As palavras são novas: nascem quando No ar as projectamos em cristais De macias ou duras ressonâncias
Somos iguais aos deuses, inventando Na solidão do mundo estes sinais Como pontes que arcam as distâncias.
A vida podia ser apenas estar sentado na erva, segurar um malmequer e não lhe arrancar as pétalas, por serem já sabidas as respostas, ou por serem estas de tão pouca importância, que descobri-las não valeria a vida de uma flor.
É tão fundo o silêncio entre as estrelas. Nem o som da palavra se propaga, nem o canto das aves milagrosas. Mas, lá, entre as estrelas, onde somos um astro recriado, é que se ouve o íntimo rubor que abre as rosas.
Espaço Curvo e Finito
Oculta consciência de não ser, Ou de ser num estar que me transcende, Numa rede de presenças e ausências, Numa fuga para o ponto de partida: Um perto que é tão longe, um longe aqui. Uma ânsia de estar e de temer A semente que de ser se surpreende, As pedras que repetem as cadências Da onda sempre nova e repetida Que neste espaço curvo vem de ti.
Intimidade
No coração da mina mais secreta. No interior do fruto mais distante. Na vibração da nota mais discreta. No búzio mais convolto e ressoante.
Na camada mais densa da pintura. Na veia que no corpo mais nos sonde. Na palavra que diga mais brandura. Na raiz que mais desce, mais esconde.
No silêncio mais fundo desta pausa. Em que a vida se fez perenidade. Procuro a tua mão, decifro a causa De querer e não crer, final, intimidade.
Não direi: Que o silêncio me sufoca e amordaça. Calado estou, calado ficarei, Pois que a língua que falo é de outra raça. Palavras consumidas se acumulam, Se represam, cisterna de águas mortas, Ácidas mágoas em limos transformadas, Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi: Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, Palavras que não digam quanto sei Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, Nem só animais bóiam, mortos, medos, Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi, Crispadamente recolhido e mudo, Que quem se cala quando me calei Não poderá morrer sem dizer tudo.
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer. Então sabemos tudo do que foi e será. O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam. Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos. Com doçura. Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites. Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela. Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz. Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste.
Não me peçam razões
Não me peçam razões, que não as tenho, Ou darei quantas queiram: bem sabemos Que razões são palavras, todas nascem Da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda A força de maré que me enche o peito, Este estar mal no mundo e nesta lei: Não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe, Deste modo de amar e destruir: Quando a noite é de mais é que amanhece A cor de primavera que há-de vir.
No silêncio dos olhos
Em que língua se diz, em que nação, Em que outra humanidade se aprendeu A palavra que ordene a confusão Que neste remoinho se teceu? Que murmúrio de vento, que dourados Cantos de ave pousada em altos ramos Dirão, em som, as coisas que, calados, No silêncio dos olhos confessamos?
Palma com palma, Coração e coração, e gosto de alma No mais fundo do corpo revelado.
Já a pele não separa, que as palavras São espelhos rigorosos da verdade E todas se articulam deste lado.
Linhas mestras da mão abram caminho Onde possam caber os passos firmes Da rainha e do rei desta cidade.
Praia
Circular, o poema te rodeia: Em voltas apertadas vem cercando O teu corpo deitado sobre a areia.
Como outra abelha em busca de outro mel, Os aromas do jardim abandonado, Vai rasando o poema da tua pele.
Retrato do Poeta quando Jovem
Há na memória um rio onde navegam Os barcos da infância, em arcadas De ramos inquietos que despregam Sobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado No silêncio da lisa madrugada, Ondas brancas se afastam para o lado Com o rumor da seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exacto, À hora que mais conta duma vida, Um acordar dos olhos e do tacto, Um ansiar de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto Que do fundo rompeu desta memória, E tudo quanto é rio abre no canto Que conta do retrato a velha história
Sonho…
Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu.