Água, sal e vontade – a vida! Azul – a cor do céu e da inocência. Um lenço a colorir a despedida Da galera da ausência…
Mar tenebroso! Mar fechado e rugoso Sobre um casto jardim adormecido! Mar de medusas que ninguém semeia, Criadas com mistério e com areia, Perfeitas de beleza e de sentido!
Vem a sede da terra e não se acalma! Vem a força do mundo e não te doma! Impenitente e funda, a tua alma Guarda-se no cristal duma redoma. Guarda-se purificada em leve espuma, Renda da sua túnica de linho. Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma, Sem amor, sem ternura e sem caminho.
O navio do sonho foi ao fundo, E o capitão, despido, jaz ao leme, Branco nos ossos descarnados; Uma alga no peito, a flor do mundo, Uma fibra de amor que vive e treme De ouvir segredos vãos, petrificados.
Uma ilusão enfuna e enxuga a vela, Uma desilusão a rasga e molha; Morta a magia que pintava a tela, O mesmo olhar de há pouco já não olha.
Na órbita vazia um cego ouriço Pica o silêncio leve que perpassa… Pica o novo feitiço Que nasce do final de uma desgraça.
Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras Sobem à tona das marés… O navio encalhado e as suas eras Lá permanecem a milhentos pés.
Soterrados em verde, negro e vago, Nenhum sol os aquece. Habitantes do lago Do esquecimento, só a sombra os tece…
Ela que és tu, anónimo oceano, Coração ciumento e namorado! Ela que és tu, arfar viril e plano, Largo como um abraço descuidado!
Tu, mar fechado, aberto e descoberto Com bússolas e gritos de gajeiro! Tu, mar salgado, lírico, coberto De lágrimas, iodo e nevoeiro!
A Terra
Também eu quero abrir-te e semear Um grão de poesia no teu seio! Anda tudo a lavrar, Tudo a enterrar centeio, E são horas de eu pôr a germinar A semente dos versos que granjeio.
Na seara madura de amanhã Sem fronteiras nem dono, Há de existir a praga da milhã, A volúpia do sono Da papoula vermelha e temporã, E o alegre abandono De uma cigarra vã.
Mas das asas que agite, O poema que cante Será graça e limite Do pendão que levante A fé que a tua força ressuscite!
Casou-nos Deus, o mito! E cada imagem que me vem É um gomo teu, ou um grito Que eu apenas repito Na melodia que o poema tem.
Terra, minha aliada Na criação! Seja fecunda a vessada, Seja à tona do chão, Nada fecundas, nada, Que eu não fermente também de inspiração!
E por isso te rasgo de magia E te lanço nos braços a colheita Que hás de parir depois... Poesia desfeita, Fruto maduro de nós dois.
Terra, minha mulher! Um amor é o aceno, Outro a quentura que se quer Dentro dum corpo nu, moreno!
A charrua das leivas não concebe Uma bolota que não dê carvalhos; A minha, planta orvalhos... Água que a manhã bebe No pudor dos atalhos.
Terra, minha canção! Ode de pólo a pólo erguida Pela beleza que não sabe a pão Mas ao gosto da vida!
Água
Água a correr na fonte. Uma quimera líquida que sai Das entranhas do monte A saber ao mistério que lá vai… Pura Branca, inodora e fria, Cai numa pedra dura E desfaz o mistério em melodia.
A Orfeu
Das tuas mãos divinas de Poeta Herdei a lira que não sei tanger; Por eleição ou maldição secreta, Tenho uma grade para me prender.
Cercam-me as cordas, de emoção, Versos de ferro onde me rasgo inteiro. Mas, do fundo da alma e da prisão, Obrigado, meu Deus e carcereiro!
Apelo
Porque não vens agora, que te quero E adias esta urgencia? Prometes-me o futuro e eu desespero O futuro é o disfarce da impotência....
Hoje, aqui, já, neste momento, Ou nunca mais. A sombra do alento é o desalento O desejo o limite dos mortais.
Ave da Esperança
Passo a noite a sonhar o amanhecer. Sou a ave da esperança. Pássaro triste que na luz do sol Aquece as alegrias do futuro, O tempo que há-de vir sem este muro De silêncio e negrura A cercá-lo de medo e de espessura Maciça e tumular; O tempo que há-de vir - esse desejo Com asas, primavera e liberdade; Tempo que ninguém há-de Corromper Com palavras de amor, que são a morte Antes de se morrer.
A um secreto leitor
No silêncio da noite é que eu te falo Como através dum ralo De confissão. Auscultadores impessoais e atentos, Os teus ouvidos são Ermos abertos para os meus tormentos.
Sem saber o teu nome - juiz que ninguém pode corromper -, Murmuro-te os meus versos, os pecados, Penitente e seguro De que serás um búzio do futuro, Se os poemas me forem perdoados.
