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 A Poesia...

Pára... Há sombra aqui! Pára e descansa!
Já ficou para trás a aridez do deserto!
Ao teu lado, a fugir num leito claro e incerto
brinca um riacho feliz de alma ingênua de criança!

Aqui, a terra veste as cores da esperança
e na árvore que oscila e faz sombra, e está perto,
há um pássaro que canta e irrequieto balança
o ramo que de flores todo está coberto!

Há sombra aqui... há um pouco de paz ao redor...
Chegas cansado e triste a arrastar tuas mágoas,
pára, - descansa um pouco... e sonha que é melhor...

Dorme, e ouve a canção que te embala dos ninhos,
- se a vida, é como um rio a rolar suas águas,
a poesia- é uma sombra à margem dos caminhos.


A tarde cai... enquanto te despes...

A tarde morna, sensual, lânguida, no poente
vai descendo de manso, lentamente,
em dobras roxas pelos espaços...
- como a tua camisa quando te despes
displicente
para a ansiedade eterna dos meus braços...

A tarde
presa naquele cume de montanha,
fugindo suavemente, silenciosa,
com a cautela de alguém que espreitasse o horizonte
cheia de receios,
- parece, no teu corpo assetinado e quente,
a camisa cor de rosa
e indolente
que encontrou ao cair a arrogância dos bicos
dos teus seios...

A tarde vai caindo, e vacila, e demora
naquele cimo de montanha
que esbatido no azul das distâncias, agora,
num forte tom vermelho
se ruboriza,
- tal como a tua camisa
toda vez
que indiferente à minha sofreguidão,
roçando em teus quadris, parando em teu joelho,
vai descendo, descendo, em dobras, molemente,
em dobras suaves de seda a desmaiar plisses
sobre o chão

A tarde morna, com seus tons dúbios de luz
fugidia,
tem esse calor distante
esse vago perfume
e esse gesto indolente e cheio de torpor,
- da camisa ao soltar-se dos teus ombros nus
em carícias estranhas,
no instante em que teu corpo, branco como o dia,
encontra nos meus braços o abraço das montanhas
para a Noite de amor...
 

Acordeon

Quando te tenho sobre os joelhos
penso que sei tocar acordeon,
e brotam notas dos meus dedos
que eu sei bem que  tu ouves

porque os teus olhos estão dançando um tango.


Adolescência
   
Cabelos leves de vento,
vento de sol, ouro e música,
boca úmida, alvorada,
canto de pássaro sem nome.

Mãos de sonho, vagas mãos
como desejo impossível,
pressentir como bailados,
- onde o palco iluminado?

Curvas, não formas, apenas
curvas despontando - geração.
Ritmo solto, avançando
pelo futuro talvez
ou pela rua dos olhos.

Riso, dor irrevelada,
canto efêmero, prenúncio,
mistério infinito do eco
múltiplo, pelos espelhos
se projetando no tempo.

Irrevelada brancura
passo no espaço, ascensão,
desejo, ah! o desejo é tudo
na louca metamorfose,
- sonho de asas, quase vida!
 

A manhã é minha namorada

Foi hoje, quando acordei que notei a presença da manhã...

Olhei-a nos olhos azuis, tão claros e sem nuvens,
e ao meu olhar surpreso e deslumbrado
um mundo novo de repente se revelou na luz macia e diáfana...
Emocionei-me como um menino, e revivi a perturbação
do primeiro encontro com a namorada...

Interessante!  Mas só hoje reparei na manhã que chegou...

E notei que ela veio sorrindo nas papoulas e nas rosas
vermelhas
estonteando enxames de abelhas,
- e tinha nas faces coradas
um ar de colegial em férias...

Nas tranças verdes da manhã, vinham duas borboletas
de asas coloridas
correndo doidas atrás dela...

Só hoje eu reparei na manhã, quando ela chegou
com o seu odor estranho
de corpo de adolescente depois do banho,
toda vestida de gazes transparentes e vaporosas.. .
E reparei nas suas formas redondas, e reparei nos seios duros e fortes
vestidos de alvas neblinas luminosas...

Só hoje eu reparei que apesar das tranças verdes das folhagens
e de seu ar infantil de instinto e de pureza,
a manhã já não é menina
a manhã já é moça nas suas formas redondas...

Eu vi os seios da manhã tremendo nos frutos maduros
que ninguém provou,
eu vi no colo da manhã um colar de contas brilhantes
cor do dia,
e adivinhei o mistério do corpo virgem da manhã
na mataria espessa que veste a montanha e que a noite orvalhou...

E eu ouvi a voz musical da manhã, na alegria distraída das águas
cantarolando sozinhas,
e vi a manhã correr de pés descalços nas ondas
andando sobre o mar...

Eu abri a janela, e a manhã veio correndo me espiar,
veio do céu e da terra,
veio do ar,
a manhã menina e moça de alma de náiade pagã...

E eu, louco poeta incorrigível,
me apaixonei pela manhã...

Ela entrou no meu quarto trêfega e contente
e com seus dedos de sol tocou nos vidros e nos metais,
mexeu em tudo que viu
e espiou para os lençóis da minha cama desfeita...

Depois... fugiu...
Lá se foi pelos caminhos com as mãos cheias de pássaros,
levada pela a aragem numa doida correria,
rasgando o seu vestido
de galho em galho...
(E as contas de seu colar espatifando-se no espaço
eram gotas de orvalho...)

Hoje eu me apaixonei pela manhã,
senti até no meu corpo o contato do seu
num estranho calor,
e debrucei-me à janela para confessar à manhã
o meu amor...

Será que a manhã ouviu minha declaração?
Lá se foi ela a correr, luminosa e feliz, sonora e inquieta,
sem me dar confiança...

Será que a manhã já é moça... ou será que a manhã
ainda é criança?
 

Ah! Não seria isto Poesia?

A alegria provocante do teu sorriso
a fresca alegria
da tua boca molhada como os caminhos
ao nascer do dia,
- ah! não será isto poesia?

A música de abismo no silencio longo
do teu beijo que atrai,
essa estranha vertigem que inebria,
- ah! não será isto poesia?

O vento a acariciar os tens cabelos soltos
teus cabelos revoltos
macios e leves,
como painas, como nuvens, como neves,
tecidos de seda e de luz
numa estranha magia
- ah! não será isto poesia?

E o mistério de teus olhos profundos, castanhos,
que atraem como horizontes
para mundos estranhos,
onde há noites de amor, e nunca chega o dia ...
- ah! não será isto poesia?

A visão do teu pescoço branco, selado como um templo,
pelo véu de teus cabelos louros, que eu descubro
nos delírios de minha fantasia,
- ah! não será isto poesia?

E o lóbulo de tua orelha, pequenino, redondo,
onde a maciez do teu corpo se adivinha,
e onde mora o perfume de tua carne que antevejo
e se anuncia...
- ah! não será isto poesia?

E a beleza de tua adolescência, insubmissa e revolta,
no ritmo de tuas formas libertadas
ferindo o meu olhar como saga bravia...
- ah! não será isto poesia?

E a tua voz
- a noite que se fez sorri numa flauta macia -
e teu corpo, uma bandeira inquieta desfraldada,
teu amor, prece sensual para a minha heresia...
- ah! não será isto poesia?

- Sim, isto tudo é poesia, em vida revelada,
porque tu és a Poesia, oh! minha doce amada!


Anjo

 
Achei para o seu vulto de moça e de menina
a imagem que traduz em toda a singeleza
a sua inquieta figura, -
- (embora eu não creia em céu,
para mim, ela é um anjo, um anjo de divina
beleza
e de humana ternura!)
 
Anjo da Terra, - cheio de graça e esperança
que ao sonho nos conduz...
- na sua ingenuidade e no seu ar de criança
há ignorados tesouros,
e há uma estranha beleza em seus cabelos louros!
- e um céu, - só nesse eu creio! em seus olhos azuis!
 
Não gosto de pensar no seu futuro
se eu sei que não terei dele, um dia sequer...
Que pena ... o tempo mau, há de nublar seus olhos,
o anjo há de fugir da sua alma de criança
- e em seu lugar há de ficar apenas...
... apenas outra mulher...

Gosto de vê-la assim, ainda ingênua e menina,
faz bem à alma da gente um olhar de pureza.
e um sorriso infantil de alegria e ventura...
- para mim, ela é um anjo, um anjo de divina
beleza!
- loura estrela exilada entre nuvens sombrias
por uma noite escura!

É a visão desse bem que eu sei inatingível
e que há de ceder ao mal,
- o meu lírico amor, pueril e impossível,
que inspirou meu primeiro verso, e há muitos anos
foi meu primeiro ideal!


Ânsia vaga
  
Sempre a vida em conserva
o mundo a os acontecimentos
na tela dos mesmos cinemas,
e as mesmas historias em livros diferentes
e em livros diferentes sempre os mesmos poemas...

Sempre a vida em conserva
gravada em discos, irradiada de longe, fotografada,  
nunca a presença, a emoção sentida
deslumbrada...

