Mia_Couto_terra_e_mar


 

Azul....

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo
Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
No mundo que combato
morro
no mundo por que luto
nasço


Alma e Caco

A garrafa na lama
lembra uma alma no mundo:

sua clara transparência
se revê apenas
quando ela se houver quebrado


Água e mágoa

A beleza,
a mim, me dói.

O belo se quer Deus.
E o corpo
é um antecipado adeus.


A voz do pedreiro

O basalto é uma ave negra de silêncio
é uma ave que anoiteceu num sono inextinguível

No meu gesto ergo o símbolo um martelo suspenso
e num ápice rasgo o manto das horas descansadas
assim inicio o ciclo das manhãs operárias

Do ventre das rochas que fecundo nascem
casas cadeias e palácios
que da pedra conhecida
meus olhos depois desconhecem
mas da pedra que semeio o que colhi?

a minha casa de madeira e vento
o meu bairro escuro sossobrado no sono de caniço

Vai sendo a pedra esculpida pelo homem
pedra alada
Vai sendo o homem esculpido pela pedra
mão petrificada

Dizes-me: és o operário dos pássaros congelados
eu amo-te como se ainda esculpisse
como se nos meus braços
viajasse ainda um martelo suspenso
o gesto com que inicio a madrugada
como se fosse ternura
esta desajeitada forma
com que te desfolho
como se fosse o meu corpo
um domingo derramado
na cidade inquieta do teu corpo

Vai-se o homem trocando pela pedra
em cada pedra maus suada
ucircula agora
o nosso sangue proletário

E construtor anónimo de cidades
construtor destas mãos
que se vestem de poeira e rugas
produtor de cidades
onde o meu nome esquecido soterrado
se erguerá do negro corpo de basalto
Eu serei a voz das pedras
Eu serei a voz dos homens no basalto


Biofagia

é vitalício: comer a Vida
deitando-a entontecida
sobre o linho do idioma.

Nesse leito transverso
dispo-a com um só verso.

Até chegar ao fim da voz.
Até ser um corpo sem foz.


Confidências

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome


Deitei ao sono a terra
lhe beijei os olhos fatigados
e me ficou nos lábios
um sabor de gota

Era a lágrima do sangue
a seiva ferida do chão
clamando em sua carne
a derradeira carícia

Adormecida,
a terra me ofertou seu ventre
para que nele guardasse
toda a minha morte

E eu deixei
ensonar a mão
sobre o último abismo.


Desencontro

Não ter morada
Habitar
Como um beijo
Entre os lábios
Fingir-se ausente
E suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpoe beber
toda a ternurapara refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces


(Escre)ver-me

nunca escrevi

sou
apenas um tradutor de silêncios

a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar


Infinitas fiadeiras

A aranha ateia
diz ao aranho na teia:
o nosso amor
está por um fio!


Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
sou o vento que a desgasta
sou pólen sem insecto
e areia sustentando
o sexo das árvores

Existo, assim, onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
receando a esperança do futuro

No mundo que combato
morro
no mundo por que luto
nasço.


Ilha de Moçambique

Não é a pedra.
O que me fascina
é o que a pedra diz.

A voz cristalizada,
o segredo da rocha rumo ao pó.

E escutar a multidão
de empedernidos seres
que a meu pé se vão afeiçoando.

A pedra grávida
a pedra solteira,
a que canta, na solidão,
o destino de ser ilha.
O poeta quer escrever
a voz na pedra.
Mas a vida de suas mãos migra
e levanta voo na palavra.

Uns dizem: na pedra nasceu uma figueira.

Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.


Lições

Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trémula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?


Moçambique sai do chão

Moçambique sai do chão
E vai no porão
Caiu a sombra, tombou no chão
Fica um buraco no pé da nação

Lá vai a tábua de um caixão
O morto é a floresta de uma nação
Toda a riqueza para exportação
Não fica nada para nós, não, não
Não fica nada para nós, não, não
Já está mais que na hora, põe a mão na cabeça
E vê agora como a terra chora
A motoserra, serra, serra
Rouba o verde, numa outra guerra

Lá vai a umbila
Lá foi o jambirre
Caiu a chanfuta
Caiu pau-preto
E voa a mssassa
Voou a mbaúa
Quem canta agora
É a motoserra

Quem canta agora é a motoserra
Parando a árvore, despindo a terra
Roubando o verde, numa outra guerra
Quem toca agora é a motoserra

A música que agora toca no mato
Não é xigubo, makwaela, nem campo adubado
Não é enxada, não, não, não
Não é nem fumo de xitimela, my brother

Oh Papá, oh Titio
Corta aqui, mas depois planta ali, Oh!
Oh Papá, oh Vovô
Corta aqui, mas depois planta ali, Oh!

A música, agora, não é a canção
É o simples ronco do camião
Lá vai o tronco, lá vai a madeira
Lá vai a riqueza sem algibeira

O beijo e a lágrima

Quero um beijo, pediu ela.

