Preciso ser um outro para ser eu mesmo Sou grão de rocha Sou o vento que a desgasta Sou pólen sem insecto Sou areia sustentando o sexo das árvores Existo onde me desconheço aguardando pelo meu passado ansiando a esperança do futuro No mundo que combato morro no mundo por que luto nasço
Alma e Caco
A garrafa na lama lembra uma alma no mundo:
sua clara transparência se revê apenas quando ela se houver quebrado
Água e mágoa
A beleza, a mim, me dói.
O belo se quer Deus. E o corpo é um antecipado adeus.
A voz do pedreiro
O basalto é uma ave negra de silêncio é uma ave que anoiteceu num sono inextinguível
No meu gesto ergo o símbolo um martelo suspenso e num ápice rasgo o manto das horas descansadas assim inicio o ciclo das manhãs operárias
Do ventre das rochas que fecundo nascem casas cadeias e palácios que da pedra conhecida meus olhos depois desconhecem mas da pedra que semeio o que colhi?
a minha casa de madeira e vento o meu bairro escuro sossobrado no sono de caniço
Vai sendo a pedra esculpida pelo homem pedra alada Vai sendo o homem esculpido pela pedra mão petrificada
Dizes-me: és o operário dos pássaros congelados eu amo-te como se ainda esculpisse como se nos meus braços viajasse ainda um martelo suspenso o gesto com que inicio a madrugada como se fosse ternura esta desajeitada forma com que te desfolho como se fosse o meu corpo um domingo derramado na cidade inquieta do teu corpo
Vai-se o homem trocando pela pedra em cada pedra maus suada ucircula agora o nosso sangue proletário
E construtor anónimo de cidades construtor destas mãos que se vestem de poeira e rugas produtor de cidades onde o meu nome esquecido soterrado se erguerá do negro corpo de basalto Eu serei a voz das pedras Eu serei a voz dos homens no basalto
Biofagia
é vitalício: comer a Vida deitando-a entontecida sobre o linho do idioma.
Nesse leito transverso dispo-a com um só verso.
Até chegar ao fim da voz. Até ser um corpo sem foz.
Confidências
Diz o meu nome pronuncia-o como se as sílabas te queimassem os lábios sopra-o com a suavidade de uma confidência para que o escuro apeteça para que se desatem os teus cabelos para que aconteça
Porque eu cresço para ti sou eu dentro de ti que bebe a última gota e te conduzo a um lugar sem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhos sou gesto e cor e dentro de ti me recolho ferido exausto dos combates em que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável procura o interior e o avesso da aparência porque o tempo em que vivo morre de ser ontem e é urgente inventar outra maneira de navegar outro rumo outro pulsar para dar esperança aos portos que aguardam pensativos
No húmido centro da noite diz o meu nome como se eu te fosse estranho como se fosse intruso para que eu mesmo me desconheça e me sobressalte quando suavemente pronunciares o meu nome
Deitei ao sono a terra lhe beijei os olhos fatigados e me ficou nos lábios um sabor de gota
Era a lágrima do sangue a seiva ferida do chão clamando em sua carne a derradeira carícia
Adormecida, a terra me ofertou seu ventre para que nele guardasse toda a minha morte
E eu deixei ensonar a mão sobre o último abismo.
Desencontro
Não ter morada Habitar Como um beijo Entre os lábios Fingir-se ausente E suspirar (o meu corpo não se reconhece na espera) percorrer com um só gesto o teu corpoe beber toda a ternurapara refazer o rosto em que desapareces o abraço em que desobedeces
(Escre)ver-me
nunca escrevi
sou apenas um tradutor de silêncios
a vida tatuou-me nos olhos janelas em que me transcrevo e apago
sou um soldado que se apaixona pelo inimigo que vai matar
Infinitas fiadeiras
A aranha ateia diz ao aranho na teia: o nosso amor está por um fio!
Identidade
Preciso ser um outro para ser eu mesmo
Sou grão de rocha sou o vento que a desgasta sou pólen sem insecto e areia sustentando o sexo das árvores
Existo, assim, onde me desconheço aguardando pelo meu passado receando a esperança do futuro
No mundo que combato morro no mundo por que luto nasço.
Ilha de Moçambique
Não é a pedra. O que me fascina é o que a pedra diz.
A voz cristalizada, o segredo da rocha rumo ao pó.
E escutar a multidão de empedernidos seres que a meu pé se vão afeiçoando.