Aos Poetas
Somos nós As humanas cigarras! Nós, Desde os tempos de Esopo conhecidos. Nós, Preguiçosos insectos perseguidos. Somos nós os ridículos comparsas Da fábula burguesa da formiga. Nós, a tribo faminta de ciganos Que se abriga Ao luar. Nós, que nunca passamos A passar!...
Somos nós, e só nós podemos ter Asas sonoras, Asas que em certas horas Palpitam, Asas que morrem, mas que ressuscitam Da sepultura! E que da planura Da seara Erguem a um campo de maior altura A mão que só altura semeara.
Por isso a vós, Poetas, eu levanto A taça fraternal deste meu canto, E bebo em vossa honra o doce vinho Da amizade e da paz! Vinho que não é meu, mas sim do mosto que a beleza traz!
E vos digo e conjuro que canteis! Que sejais menestreis De uma gesta de amor universal! Duma epopeia que não tenha reis, Mas homens de tamanho natural! Homens de toda a terra sem fronteiras! De todos os feitios e maneiras, Da cor que o sol lhes deu à flor da pele! Crias de Adão e Eva verdadeiras! Homens da torre de Babel!
Homens do dia a dia Que levantem paredes de ilusão! Homens de pés no chão, Que se calcem de sonho e de poesia Pela graça infantil da vossa mão!
Ariane
Ariane é um navio. Tem mastros, velas e bandeira à proa, E chegou num dia branco, frio, A este rio Tejo de Lisboa. Carregado de Sonho, fundeou Dentro da claridade destas grades... Cisne de todos, que se foi, voltou Só para os olhos de quem tem saudades... Foram duas fragatas ver quem era Um tal milagre assim: era um navio Que se balança ali à minha espera Entre as gaivotas que se dão no rio. Mas eu é que não pude ainda por meus passos Sair desta prisão em corpo inteiro, E levantar âncora, e cair nos braços De Ariane, o veleiro.
Brasil
Pátria de emigração. É num poema que te posso ter... A terra - possessiva inspiração; E os rios - como versos a correr. Achada na longínqua meninice, Perdida na perdida juventude, Guardei-te como podia: na doce quietude Da força represada da poesia. E assim consigo ver-te Como te sinto: Na doirada moldura de lembrança, O retrato da pura imensidade A que dei a possível semelhança Com palavras e rimas de saudade.
Bucólica
A vida é feita de nadas: De grandes serras paradas À espera de movimento; De searas onduladas Pelo vento; De casas de moradia Caídas e com sinais De ninhos que outrora havia Nos beirais; De poeira; De sombra de uma figueira: Meu pai a erguer uma videira Como uma mãe que faz a trança à filha.
Canção do Semeador
Na terra negra da vida, Pousio do desespero, É que o Poeta semeia Poemas de confiança. O Poeta é uma criança Que devaneia. Mas todo o semeador Semeia contra o presente. Semeia como vidente A seara do futuro, Sem saber se o chão é duro E lhe recebe a semente.
Claro-escuro
Dia da vida Noite da morte... O verso E o reverso Da medalha. E não há desespero que nos valha, Nem crença, Nem descrença, Nem filosofia. Esta brutalidade, e nada mais: Sol e sombra -o binómio dos mortais.
Só que o sol vem primeiro, E a sombra depois... E à luz do sol é tudo o que sabemos: Juventude, Beleza, Poesia, E amor -Amargo fruto que na sepultura, Em vez de apodrecer, ganha doçura.
Conquista
Livre não sou, que nem a própria vida Mo consente Mas a minha aguerrida Teimosia É quebrar dia a dia Um grilhão da corrente. Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino. E vão lá desdizer o sonho do menino Que se afogou e flutua Entre nenúfares de serenidade Depois de ter a lua!
Camões
Nem tenho versos, cedro desmedido, Da pequena floresta portuguesa! Nem tenho versos, de tão comovido Que fico a olhar de longe tal grandeza.
Quem te pode cantar, depois do Canto Que deste à pátria, que to não merece? O sol da inspiração que acendo e que levanto Chega aos teus pés e como que arrefece.
Chamar-te génio é justo, mas é pouco. Chamar-te herói, é dar-te um só poder. Poeta dum império que era louco, Foste louco a cantar e louco a combater.
Sirva, pois, de poema este respeito Que te devo e confesso, Única nau do sonho insatisfeito Que não teve regresso.
Confiança
O que é bonito neste mundo, e anima, É ver que na vindima De cada sonho Fica a cepa a sonhar outra aventura... E que a doçura Que se não prova Se transfigura Numa doçura Muito mais pura E muito mais nova...