Ah! pisar outros chãos, colher flagrantes reais
de imprevistas naturezas
feliz a irresponsável como um menino
sem ninguém compreender o que eu faço e o que eu falo...

Ah! tomar de surpresa o meu próprio destino,
olhá-lo com os meus olhos cheios de belezas
e assombrá-lo!
 

Ausência

Quando estás longe, querida,
na minha angústia sem fim,
saudade, é o nome da vida
que morre dentro de mim...

Saudade, - estranha ilusão
que à solidão recompensa,
presença no coração
maior que a própria presença.  

Presença no coração
que à vida não satisfaz...
Saudade, estranha emoção
que a distância aumenta mais.
 

Balada ao amor que não veio...

Se acaso penso em ti, me inquieta o pensamento...
Por que havias de vir assim tarde demais?
Bem que eu tinha de há muito um cruel pressentimento,
- e há sempre um desespero em nós, se num momento
desejamos voltar a vida para trás...

Neste instante imagino o que teria sido
o meu vago destino desorientado,
se antes, eu já te houvesse um dia conhecido,
e esse tempo, meu Deus!... - e esse tempo perdido
pudesse ao teu convívio ter aproveitado!

Não há nada entre nós, nada... e em verdade há a vida
que nos chama e nos prende!.. . E já agora imagino
que aqui estás ao meu lado a ouvir-me comovida
e me entregas a mão, - e entrego-te vencida
a minha alma, - e com ela todo o meu destino!

Não há nada entre nós, - mas se nos encontramos
ouvirás de hoje em diante um poema onde tu fores,
- trouxemos o destino estranho de dois ramos,
separados, - que importa? ainda assim nos juntamos
confundindo as ramagens, misturando as flores. . .

E eu nem te vi direito! Um olhar sob um véu,
(há qualquer coisa estranha num olhar velado...)
- um olhar, - não direi que em teu olhar há um céu,
quando sei que afinal há tanta angústia e fel
em tudo o que me tens da vida revelado!

Acompanhei-te o vulto um segundo, alguns passos,
nada mais, e no entanto, se quiser pensar
sou capaz de te ver, (há gestos nos espaços,
e guardei a visão dos teus braços, - teus braços
guardei-os, como dois clarões dentro do olhar!)

E devem ser macias tuas mãos, - não ouso
pensar no que elas guardem nos seus finos dedos,
- pensando em tuas mãos, penso em sombra, em repouso,
num lugar quieto e bom, e num vento amoroso
a soprar entre as folhas múrmuros segredos...

Mas... que saibas perdoar estas coisas que escrevo,
pensei-as a escutar distante a tua voz,
e há algumas coisas mais, que a dizer não me atrevo,
é que escrevo demais, e não posso, e não devo,
e não tenho o direito de falar em nós...
 

Balada aos teus encantos

Há no teu corpo coleios 
de serpente pelo chão...
Quem sabe, pois, se os teus seios
são serpentes enroscadas,
em sensuais emboscadas,
- escondidos como estão?

São tão belos os teus seios,
redondos, vivos e cheios,
cheios, como luas cheias
e brancos como as areias,
- irrequietos como o mar...
As vezes, quando te agitas,
palpitam trêmulos no ar,
- são duas aves aflitas
 presas de ânsias infinitas
mas que não podem voar...

São duas aves esquivas
irrequietas e lascivas
que quando escapam do ninho
erguem seus bicos ao céu;
- aves sem asas, cativas,
em posições agressivas
crescendo em tua nudez,
- nos bicos cor de uva e mel
têm duas gotas de vinho,
de um doce vinho, de um vinho
de uma infinita embriaguez.

Sentinelas avançadas
de tuas formas ousadas,
não se rendem com certeza
guardando a tua beleza,
e embora caia o teu corpo
e entregues tua alma até,
- teus seios, esses teus seios,
redondos, belos e cheios,
erguem-se mais, sem receios!
- ainda estão vivos, de pé!

Quando se atiram no ataque
enfrento-os com o meu desejo!
- não há forca que os aplaque,
não há carícia, nem beijo,
se os tento em vão dominar...
Que eles assim me entontecem:
- sou como o vento! E eles crescem:
- são como as ondas do mar!

Roubaste ao mar duas ondas
são duas ondas redondas.
que ostentam pérolas raras,
pérolas cor de cereja
que o meu desejo deseja
no teu corpo de águas claras...

- são duas ondas redondas
que espraiam contra o meu peito
quando em teu corpo perfeito
- no oceano - que é o nosso leito,
sou como um barco no mar...

