Por favor, não me analise Não fique procurando cada ponto fraco meu. Se ninguém resiste a uma análise profunda, Quanto mais eu... Ciumento, exigente, inseguro, carente Todo cheio de marcas que a vida deixou Vejo em cada grito de exigência Um pedido de carência, um pedido de amor.
Amor é síntese É uma integração de dados Não há que tirar nem pôr Não me corte em fatias Ninguém consegue abraçar um pedaço Me envolva todo em seus braços E eu serei o perfeito amor.
A verdadeira arte de viajar
A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa, Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo. Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali... Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!
Ah! Os relógios
Amigos, não consultem os relógios quando um dia eu me for de vossas vidas em seus fúteis problemas tão perdidas que até parecem mais uns necrológios...
Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida - a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira.
Inteira, sim, porque essa vida eterna somente por si mesma é dividida: não cabe, a cada qual, uma porção.
E os Anjos entreolham-se espantados quando alguém - ao voltar a si da vida - acaso lhes indaga que horas são...
Do amoroso esquecimento
Canção da Primavera
Primavera cruza o rio Cruza o sonho que tu sonhas. Na cidade adormecida Primavera vem chegando.
Catavento enloqueceu, Ficou girando, girando. Em torno do catavento Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos, Amadas, Mortos, Amigos, Dancemos todos até Não mais saber-se o motivo... Até que as paineiras tenham Por sobre os muros florido!
Canção do amor imprevisto
Eu sou um homem fechado. O mundo me tornou egoísta e mau. E a minha poesia é um vício triste, Desesperado e solitário Que eu faço tudo por abafar. Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada, Com o teu passo leve, Com esses teus cabelos... E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atónita... A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil Aonde viessem pousar os passarinhos.
Canção de barco e de olvido
Não quero a negra desnuda. Não quero o baú do morto. Eu quero o mapa das nuvens E um barco bem vagaroso.
Ai esquinas esquecidas... Ai lampiões de fins de linha... Quem me abana das antigas Janelas de guilhotina?
Que eu vou passando e passando, Como em busca de outros ares... Sempre de barco passando, Cantando os meus quintanares...
No mesmo instante olvidando Tudo o de que te lembrares.
A Canção da Vida
A vida é louca a vida é uma sarabanda é um corrupio... A vida múltipla dá-se as mãos como um bando de raparigas em flor e está cantando em torno a ti: Como eu sou bela amor! Entra em mim, como em uma tela de Renoir enquanto é primavera, enquanto o mundo não poluir o azul do ar! Não vás ficar não vás ficar aí... como um salso chorando na beira do rio... (Como a vida é bela! como a vida é louca!)
Bilhete
Se tu me amas, ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados, deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres, enfim,
.....tem de ser bem devagarinho, .....amada,
.....que a vida é breve, .....e o amor .....mais breve ainda.
Crianças...
Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos A não ser o azul imenso dos olhos dela, Olhos que eu não encontrava em ninguém mais, Nem no cachorro e no gato da casa, Que tinham apenas a mesma fidelidade sem compromisso E a mesma animal - ou celestial - inocência, Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:
Não, não importava as coisas bobas que disséssemos. Éramos um desejo de estar perto, tão perto Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra, Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida...
Canção do dia de sempre
Tão bom viver dia a dia... A vida assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos Como estas nuvens no céu...
E só ganhar, toda a vida, Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio: Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua, Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança Das outras vezes perdidas, Atiro a rosa do sonho Nas tuas mãos distraídas...
Dos Milagres
O milagre não é dar vida ao corpo extinto, Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo... Nem mudar água pura em vinho tinto... Milagre é acreditarem nisso tudo!
Da discrição
Não te abras com teu amigo Que ele um outro amigo tem. E o amigo do teu amigo Possui amigos também...
Dos Mundos
Deus criou este mundo. O homem, todavia, Entrou a desconfiar, cogitabundo... Decerto não gostou lá muito do que via... E foi logo inventando o outro mundo.
Da observação
Não te irrites, por mais que te fizerem... Estuda, a frio, o coração alheio. Farás, assim, do mal que eles te querem, Teu mais amável e subtil recreio...
Das Utopias
Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não querê-las... Que tristes os caminhos se não fora A mágica presença das estrelas!
Eu escrevi um poema triste
Eu escrevi um poema triste E belo, apenas da sua tristeza. Não vem de ti essa tristeza Mas das mudanças do Tempo, Que ora nos traz esperanças Ora nos dá incerteza… Nem importa, ao velho Tempo, Que sejas fiel ou infiel… Eu fico, junto à correnteza, Olhando as horas tão breves… E das cartas que me escreves Faço barcos de papel!
Esperança
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano Vive uma louca chamada Esperança E ela pensa que quando todas as sirenas Todas as buzinas Todos os reco-recos tocarem Atira-se E — ó delicioso vôo! Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada, Outra vez criança... E em torno dela indagará o povo: — Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes? E ela lhes dirá (É preciso dizer-lhes tudo de novo!) Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam: — O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Escrevo diante da janela aberta
Escrevo diante da janela aberta. Minha caneta é cor das venezianas: Verde!... E que leves, lindas filigranas Desenha o sol na página deserta! Não sei que paisagista doidivanas Mistura os tons... acerta... desacerta... Sempre em busca de nova descoberta, Vai colorindo as horas quotidianas... Jogos da luz dançando na folhagem! Do que eu ia escrever até me esqueço... Pra que pensar? Também sou da paisagem... Vago, solúvel no ar, fico sonhando... E me transmuto... iriso-me... estremeço... Nos leves dedos que me vão pintando!
Eu faço versos
Eu faço versos como saltimbancos Desconjuntam os ossos doloridos. A entrada é livre para os conhecidos... Sentai, amadas, nos primeiros bancos!
Vão começar as convulsões e arrancos Sobre os velhos tapetes estendidos... Olhai o coração que entre gemidos Giro na ponta de meus dedos branco!
"Meu Deus! Mas tu não mudas o programa!" Protesta a clara voz das bem-amadas. "Que tédio!" o coro dos amigos clama.
"Mas que vos dar de novo e de imprevisto?" Digo... e retorço as pobres mãos cansadas: "Eu sei chorar... Eu sei sofrer... Só isto!"
Eu ouço música
Eu ouço música como quem apanha chuva: resignado e triste de saber que existe um mundo do Outro Mundo...
Eu ouço música como quem está morto e sente já um profundo desconforto de me verem ainda neste mundo de cá...
Perdoai, maestros, meu estranho ar!
Eu ouço música como um anjo doente que não pode voar.
Envelhecer
Antes, todos os caminhos iam, Hoje, todos os caminhos vêm... A casa é acolhedora, os livros poucos E eu mesmo sirvo o chá para os fantasmas...
Silêncio. Solidão. Serenidade.
Quero morrer na selva de um país distante... Quero morrer sozinho como um bicho!
Adeus, Cidade Maldita, Que lá se vai o seu poeta.
Adeus para sempre, Amigos... Vou sepultar-me no céu!
E todos estes que aí estão Atravancando meu caminho, Eles passarão... Eu passarinho!
Eu agora - que desfecho! Já nem penso mais em ti... Mas será que nunca deixo De lembrar que te esqueci?
Fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não dizer... E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei... O amor é quando a gente mora um no outro.
Fere de leve a frase... E esquece... Nada Convém que se repita... Só em linguagem amorosa agrada A mesma coisa cem mil vezes dita.
Hoje encontrei
Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida, Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria... Eu tenho um medo Horrível A essas marés montantes do passado, Com suas quilhas afundadas, com Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas... Ai de mim, Ai de ti, ó velho mar profundo, Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!
Indizíveis
O meu primeiro amor e eu sentávamos numa pedra Que havia num terreno baldio entre as nossas casas. Falávamos de coisas bobas, Isto é, que a gente grande achava bobas Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos.
Mãe
Mãe...São três letras apenas As desse nome bendito: Também o céu tem três letras... E nelas cabe o infinito
Para louvar a nossa mãe, Todo bem que se disser Nunca há de ser tão grande Como o bem que ela nos quer
Palavra tão pequenina, Bem sabem os lábios meus Que és do tamanho do Céu E apenas menor que Deus!
Nunca ninguém sabe
Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar. Por isso o meu verso tem esse quase imperceptível tremor... A vida é louca, o mundo é triste: Vale a pena matar-se por isso? Nem por ninguém! Só se deve morrer de puro amor...
O luar
O luar, é a luz do Sol que está sonhando O tempo não pára! A saudade é que faz as coisas pararem no tempo... ...os verdadeiros versos não são para embalar, mas para abalar... A grande tristeza dos rios é não poderem levar a tua imagem...
O auto-retrato
No retrato que me faço - traço a traço - às vezes me pinto nuvem, às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas de que nem há mais lembrança... ou coisas que não existem mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco - pouco a pouco - minha eterna semelhança,
no final, que restará? Um desenho de criança... Corrigido por um louco! Mário Quintana (poeta brasileiro)
O mapa
Olho o mapa da cidade Como quem examinasse A anatomia de um corpo…
(E nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita Das ruas de Porto Alegre Onde jamais passarei…
Há tanta esquina esquisita, Tanta nuança de paredes, Há tanta moca bonita Nas ruas que não andei (E ha uma rua encantada Que nem em sonhos sonhei…)
Quando eu for, um dia desses, Poeira ou folha levada No vento da madrugada, Serei um pouco do nada Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar Pareça mais um olhar, Suave mistério amoroso, Cidade de meu andar (Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso…
Os degraus
Não desças os degraus do sonho Para não despertar os monstros. Não subas aos sótãos - onde Os deuses, por trás das suas máscaras, Ocultam o próprio enigma. Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo...
Obsessão do mar oceano
Vou andando feliz pelas ruas sem nome... Que vento bom sopra do Mar Oceano! Meu amor eu nem sei como se chama, Nem sei se é muito longe o Mar Oceano... Mas há vasos cobertos de conchinhas Sobre as mesas... e moças na janelas Com brincos e pulseiras de coral... Búzios calçando portas... caravelas Sonhando imóveis sobre velhos pianos... Nisto, Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous, E eu me lembrei do pobre imperador Adriano, De su'alma perdida e vaga na neblina... Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano! Se eu morresse amanhã, só deixaria, só, Uma caixa de música Uma bússola Um mapa figurado Uns poemas cheios de beleza única De estarem inconclusos... Mas como sopra o vento nestas ruas de outono! E eu nem sei, eu nem sei como te chamas... Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano, Quando eu também já não tiver mais nome.
Poeminha do contra
Todos estes que aí estão Atravancando o meu caminho, Eles passarão. Eu passarinho!
Os poemas
Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhoso espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti…
Poeminha sentimental
O meu amor, o meu amor, Maria É como um fio telegráfico da estrada Aonde vêm pousar as andorinhas... De vez em quando chega uma E canta (Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!) Canta e vai-se embora Outra, nem isso, Mal chega, vai-se embora. A última que passou Limitou-se a fazer cocô No meu pobre fio de vida! No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo: As andorinhas é que mudam.
Por favor, não me analise Não fique procurando cada ponto fraco meu. Se ninguém resiste a uma análise profunda, Quanto mais eu... Ciumento, exigente, inseguro, carente Todo cheio de marcas que a vida deixou Vejo em cada grito de exigência Um pedido de carência, um pedido de amor.
Amor é síntese É uma integração de dados Não há que tirar nem pôr Não me corte em fatias Ninguém consegue abraçar um pedaço Me envolva todo em seus braços E eu serei o perfeito amor.
Projecto de Prefácio
Sábias agudezas... refinamentos... - não! Nada disso encontrarás aqui. Um poema não é para te distraíres como com essas imagens mutantes de caleidoscópios. Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe Um poema não é também quando paras no fim, porque um verdadeiro poema continua sempre... Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.
Quero, um dia, dizer às pessoas que nada foi em vão... Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas, que a vida é bela sim e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena.
Recordo ainda
Recordo ainda... e nada mais me importa... Aqueles dias de uma luz tão mansa Que me deixavam, sempre, de lembrança, Algum brinquedo novo à minha porta...
Mas veio um vento de Desesperança Soprando cinzas pela noite morta! E eu pendurei na galharia torta Todos os meus brinquedos de criança...
Estrada afora após segui... Mas, aí, Embora idade e senso eu aparente Não vos iludais o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente! Sou um pobre menino... acreditai!... Que envelheceu, um dia, de repente!...
Se tu me amas
Se tu me amas, ama-me baixinho Não o grites de cima dos telhados Deixa em paz os passarinhos Deixa em paz a mim! Se me queres, enfim, tem de ser bem devagarinho, Amada, que a vida é breve, e o amor mais breve ainda ...
Sempre que chove
Sempre que chove Tudo faz tanto tempo... E qualquer poema que acaso eu escreva Vem sempre datado de 1779!
Seiscentos e sessenta e seis
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são 6 horas: há tempo... Quando se vê, já é 6ªfeira... Quando se vê, passaram 60 anos... Agora, é tarde demais para ser reprovado... E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. seguia sempre, sempre em frente ...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
Surpresa
Sabes? Os cabelos da morte são entrelaçados de flores. Nada de flores mortas como estas inertes sempre vivas, Mas inquietas e misteriosas como os não desfolhados malmequeres Os bravias como as pequenas rosas silvestres.
As mãos da morte, as suas mãos não tem anéis, Sua virgem nudez não comporta o peso da jóia, Os seus olhos não são, não são uns covis de treva, Mas cheios de luz como os olhos do primeiro amor.
Porque a morte não faz esquecer, mas faz tudo lembrar, Porque a morte não é, não é um sono eterno: Tu vais adormecer como num berço, pouco a pouco, E acordarás de súbito num vasto leito de noivado!
Tenta Esquecer-me
Tenta esquecer-me... Ser lembrado é como evocar Um fantasma... Deixa-me ser o que sou, O que sempre fui, um rio que vai fluindo... Em vão, em minhas margens cantarão as horas, Me recamarei de estrelas como um manto real, Me bordarei de nuvens e de asas, Às vezes virão a mim as crianças banhar-se...
Um espelho não guarda as coisas reflectidas! E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar, As imagens perdendo no caminho... Deixa-me fluir, passar, cantar... Toda a tristeza dos rios É não poder parar!
Um dia veio uma peste e acabou com toda vida na face da Terra: em compensação ficaram as Bibliotecas... E nelas estava meticulosamente escrito o nome de todas as coisas!