Claridade
Clareou. Vieram pombas e sol, E de mistura com o sonho Posou tudo num telhado… Eu destas grades a ver Desconfiado Depois Uma rapariga loura (era loura) num mirante estendeu roupa num cordel: roupa branca, remendada que se via que era de gente lavada, e só por isso aquecia…E não foi preciso mais: Logo a alma Clareou por sua vez. Logo o coração parado Bateu a grande pancada Da vida com sol e pombas E roupa branca, lavada.
Comunhão
Tal como o camponês, que canta a semear A terra, Ou como tu, pastor, que cantas a bordar A serra De brancura, Assim eu canto, sem me ouvir cantar, Livre e à minha altura. Semear trigo e apascentar ovelhas É oficiar à vida Numa missa campal. Mas como sobra desse ritual Uma leve e gratuita melodia, Junto o meu canto de homem natural Ao grande coro dessa poesia.
Caminho
Agora que o silêncio é um mar sem ondas, E que nele posso navegar sem rumo, Não respondas Às urgentes perguntas Que te fiz. Deixa-me ser feliz Assim, Já tão longe de ti como de mim. Perde-se a vida a desejá-la tanto. Só soubemos sofrer, enquanto O nosso amor Durou. Mas o tempo passou, Há calmaria... Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria Matar a sede com água salgada.
Cálix de amargura
E a vida não responde! Faz que não ouve, e vai direita aonde Eu não tenho palavras. Aí, então, às lágrimas que choro Põe-lhes sal de silêncio E dá-mas a beber, tão brancas e caladas, Tão quentes da fogueira das paixões, Que não parecem minhas: Mas vinho que se colhe em certas vinhas À beira dos vulcões.
Câmara
Devagar, Hora a hora, Dia a dia, Como se o tempo fosse um banho de acidez, Vou vendo com mais nitidez O negativo da fotografia.
E o que eu sou por detrás do que pareço! Que seguida traição desde o começo, Em cada gesto, em cada grito, Em cada verso! Sincero sempre, mas obstinado Numa sinceridade Que vende ao mesmo preço O direito e o avesso Da verdade.
Dois homens num só rosto! Uma espécie de Jano sobreposto, Inocente, Impotente, E condenado A este assombro de se ver forrado Dum pano de negrura que desmente A nua claridade do outro lado.
Depoimento
Deponho no processo do meu crime. Sou testemunha E réu E vítima E juiz Juro Que havia um muro, E na face do muro uma palavra a giz. merda! – lembro-me bem. – Crianças…… – disse alguém que ia a passar. Mas voltei novamente a soletar O vocábulo indecente, E de repente Como quem adivinha, Numa tristeza já de penitente Vi que a letra era minha…
Desfecho
Não tenho mais palavras. Gastei-as a negar-te... (Só a negar-te eu pude combater O terror de te ver Em toda a parte).
Fosse qual fosse o chão da caminhada, Era certa a meu lado A divina presença impertinente Do teu vulto calado E paciente...
E lutei, como luta um solitário Quando alguém lhe perturba a solidão. Fechado num ouriço de recusas, Soltei a voz, arma que tu não usas, Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó O joio amargo do que te dizia... Agora somos dois obstinados, Mudos e malogrados, Que apenas vão a par na teimosia.
Depois da chuva
Abre a janela, e olha! Tudo o que vires é teu. A seiva que lutou em cada folha, E a fé que teve medo e se perdeu. Abre a janela, e colhe! É o que quiser a tua mão atenta: Água barrenta, Água que molhe, Água que mate a sede... Abre a janela, quanto mais não seja Para que haja um sorriso na parede!
Esperança
Tantas formas revestes, e nenhuma Me satisfaz! Vens às vezes no amor, e quase te acredito. Mas todo o amor é um grito Desesperado Que ouve apenas o eco... Peco Por absurdo humano: Quero não sei que cálice profano Cheio dum vinho herético e sagrado.
Êxtase
Terra, minha medida! Com que ternura te encontro Sempre inteira nos sentidos, Sempre redonda nos olhos, Sempre segura nos pés, Sempre a cheirar a fermento! Terra amada! Em qualquer sítio e momento, Enrugada ou descampada, Nunca te desconheci! Berço do meu sofrimento, Cabes em mim, e eu em ti!
Flor da Liberdade
Sombra dos mortos, maldição dos vivos. Também nós... Também nós... E o sol recua. Apenas o teu rosto continua A sorrir como dantes, Liberdade! Liberdade do homem sobre a terra, Ou debaixo da terra. Liberdade! O não inconformado que se diz A Deus, à tirania, à eternidade.
Sepultos, insepultos, Vivos amortalhados, Passados e presentes cidadãos: Temos nas nossas mãos O terrível poder de recusar! E é essa flor que nunca desespera No jardim da perpétua primavera.
Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel, Um cordel E um menino de bibe.
O menino tinha lançado a estrela Com ar de quem semeia uma ilusão; E a estrela ia subindo, azul e amarela, Presa pelo cordel à sua mão.
Mas tão alto subiu Que deixou de ser estrela de papel. E o menino, ao vê-la assim, sorriu E cortou-lhe o cordel.
Guerra Civil
É contra mim que luto Não tenho outro inimigo. O que penso O que sinto O que digo E o que faço É que pede castigo E desespera a lança no meu braço
Absurda aliança De criança E de adulto. O que sou é um insulto Ao que não sou E combato esse vulto Que à traição me invadiu e me ocupou
Infeliz com loucura e sem loucura, Peço à vida outra vida, outra aventura, Outro incerto destino. Não me dou por vencido Nem convencido E agrido em mim o homem e o menino.
Grito
Ah, mãos que não moldais o desespero! Versos que não dizeis quanto eu preciso! Como um cego, indeciso Entre a força da inércia E o desejo instintivo De movimento, Assim é o meu instável sofrimento, Ou todo motivado, ou sem motivo. Quero e não quero, dou-me a cada instante E recuso-me logo, amedrontado. Inconstante, Oscilo como um vime vertical, diante Das brisas e rajadas do meu fado. Ardo nesta fogueira de tristeza Que não sei quem acende a cada hora. Sei que a minha alma chora Como débil criança Que tem medo da noite que a rodeia. Noite cerrada e cheia De pesadelos. A sorte, a bruxa, a urdir a sua teia Com a vida apertada nos novelos.
História Antiga
Era uma vez, lá na Judeia, um rei. Feio bicho, de resto: Uma cara de burro sem cabresto E duas grandes tranças. A gente olhava, reparava, e via Que naquela figura não havia Olhos de quem gosta de crianças. E, na verdade, assim acontecia. Porque um dia, O malvado, Só por ter o poder de quem é rei Por não ter coração, Sem mais nem menos, Mandou matar quantos eram pequenos Nas cidades e aldeias da Nação. Mas, Por acaso ou milagre, aconteceu Que, num burrinho pela areia fora, Fugiu Daquelas mãos de sangue um pequenito Que o vivo sol da vida acarinhou; E bastou Esse palmo de sonho Para encher este mundo de alegria; Para crescer, ser Deus; E meter no inferno o tal das tranças, Só porque ele não gostava de crianças.
Ícaro
O sol dos Sonhos derreteu-lhe as asas. E caiu lá do céu onde voava Ao rés-do-chão da vida. A um mar sem ondas onde navegava A paz rasteira nunca desmentida...
Mas ainda dorida No seio sedativo da planura, A alma já lhe pede impenitente, A graça urgente De uma nova aventura.
Identidade
Matei a lua e o luar difuso. Quero os versos de ferro e de cimento. E em vez de rimas, uso As consonâncias que há no sofrimento.
Universal e aberto, o meu instinto acode A todo o coração que se debate aflito. E luta como sabe e como pode: Dá beleza e sentido a cada grito.
Mas como as inscrições nas penedias Têm maior duração, Gasto as horas e os dias A endurecer a forma da emoção.
Lição
Oiço todos os dias, De manhãzinha, Um bonito poema Cantado por um melro Madrugador. Um poema de amor Singelo e desprendido, Que me deixa no ouvido Envergonhado A lição virginal Do natural, Que é sempre o mesmo, e sempre variado.
Letreiro
Porque não sei mentir, Não vos engano: Nasci subversivo. A começar por mim - meu principal motivo De insatisfação -, Diante de qualquer adoração, Ajuízo. Não me sei conformar E saio, antes de entrar, De cada paraíso.
Lezíria
São cinzentas mulheres. Cantam não sei que mágoa Que se debruça e já nem mostra o rosto. Cantam, plantadas n'água, Ao sol e à monda neste mês de Agosto.
Cantam o Norte e o Sul duma só vez. Cantam baixo, e parece Que na raiz humana dos seus pés Qualquer coisa apodrece.
Livro de horas
Aqui diante de mim, eu, pecador, me confesso de ser assim como sou. Me confesso o bom e o mau que vão ao leme da nau nesta deriva em que vou.
Me confesso possesso das virtudes teologais, que são três,
e dos pecados mortais, que são sete, quando a terra não repete que são mais.
Me confesso o dono das minhas horas O dos facadas cegas e raivosas, e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo andanças do mesmo todo.
Me confesso de ser charco e luar de charco, à mistura. De ser a corda do arco que atira setas acima e abaixo da minha altura.
Me confesso de ser tudo que possa nascer em mim. De ter raízes no chão desta minha condição. Me confesso de Abel e de Caim.