A pedra grávida a pedra solteira, a que canta, na solidão, o destino de ser ilha. O poeta quer escrever a voz na pedra. Mas a vida de suas mãos migra e levanta voo na palavra.
Uns dizem: na pedra nasceu uma figueira.
Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.
Lições
Não aprendi a colher a flor sem esfacelar as pétalas. Falta-me o dedo menino de quem costura desfiladeiros.
Criança, eu sabia suspender o tempo, soterrar abismos e nomear as estrelas. Cresci, perdi pontes, esqueci sortilégios.
Careço da habilidade da onda, hei-de aprender a carícia da brisa.
Trémula, a haste me pede o adiar da noite.
Em véspera da dádiva, a faca me recorda, no gume do beijo, a aresta do adeus.
Não, não aprenderei nunca a decepar flores.
Quem sabe, um dia, eu, em mim, colha um jardim?
Moçambique sai do chão
Moçambique sai do chão E vai no porão Caiu a sombra, tombou no chão Fica um buraco no pé da nação
Lá vai a tábua de um caixão O morto é a floresta de uma nação Toda a riqueza para exportação Não fica nada para nós, não, não Não fica nada para nós, não, não Já está mais que na hora, põe a mão na cabeça E vê agora como a terra chora A motoserra, serra, serra Rouba o verde, numa outra guerra
Lá vai a umbila Lá foi o jambirre Caiu a chanfuta Caiu pau-preto E voa a mssassa Voou a mbaúa Quem canta agora É a motoserra
Quem canta agora é a motoserra Parando a árvore, despindo a terra Roubando o verde, numa outra guerra Quem toca agora é a motoserra
A música que agora toca no mato Não é xigubo, makwaela, nem campo adubado Não é enxada, não, não, não Não é nem fumo de xitimela, my brother
Oh Papá, oh Titio Corta aqui, mas depois planta ali, Oh! Oh Papá, oh Vovô Corta aqui, mas depois planta ali, Oh!
A música, agora, não é a canção É o simples ronco do camião Lá vai o tronco, lá vai a madeira Lá vai a riqueza sem algibeira
O beijo e a lágrima
Quero um beijo, pediu ela.
Um sismo abalou o peito dele. E devotou o calor de lava dos seus lábios, entontecida água na cascata.
Entusiamado, ele se preparou para, de novo, duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo.
Mas ela o fez parar.
Só queria um beijo. Um único beijo para chorar.
Há anos que não pranteava. E a sua alma se convertia em areia do deserto.
Encantada, ela no dedo recolheu a lágrima. E se repetiu o gesto com que Deus criou o Oceano.
O poeta
O poeta não gosta de palavras: escreve para se ver livre delas.
A palavra torna o poeta pequeno e sem invenção.
Quando, sobre o abismo da morte, o poeta escreve terra, na palavra ele se apaga e suja a página de areia.
Quando escreve sangue o poeta sangra e a única veia que lhe dói é aquela que ele não sente.
Com raiva, o poeta inicia a escrita como um rio desflorando o chão. Cada palavra é um vidro em que se corta.
O poeta não quer escrever. Apenas ser escrito.
Escrever, talvez, apenas enquanto dorme.
O Primeiro Astronauta
O primeiro astronauta devia ter sido Silvestre José Nhamposse
Só ele teria sacudido os pés à entrada da Lua
Só ele teria pedido com suave delicadeza: - dá licença?
Para ti
Foi para ti que desfolhei a chuva para ti soltei o perfume da terra toquei no nada e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras e todas me faltaram no minuto em que falhei o sabor do sempre
Para ti dei voz às minhas mãos abri os gomos do tempo assaltei o mundo e pensei que tudo estava em nós nesse doce engano de tudo sermos donos sem nada termos simplesmente porque era de noite e não dormíamos eu descia em teu peito para me procurar e antes que a escuridão nos cingisse a cintura ficávamos nos olhos vivendo de um só olhar amando de uma só vida.
O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros.