Roubaste ao mar duas ondas
são duas ondas redondas
onde me vou naufragar...


Balada embalando Maria...
     
Odor de folhas verdes perturbando,
punhais de luz ferindo a ramaria...
- é o teu corpo cheiroso me estonteando!
- são teu olhos, Maria!

Rumor na mata de água inquieta e fria,
bicos de ave no ninho quente e brando...
- é a tua voz feliz cantarolando
- são teus seios, Maria!

Sombra de noite que vai baixando
caju mostrando a polpa cor do dia...
- são teus cabelos me chamando
- são tem lábios, Maria!

Fruto maduro abrindo a mataria,
gestos de gaivotas no ar bailando...
- é o teu riso medroso me tentando!
- são tuas mãos, Maria!

Vento que sopra leve, acariciando,
Mel que canta na boca e que inebria...
- é o teu carinho morno me prostrando!
- são teus beijos, Maria!

Raio de sol dançando de alegria,
cipós que ao meu redor se vão fechando
- é a tua alma de criança madrugando!
- são teus braços, Maria!

Rima que eu quis rimar com fantasia,
trecho de céu que ao longe vai clareando...
- é o teu nome que eu vivo soletrando!
- são teus sonhos, Maria!

Girassol sempre a luz acompanhando,
levada aos ventos, erradia...
É o meu amor por ti, louco, sonhando!
É o teu amor, Maria!


Barco perdido

Oh! a vida é uma grande renúncia, partida
em pequenos fragmentos, todo dia, toda hora...
E a ironia maior, é que às vezes, a vida
de renúncia em renúncia aos poucos vai embora...

Tu voltaste de novo... e o doce amor de outrora
trouxeste ainda no olhar, na expressão comovida.
e eis que o meu coração no reencontro de agora
transforma em labareda a chama adormecida...

No entanto, que fazer? Há uma âncora no fundo...
Hoje, sou como um barco sobre o mar do mundo,
barco esquife, onde jaz um marinheiro morto...

Velas rôtas ao vento... os mastros aos pedaços...
E te vejo seguir, e a acenar-me teus braços,
e me deixo ficar, sem destino, nem porto...
 

Beatitude

Tuas mãos pousaram suavemente em meus ombros
como dois pombos brancos à beira de um tanque
de águas quietas...

Tua alegria acordou minha alma
coo os sinos sacodem a tristeza da tarde
na hora da ave-maria...

Tua beleza pôs um repuxo de sonho
no pátio vazio da minha vida
tão cheia de mágoas...

E hoje, os meus ouvidos,
antes tão órfãos de melodias,
distraem o silêncio que havia em meu destino
com a música das águas...

Teus dedos acordaram um velho instrumento,
despertaram um teclado adormecido
em minhas mãos...

Teu vulto chegou no meu caminho
onde fazia tanta falta,
como a trepadeira na janela engradeada
e silenciosa
da torre alta...

Entraste em minha vida
como o ramo de trepadeira pela janela aberta...
- e vieste desfolhar inutilmente o teu destino
na sombra esquecida
de uma sala deserta...
 

Bom dia, amigo Sol!

Bom dia, amigo Sol! A casa é tua!
As bandas da janela abre e escancara,
- deixa que entre a manhã sonora e clara
que anda lá fora alegre pela rua!

Entre! Vem surpreendê-la quase nua,
doura-lhe as formas de beleza rara...
Na intimidade em que a deixei, repara
que a sua carne é branca como a Lua!

Bom dia, amigo Sol! É esse o meu ninho...
Que não repares no seu desalinho
nem no ar cheio de sombras, de cansaços...

Entra! Só tu possuis esse direito,
- de surpreendê-la, quente dos meus braços,
no aconchego feliz do nosso leito!...


Brinde

   
Tomarei tua cabeça entre as mãos como uma taça,
e transbordará o louro “champagne” dos teus cabelos
sobre meus dedos...

Me olharei no cristal dos teus olhos
e verei minha imagem refletida no desejo
que efervesce,
e beberei em teus lábios entreabertos a tua vida
até que os teus olhos fiquem vazios e ausentes...

Até que te sintas leve e gloriosa como uma taça de cristal
traspassada de luz
num brinde a esse segundo de êxtase imortal...
Uma taça que, por esse segundo morreria afinal
espatifada,
num grito de prazer esplêndido e triunfal!

.........................

Tua cabeça entre as minhas mãos
será a taça com que brindarei
nesse segundo,
o destino do amor
no destino do mundo!
 

Cabocla

Cabocla, em teus olhos há estranhos desejos,
mistérios de noite,
clarões de luar...