Me confesso de ser Homem. De ser um anjo caído do tal céu que Deus governa; de ser um monstro saído do buraco mais fundo da caverna.
Me confesso de ser eu. Eu, tal e qual como vim para dizer que sou eu aqui, diante de mim!
Mar
Mar! E é um aberto poema que ressoa No búzio do areal... Ah, quem pudesse ouvi-lo sem mais versos! Assim puro, Assim azul, Assim salgado... Milagre horizontal Universal, Numa palavra só realizado.
Mar
Mar! Tinhas um nome que ninguém temia: Eras um campo macio de lavrar Ou qualquer sugestão que apetecia... Mar! Tinhas um choro de quem sofre tanto Que não pode calar-se, nem gritar, Nem aumentar nem sufocar o pranto... Mar! Fomos então a ti cheios de amor! E o fingido lameiro, a soluçar, Afogava o arado e o lavrador! Mar! Enganosa sereia rouca e triste! Foste tu quem nos veio namorar, E foste tu depois que nos traíste! Mar! E quando terá fim o sofrimento! E quando deixará de nos tentar O teu encantamento!
Magnólia
Uma flor. Uma cor Acordada. Uma vida feliz Que o diz Numa voz perfumada.
Mãe
Mãe: Que desgraça na vida aconteceu, Que ficaste imóvel e gelada? Que todo o teu perfil se endureceu Numa linha severa e desenhada?
Como as estátuas, que são gente nossa Cansada das palavras e ternura, Assim tu me pareces no teu leito. Presença cinzelada em pedra dura, Que não tem coração dentro do peito.
Chamo as gritos por ti - não me respondes. Beijo-te as mãos e o rosto - sinto frio. Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes Por detrás do terror deste vazio.
Mãe: Abre os olhos ao menos, diz que sim! Diz que me vês ainda, que me queres. Que és a eterna mulher entre as mulheres, Que nem a morte te afastou de mim!
Mudez
Que desgraça, meu Deus! Tenho a Ilíada aberta à minha frente, Tenho a memória cheia de poemas, Tenho os versos que fiz, E todo o santo dia me rasguei À procura não sei De que palavra, síntese ou imagem! Desço dentro de mim, olho a paisagem, Analiso o que sou, penso o que vejo, E sempre o mesmo trágico desejo De dar outra expressão ao que foi dito! Sempre a mesma vontade de gritar, Embora de antemão a duvidar Da exactidão e força desse grito. Mudo, mesmo se falo, e mudo ainda Na voz dos outros, todo eu me afogo Neste mar de silêncio, íntima noite Sem madrugada. Silêncio de criança que ficasse Toda a vida criança, E nunca conseguisse semelhança Entre o pavor e o pranto que chorasse.
Mágoa
Medas de trigo ao sol - Agosto, Tudo o calor do Sonho amadurece; Só a verdade amargura do meu rosto Permanece! Até me lembro que não sou da vida! Que não pertence à terra esta tristeza… Que sou qualquer desgraça acontecida Fora do seio-mãe da natureza. E contudo não sei de criatura Que mais deseje ter esta alegria De um fruto azedo que arrancou doçura Do céu, das pedras e da luz do dia.
Mirante
Deixo passar os olhos na paisagem Enquanto a flauta exalta o bucolismo; Por sobre cada abismo, Onde a luz mergulhou e se perdeu, Lanço discretamente Uma ponte de angústia levadiça; Tolho de macicez e de preguiça A força temerosa dos penedos; Teço castos enredos À volta de corolas sensuais; E na tarde sincera dos zagais Sinceros, Mudos e austeros Entre os matagais, Assim fico a mentir e a sofismar A música da vida, que não sei tocar...
Natal
Velho Menino-Deus que me vens ver Quando o ano passou e as dores passaram: Sim, pedi-te o brinquedo, e queria-o ter, Mas quando as minhas dores o desejaram...
Agora, outras quimeras me tentaram Em reinos onde tu não tens poder... Outras mãos mentirosas me acenaram A chamar, a mostrar e a prometer...
Vem, apesar de tudo, se queres vir. Vem com neve nos ombros, a sorrir A quem nunca doiraste a solidão...
Mas o brinquedo... quebra-o no caminho. O que eu chorei por ele! Era de arminho E batia-lhe dentro um coração...
Natal Divino
Natal divino ao rés-do-chão humano, Sem um anjo a cantar a cada ouvido. Encolhido À lareira, Ao que pergunto Respondo Com as achas que vou pondo Na fogueira. O mito apenas velado Como um cadáver Familiar… E neve, neve, a caiar De triste melancolia Os caminhos onde um dia Vi os Magos galopar…
Natal
Devia ser neve humana A que caia no mundo Nessa noite de amargura Que se foi fazendo doce... Um frio que nos pedia Calor irmão, nem que fosse De bichos de estrebaria.