Primeira palavra
Aproxima o teu coração e inclina o teu sangue para que eu recolha os teus inacessíveis frutos para que prove da tua água e repouse na tua fronte Debruça o teu rosto sobre a terra sem vestígio prepara o teu ventre para a anunciada visita até que nos lábios humedeça a primeira palavra do teu corpo
Pergunta-me
Pergunta-me se ainda és o meu fogo se acendes ainda o minuto de cinza se despertas a ave magoada que se queda na árvore do meu sangue
Pergunta-me se o vento não traz nada se o vento tudo arrasta se na quietude do lago repousaram a fúria e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me se te voltei a encontrar de todas as vezes que me detive junto das pontes enevoadas e se eras tu quem eu via na infinita dispersão do meu ser se eras tu que reunias pedaços do meu poema reconstruindo a folha rasgada na minha mão descrente
Qualquer coisa pergunta-me qualquer coisa uma tolice um mistério indecifrável simplesmente para que eu saiba que queres ainda saber para que mesmo sem te responder saibas o que te quero dizer
Pastor
responde minha cama de areia quente: - quantas vezes conduzi a águia ao ninho solar? - quantas vezes me cresci à respiração dos lentos animais?
tu és o tapete desfiado pela estiagem e a cada volta me perguntas - para quando o adeus?
e eu fico olhando o obstinado nenúfar no sono do lago
vês como a morte me ensinou a obediência da espera?
Poema Mestiço
escrevo mediterrâneo na serena voz do Índico
sangro norte em coração do sul
na praia do oriente sou areia náufraga de nenhum mundo
hei-de começar mais tarde por ora sou a pegada do passo por acontecer
Poema da minha alienação
Demoro-me no outro lado de mim porque me atrai esse ser impossível que sou esse ser que me nega para que seja ainda eu Porque desejo esse alguém que me invade e me ocupa que me usurpou a palavra e o gesto me fez estrangeiro do meu corpo e me deixou mudo, contemplando-me. Lanço-me na procura da minha pedra no infindável trabalho de me reconstruir recolhendo os sinais do meu desaparecimento percorrendo o revés da viagem para regressar a um lugar inabitável. Todas as vezes que me venci não me separei do meu sonho derrotado e, assim, me fiz nuvem reparti-me em infinitas gotas para que fosse bebido, vertido, transpirado e voltasse de novo a ser céu transparência de azul, harmonia perfeita e poder regressar ao lugar interior para me deitar, de novo, no sangue que me iniciou.
Quissico
1. Deixei o sol na praia de Quissico De bruços sobre o Verão eu deixei o Sol na extensão do tempo Molhando, quase líquido, o dia afundava nas fundas águas do Índico A terra se via estar nua lembrando, distante, seu parto de carne e lua2. Não o pássaro: era o céu que voava O ombro da terra amparava o dia A luz tombava ferida pingando como um pulso suicida um minhas ocultas asas
Segundo poema da alienação
Dai-me o que de mim resta para que, incompleto, me perca na contemplação do tempo por encontrar da viagem por percorrer Dai-me a estrela ardente a picada sem destino a luz mortiça desvendando o alfabeto convoquem todas as crianças e encham-se de rostos as janelas das escolas Devolvam-me ao corpo ferido de onde se escoou o sangue de um companheiro fardado Em redor da sombra ergam-se paredes de claridade estilhace-se em mil pedaços o meu nome, minha palavra para que na transpiração dos corpos o poema produza e se reconstrua como veia que reencontra o corpo.
Saudade
Magoa-me a saudade do sobressalto dos corpos ferindo-se de ternura sói-me a distante lembrança do teu vestido caindo aos nossos pés
Magoa-me a saudade do tempo em que te habitava como o sal ocupa o mar como a luz recolhendo-se nas pupilas desatentas
Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo, tua noite sem remédio tua virtude, tua carência eu que longe de ti sou fraco eu que já fui água, seiva vegetal sou agora gota trémula, raiz exposta
Traz de novo, meu amor, a transparência da água dá ocupação à minha ternura vadia mergulha os teus dedos no feitiço do meu peito e espanta na gruta funda de mim os animais que atormentam o meu sono
Trajecto
Trajecto Na vertigem do oceano vagueio sou ave que com o seu voo se embriaga Atravesso o reverso do céu e num instante eleva-se o meu coração sem peso Como a desamparada pluma subo ao reino da inconstância para alojar a palavra inquieta Na distância que percorro eu mudo de ser permuto de existência surpreendo os homens na sua secreta obscuridade transito por quartos de cortinados desbotados e nas calcinadas mãos que esculpiram o mundo estremeço como quem desabotoa a primeira nudez de uma mulher
Vemos de longe de nós habituámo-nos à nossa ausência fomos subúrbio do homem esteira cansada do medo medo sem exílio nem memória. Pensámos ser a noite o lugar do mundo e ficámos na margem por onde íamos