Um sismo
abalou o peito dele.
E devotou o calor
de lava dos seus lábios,
entontecida água na cascata.

Entusiamado,
ele se preparou para, de novo,
duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo.

Mas ela o fez parar.

Só queria um beijo.
Um único beijo para chorar.

Há anos que não pranteava.
E a sua alma se convertia
em areia do deserto.

Encantada,
ela no dedo recolheu a lágrima.
E se repetiu o gesto
com que Deus criou o Oceano.


O poeta

O poeta não gosta de palavras:
escreve para se ver livre delas.

A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.

Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.

Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.

Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.


O Primeiro Astronauta

O primeiro astronauta
devia ter sido
Silvestre José Nhamposse

Só ele
teria sacudido os pés
à entrada da Lua

Só ele
teria pedido
com suave delicadeza:
- dá licença?

 

Para ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida.


O que mais dói na miséria
é a ignorância que ela tem
de si mesma. Confrontados
com a ausência de tudo, os homens
abstêm-se do sonho, desarmando-se
do desejo de serem outros.


Primeira palavra

Aproxima o teu coração
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os teus inacessíveis frutos
para que prove da tua água
e repouse na tua fronte
Debruça o teu rosto
sobre a terra sem vestígio
prepara o teu ventre
para a anunciada visita
até que nos lábios humedeça
a primeira palavra do teu corpo


Pergunta-me

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa pergunta-me
qualquer coisa uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer


Pastor

responde
minha cama
de areia quente:
- quantas vezes conduzi
a águia ao ninho solar?
- quantas vezes me cresci
à respiração dos lentos animais?

tu és o tapete
desfiado pela estiagem
e a cada volta me perguntas
- para quando o adeus?

e eu fico
olhando
o obstinado nenúfar
no sono do lago

vês
como a morte
me ensinou a obediência da espera?


Poema Mestiço

escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico

sangro norte
em coração do sul

na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo

hei-de
começar mais tarde
por ora
sou a pegada
do passo por acontecer


Poema da minha alienação

Demoro-me no outro lado de mim
porque me atrai
esse ser impossível
que sou
esse ser que me nega
para que seja ainda eu
Porque desejo esse alguém
que me invade e me ocupa
que me usurpou a palavra e o gesto
me fez estrangeiro do meu corpo
e me deixou mudo, contemplando-me.
Lanço-me na procura da minha pedra
no infindável trabalho
de me reconstruir
recolhendo os sinais do meu desaparecimento
percorrendo o revés da viagem
para regressar a um lugar inabitável.
Todas as vezes que me venci
não me separei do meu sonho derrotado
e, assim, me fiz nuvem
reparti-me em infinitas gotas
para que fosse bebido, vertido, transpirado
e voltasse de novo a ser céu
transparência de azul, harmonia perfeita
e poder regressar ao lugar interior
para me deitar, de novo,
no sangue que me iniciou.


Quissico

1.
Deixei o sol
na praia de Quissico
De bruços
sobre o Verão
eu deixei o Sol
na extensão do tempo
Molhando, quase líquido,
o dia afundava
nas fundas águas do Índico
A terra
se via estar nua
lembrando, distante,
seu parto de carne e lua2.
Não o pássaro: era o céu
que voava
O ombro da terra
amparava o dia
A luz
tombava ferida
pingando
como um pulso suicida
um minhas ocultas asas


Segundo poema da alienação

Dai-me o que de mim resta
para que, incompleto,
me perca na contemplação
do tempo por encontrar
da viagem por percorrer
Dai-me a estrela ardente
a picada sem destino
a luz mortiça
desvendando o alfabeto
convoquem todas as crianças
e encham-se de rostos
as janelas das escolas
Devolvam-me ao corpo ferido
de onde se escoou o sangue
de um companheiro fardado
Em redor da sombra
ergam-se paredes de claridade
estilhace-se em mil pedaços
o meu nome, minha palavra
para que na transpiração dos corpos
o poema produza
e se reconstrua
como veia que reencontra o corpo.

Saudade

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono


Trajecto

Trajecto
Na vertigem do oceano
vagueio
sou ave que com o seu voo
se embriaga
Atravesso o reverso do céu
e num instante
eleva-se o meu coração sem peso
Como a desamparada pluma
subo ao reino da inconstância
para alojar a palavra inquieta
Na distância que percorro
eu mudo de ser
permuto de existência
surpreendo os homens
na sua secreta obscuridade
transito por quartos
de cortinados desbotados
e nas calcinadas mãos
que esculpiram o mundo
estremeço como quem desabotoa
a primeira nudez de uma mulher

 

Vemos de longe de nós
habituámo-nos à nossa ausência
fomos subúrbio do homem
esteira cansada do medo
medo sem exílio nem memória.
Pensámos ser a noite
o lugar do mundo
e ficámos na margem
por onde íamos

 




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