Natal
Foi tudo tão pontual Que fiquei maravilhado. Caiu neve no telhado E juntou-se o mesmo gado No curral.
Nem as palhas da pobreza Faltaram na manjedoira! Palhas babadas da toira Que ruminava a grandeza Do milagre pressentido. Os bichos e a natureza No palco já conhecido.
Mas, afinal, o cenário Não bastou. Fiado no calendário, O homem nem perguntou Se Deus era necessário… E Deus não representou.
Natal
Outro Natal. Outra comprida noite De consoada, Fria, Vazia, Bonita só de ser imaginada.
Que fique dela, ao menos, Mais um poema breve, Recitado Pela neve A cair, ao de leve, No telhado.
Natal
Ninguém o viu nascer. Mas todos acreditam Que nasceu. É um menino e é Deus. Na Páscoa vai morrer, já homem, Porque entretanto cresceu E recebeu A missão singular De carregar a cruz da nossa redenção. Agora, nos cueiros da imaginação, Sorri apenas A quem vem, Enquanto a Mãe, Também Imaginada, Com ele ao colo, Se enternece E enternece Os corações, Cúmplice do milagre, que acontece Todos os anos e em todas as nações.
Natal
Nem pareces o mesmo, Deus menino Exposto Num presépio de gesso! E nunca foi tão santa no teu rosto Esta paz que me dás e não mereço.
É fingida também a neve Que te gela a nudez. Mas gosto dela assim, A ser tão branca em mim Pela primeira vez.
Natal
Natal fora da casa de meu Pai, Longe da manjedoira onde nasci. Neve branca também, mas que não cai Na telha vã da infância que perdi.
Filosofias sobre a eternidade; Lareiras de salão, civilizadas; E eu a tremer de frio e de saudade Por memórias em mim quase apagadas...
Natal
Leio o teu nome Na página da noite: Menino Deus... E fico a meditar No milagre dobrado De ser Deus e menino. Em Deus não acredito. Mas de ti como posso duvidar? Todos os dias nascem Meninos pobres em currais de gado. Crianças que são ânsias alargadas De horizontes pequenos. Humanas alvoradas... A divindade é o menos.
Nenúfares
Livre não sou, que nem a própria vida Mo consente. Mas a minha aguerrida Teimosia É quebrar dia a dia Um grilhão da corrente.
Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino. E vão lá desdizer o sonho do menino Que se afogou e flutua Entre nenúfares de serenidade Depois de ter a lua!
Noite
Encontraram-no caído ao fundo daquela rua; chamaram-no pelo nome, e era eu! - O Poeta andava à lua e adormeceu...
Foi o que disse e jurou pela sua salvação a Perdida que viu tudo da janela... E o guarda soube por Ela, pelo pranto que chorava, quem era na minha vida o Guarda que me guardava...
- Andar à lua é proibido... Mas Ela pagou a lei por um beijo que lhe dei antes ou depois de ter caído, nem eu sei...
Não saibas: Imagina...
Deixa falar o mestre, e devaneia... A velhice é que sabe, e apenas sabe Que o mar não cabe Na poça que a inocência abre na areia.
O narciso
O desenho impreciso De cada rosto humano, reflectido! Mas, o velho Narciso Continua fiel e debruçado Sobre o ribeiro… Porque há-de ver-se inteiro Quem todo se deseja revelado? Devorador da vida lhe chamaram, A ele, artista, sábio e pensador, Que denodadamente se procura! À movediça e trágica tortura De velar dia e noite a líquida corrente Que dilui a verdade, Quiseram-lhe juntar a permanente Ironia Desse labéu de pérfida maldade Que turva mais ainda a imagem fugidia…
Ode ao Mar
Água, sal e vontade - a vida! Azul - a cor do céu e da inocência. Um lenço a colorir a despedida Da galera da ausência...
Mar tenebroso! Mar fechado e rugoso Sobre um casto jardim adormecido! Mar de medusas que ninguém semeia, Criadas com mistério e com areia, Perfeitas de beleza e de sentido!
Vem a sede da terra e não se acalma! Vem a força do mundo e não te doma! Impenitente e funda, a tua alma Guarda-se no cristal duma redoma.
Guarda-se purificada em leve espuma, Renda da sua túnica de linho. Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma, Sem amor, sem ternura e sem caminho.
O navio do sonho foi ao fundo, E o capitão, despido, jaz ao leme, Branco nos ossos descarnados; Uma alga no peito, a flor do mundo, Uma fibra de amor que vive e treme De ouvir segredos vãos, petrificados.
Uma ilusão enfuna e enxuga a vela, Uma desilusão a rasga e molha; Morta a magia que pintava a tela, O mesmo olhar de há pouco já não olha.
