as palavras mais valiosas, mas não me atrevo, porque temo não ser correspondido. Por isso me declaro duramente e me orgulho de minha insensibilidade. Desejo sentar-me silenciosamente a seu lado, mas não me atrevo, porque temo que meus lábios traiam meu coração. Por isso falo disparatadamente, escondendo meu coração atrás das minhas palavras. Trato a mim mesmo com dureza, para que você não o faça. Desejo separar-me de você, mas não me atrevo, porque temo que descubra minha covardia. Por isso levanto a cabeça e fico perto de você com ar indiferente. A constante provocação de nossos olhares remove minha angústia sem piedade.
Flor de Lótus
No dia em que a flor de lótus desabrochou A minha mente vagava, e eu não a percebi. Minha cesta estava vazia e a flor ficou esquecida. Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim. Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro De um perfume no vento sul. Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade. Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se. Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim Que ela era minha, e que essa perfeita doçura Tinha desabrochado no fundo do meu coração.
Gitanjali
Deixa a cantilena, o cântico e a recitação de contas de rosário! A quem veneras neste recanto solitário e escuro dum templo de portas fechadas? Abre teus olhos e vê que teu Deus não está diante de ti! Ele está onde o agricultor está lavrando o chão duro e onde o pedreiro está rachando pedras. Ele está com eles no sol e na chuva, e sua roupa está coberta de poeira. Remove teu manto sagrado e como Ele desça para o chão empoeirado! Libertação? Onde se encontra esta libertação? Nosso mestre assumiu pessoalmente com alegria os vínculos da criação; Ele está vinculado a nós para sempre. Sai de tuas meditações e deixa de lado tuas flores e o incenso! Que mal há se tuas roupas ficam gastas e manchadas? Encontra-o e fica com Ele na faina e no suor de tua face.
Minha canção
Minha canção te envolverá com sua música, como os abraços sublimes do amor. Tocará o teu rosto como um beijo de graças. Quando estiveres só, se sentará a teu lado e te falará ao ouvido. Minha canção será como asas para os teus sonhos e elevará teu coração até o infinito. Quando a noite escurecer o teu caminho, minha canção brilhará sobre ti como a estrela fiel. Se fixará nos teus lindos olhos e guiará teu olhar até a alma das coisas. Quando minha voz se calar para sempre, minha canção te seguirá em teus pensamentos.
Meditação
O amanhã pertence a nós! Ó Sol, levanta-te sobre os corações que sangram E desabrocham como flores na manhã, E também sobre o banquete do orgulho, Ontem iluminado por tochas, e hoje reduzido a cinzas...
Poema de Despedida
É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs Eu já devolvi as chaves da minha porta E desisto de qualquer direito à minha casa. Fomos vizinhos durante muito tempo E recebi mais do que pude dar. Agora vai raiando o dia E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro Apagou-se. Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada. Não indaguem sobre o que levo comigo. Sigo de mãos vazias e o coração confiante.
Se me é negado o amor
Se me é negado o amor, por que, então, amanhece; por que sussurra o vento do sul entre as folhas recém nascidas? Se me é negado o amor, por que, então, A noite entristece com nostálgico silêncio as estrelas? E por que este desatinado coração continua, Esperançado e louco, olhando o mar infinito?
Se não falas
Se não falas, vou encher o meu coração Com o teu silêncio, e aguentá-lo. Ficarei quieto, esperando, como a noite Na sua vigília estrelada, Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá, A escuridão se dissipará, e a tua voz Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão Em canções de cada ninho dos meus pássaros, E as tuas melodias brotarão Em flores por todos os recantos da minha floresta.
Verdades
Roubo do hoje a força Fazendo nascer o amanhã. Da janela acompanho com olhar As nuvens do céu. De novo a sombra sinistra Tolda tristemente meus sonhos.
Tua imagem me acompanha Por todos os lugares por onde ando. E em todos os momentos É a tua presença que espanta As brumas do desconhecido.
Não faço perguntas. Tenho medo das respostas que já sei. Liberta do invólucro físico Devolverei a matéria ao pó de que fora feito.
Vivi meus três caminhos na terra. Purgatório. Inferno. Céu. Tudo de acordo com meus projetos, Minhas atitudes, Procurando não reincidir nos mesmos erros.
Agora - vago e espero Entre ápodos e flagelos O ressurgir da verdade