Na órbita vazia um cego ouriço Pica o silêncio leve que perpassa... Pica o novo feitiço Que nasce do final de uma desgraça.
Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras Sobem à tona das marés... O navio encalhado e as suas eras Lá permanecem a milhentos pés.
Soterrados em verde, negro e vago, Nenhum sol os aquece. Habitantes do lago Do esquecimento, só a sombra os tece...
Ela és tu, anónimo oceano, Coração ciumento e namorado! Ela que és tu, arfar viril e plano, Largo como um abraço descuidado!
Tu, mar fechado, aberto e descoberto Com bússolas e gritos de gajeiro! Tu, mar salgado, lírico, coberto De lágrimas, iodo e nevoeiro!
Orfeu Rebelde
Orfeu rebelde, canto como sou: Canto como um possesso Que na casca do tempo, a canivete, Gravasse a fúria de cada momento; Canto, a ver se o meu canto compromete A eternidade no meu sofrimento. Outros, felizes, sejam rouxinóis… Eu ergo a voz assim, num desafio: Que o céu e a terra, pedras conjugadas Do moinho cruel que me tritura, Saibam que há gritos como há nortadas, Violências famintas de ternura. Bicho instintivo que adivinha a morte No corpo dum poeta que a recusa, Canto como quem usa Os versos em legítima defesa. Canto, sem perguntar à Musa Se o canto é de terror ou de beleza.
Outono
Tarde pintada Por não sei que pintor. Nunca vi tanta cor Tão colorida! Se é de morte ou de vida, Não é comigo. Eu, simplesmente, digo Que há tanta fantasia Neste dia, Que o mundo me parece Vestido por ciganas adivinhas, E que gosto de o ver, e me apetece Ter folhas, como as vinhas.
Pórtico
Aqui começa a nova caminhada. Se a levar ao fim, darei louvores a Deus, Como meu Pai, ao despegar Do dia ganho. Não por haver chegado, Mas ter acrescentado Um palmo de ilusão ao meu tamanho.
Pudor
O auscultador do telefone é um búzio. Oiço nele ressoar O mar Da tua voz inquieta. Poeta Causador da inquietação, Sinto a mágoa de o ser Doer No coração. Embaraçado, então, Dúbia e liricamente, falo Da beleza das crinas de cavalo Das ondas E das praias desertas onde as ondas Morrem de solidão... E desligo a corrente de emoção, Antes que me decifres e respondas.
Plateia
Não sei quantos seremos, mas que importa?! Um só que fosse, e já valia a pena. Aqui, no mundo, alguém que se condena A não ser conivente Na farsa do presente Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada, Nem talvez a mais certa, A da partida. Mas podemos fazer a descoberta Do que presta E não presta Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira Quotidiana. Esta comédia desumana E triste, Que cobre de soturna maldição A própria indignação Que lhe resiste.
Queixa
Vida! Que te pedi a mais Que um mortal não mereça? Ou queres que nenhum filho Conheça A plenitude? Pude O que me consentiste. Mas vou triste Do mundo. Cavei, Cavei, E abri um poço sem chegar ao fundo.
Quase um poema de amor
Há muito tempo já que não escrevo um poema De amor. E é o que eu sei fazer com mais delicadeza! A nossa natureza Lusitana Tem essa humana Graça Feiticeira De tornar de cristal A mais sentimental E baça Bebedeira. Mas ou seja que vou envelhecendo E ninguém me deseje apaixonado, Ou que a antiga paixão Me mantenha calado O coração Num íntimo pudor, - Há muito tempo que já não escrevo um poema De amor.
Recomeça
Recomeça Se puderes, Sem angústia e sem pressa. E os passos que deres Nesse caminho duro Do futuro Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado Vai colhendo Ilusões sucessivas no pomar Sempre a sonhar E vendo Acordado, O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde com lucidez, te reconheças.
Rosa acordada, que sonhaste? Nas pálpebras molhadas vê-se ainda que choraste... Foi algum pesadelo? Algum presságio triste? Ou disse-te algum deus que não existe eternidade? Acordaste e és bela: Vive! O sol enxugará esse teu pranto passado. Nega o presságio com perfume e encanto!
Raízes
O destino plantou-me aqui e arrancou-me daqui. E nunca mais as raízes me seguraram bem em nenhuma terra.
Sagres
Vinha de longe o mar... Vinha de longe, dos confins do medo... Mas vinha azul e brando, a murmurar Aos ouvidos da terra um cósmico segredo.
E a terra ouvia, de perfil agudo, A confidencial revelação Que iluminava tudo Que fora bruma na imaginação.
Era o resto do mundo que faltava (Porque faltava mundo!). E o agudo perfil mais se aguçava, E o mar jurava cada vez mais fundo.
Sagres sagrou então a descoberta Por descobrir: As duas margens de certeza incerta Teriam de se unir!
Segredo
Sei um ninho. E o ninho tem um ovo. E o ovo, redondinho, Tem lá dentro um passarinho Novo. Mas escusam de me atentar: Nem o tiro, nem o ensino. Quero ser um bom menino E guardar Este segredo comigo. E ter depois um amigo Que faça o pino A voar...
Sonha!
Inventa um alfabeto De ilusões... Um á-bê-cê secreto Que soletres à margem das lições... Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorri!
Asas? Não são precisas: Vais ao colo das brisas, Asas da fantasia...
Súplica
Agora que o silêncio é um mar sem ondas, E que nele posso navegar sem rumo, Não respondas Às urgentes perguntas Que te fiz. Deixa-me ser feliz Assim, Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto. Só soubemos sofrer, enquanto O nosso amor Durou. Mas o tempo passou, Há calmaria... Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria Matar a sede com água salgada.
O sol dos Sonhos derreteu-lhe as asas. E caiu lá do céu onde voava Ao rés-do-chão da vida. A um mar sem ondas onde navegava A paz rasteira nunca desmentida... Mas ainda dorida No seio sedativo da planura, A alma já lhe pede impenitente, A graça urgente De uma nova aventura
Santo e senha
Deixem passar quem vai na sua estrada. Deixem passar Quem vai cheio de noite e de luar. Deixem passar e não lhe digam nada.
Deixem, que vai apenas Beber água de Sonho a qualquer fonte; Ou colher açucenas A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.
Vem da terra de todos, onde mora E onde volta depois de amanhecer. Deixem-no pois passar, agora
Que vai cheio de noite e solidão. Que vai ser Uma estrela no chão.
Sísifo
Recomeça... Se puderes, Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres Nesse caminho duro Do futuro Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade. E, nunca saciado Vai colhendo Ilusões sucessivas no pomar Sempre a sonhar E vendo Acordado, O logro da aventura.
És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde com lucidez, te reconheças.
Teia de aranha
Teci durante a noite a teia astuciosa Dum poema. Armei o laço ao sol que há-de nascer. Rede frágil de versos, É nela que o meu sono se futura Eterno e natural, Embalado na própria sepultura. Vens ou não vens agora, astro real, Doirar os fios desta baba impura?
Um Nome de Baptismo
Poeta, sim, poeta... É meu nome. Um nome de baptismo Sem padrinhos... O nome do meu próprio nascimento... O nome que ouvi sempre nos caminhos Por onde me levava o sofrimento...
Um Poema
Não tenhas medo, ouve: É um poema Um misto de oração e de feitiço... Sem qualquer compromisso, Ouve-o atentamente, De coração lavado. Poderás decorá-lo E rezá-lo Ao deitar Ao levantar, Ou nas restantes horas de tristeza. Na segura certeza De que mal não te faz. E pode acontecer que te dê paz...
Último Natal
Menino Jesus, que nasces Quando eu morro, E trazes a paz Que não levo, O poema que te devo Desde que te aninhei No entendimento, E nunca te paguei A contento Da devoção, Mal entoado, Aqui te fica mais uma vez Aos pés, Como um tição Apagado, Sem calor que os aqueça. Com ele me desobrigo e desengano: És divino, e eu sou humano, Não há poesia em mim que te mereça.
Voz Activa
Canta, poeta, canta! Violenta o silêncio conformado Cega com outra luz a luz do dia Desassossega o mundo sossegado. Ensina a cada alma a sua rebeldia.
Viagem
Aparelhei o barco da ilusão E reforcei a fé de marinheiro. Era longe o meu sonho, e traiçoeiro O mar... (Só nos é concedida Esta vida Que temos; E é nela que é preciso Procurar O velho paraíso Que perdemos).
Prestes, larguei a vela E disse adeus ao cais, à paz tolhida. Desmedida, A revolta imensidão Transforma dia a dia a embarcação Numa errante e alada sepultura... Mas corto as ondas sem desanimar. Em qualquer aventura, O que importa é partir, não é chegar.
Vasco da Gama
Somos nós que fazemos o destino. Chegar à Índia ou não É um íntimo desígnio da vontade. Os fados a favor E a desfavor, São argumentos da posteridade.
O próprio génio pode estar ausente Da façanha. Basta que nos momentos de terror, Persistente, O ânimo enfrente A fúria de qualquer Adamastor.
O renome é o salário do triunfo. O que é preciso, pois, é triunfar. Nunca meia viagem consentida! Nunca meia medida Do vinho que nos há-de embriagar!
Versos de ferro onde me rasgo inteiro. Mas, do fundo da alma e da prisão, Obrigado, meu Deus e carcereiro!