Tua boca, é uma fruta madura, vermelha,
madura de beijos,
de beijos maduros que eu quero apanhar!
Tua boca é uma fruta gostosa, será
assim como um bago branquinho,
branquinho,
e doce de ingá!

Teu riso, Cabocla, é tão fresco, tão bom,
que há nele um murmúrio de fontes, e o som
das águas rolando na mata fechada...
Teu riso, Cabocla, parece a alvorada,
parece na sombra o clarão do caminho,
- teu riso parece esse sulco branquinho
que se abre na pele macia e corada
de um doce cajú!
 

Caminho monótono

E por que hei de negar?...Ah! o encanto da estrada
abrindo em cada curva um leque de paisagem,
e o mistério da casa escondida e encantada
que mora sob a sombra amiga da folhagem

E por que hei de negar?  Se isso é a vida passada;
se o fastio espantou o encanto da miragem
Hoje - o olhar distraído, e a alma já cansada
repetem todo dia e sempre a mesma viagem

E por que hei de negar?  Ah! Aquelas ânsias loucas
dos beijos que cantavam sempre em nossas bocas
e das mãos, não sabendo nunca onde pousar...

Hoje... por mais que venhas, sempre estou sozinho...
E por que hei de negar?  Se teu corpo é um caminho
onde de olhos fechados posso caminhar?...


Canção branca

Já nada vejo,
apagaram-se as chamas... e essa paz... e esse vago torpor
em que tudo adormece
- branco desejo
como uma folha em branco onde a mancha do amor
desaparece...

Imprevistas alvuras
e a alma já sem raízes, de repente, leve,
como um floco de neve
nas alturas...

Como se o Sol caísse, e num segundo:
- a noite fria...
E um sentimento estrelado, profundo,
de poesia...

Estamos juntos, sem mãos, sem lábios, sem beijos,
sem nada,
brancos desejos.. .
- o amor parece
sobre a terra vermelha, machucada,
a  sombra de um alvo lírio que floresce...
 

Canção do meu abandono

Não, depois de te amar não posso amar ninguém!
que importa se as ruas estão cheias de mulheres
esbanjando belezas e promessas
ao alcance da mão?

Se tu já não me queres
é funda e sem remédio a minha solidão...

Era tão fácil ser feliz quando estavas comigo!
Quantas vezes, sem motivo nenhum, ouvi teu riso rindo
feliz, como um guizo em tua boca?
E todo momento
mesmo sem te beijar eu te estava beijando:
- com as mãos, com os olhos, com o pensamento,
numa ansiedade louca!

Nossos olhos. meu Deus! nossos olhos, os meus
nos teus,
os teus
nos meus,
se misturavam confundindo as cores
ansiosos como os olhos
que se dizem adeus..

Não era adeus, no entanto, o que estava em teus olhos
e nos meus,
era êxtase, ventura, infinito langor,
era uma estranha, uma esquisita, uma ansiosa mistura
de ternura com ternura
no mesmo olhar de amor!

Ainda ontem, cada instante era uma nova espera ...
Deslumbramento, alegria exuberante
e sem limite...
E de repente,
de repente eu me sinto triste como um velho muro
cheio de hera
embora a luz do Sol num delírio palpite!

Não, depois de te amar não posso amar ninguém!
Podia até morrer, se já não há belezas ignoradas
quando inteira te despi,
nem alegrias incalculadas
depois das que senti...

Depois de te amar assim, como um deus, como um louco,
nada me bastará, e se tudo é tão pouco...
... eu devia morrer...
 

Cantiga da onda e da espuma  

Onda do mar, onda bela,
que se ergue, cresce, encapela,
e de espuma se coroa,
- palpita, intrépida e viva,
depois, se recolhe esquiva
e se desfaz e esboroa...

Valeu crescer, se atirar,
na ânsia de asa que não voa...
Destino de onda do mar
- não se atirou à toa!

A glória de ser onda e ser onda somente
tecer espumas, desfazer espumas,
nas águas inquietas...
(As ondas sem espumas seriam como noites sem astros;

as florestas sem rios, os jardins sem flores,
as paisagens sem cores
ou o mundo sem poetas!

Como bocas sem sorrisos
ou como flores sem mel,
ah! as ondas sem espumas, não seriam ondas,
como o céu sem estrelas não seria céu!

Sem espumas das ondas, nem a praia seria
praia sequer,
seria somente, areial ondulante, vazio,
como um corpo morto, frio,
de mulher...

Ah! as ondas sem espumas não seriam ondas
como as matas sem fontes e as florestas sem rios
seriam um sepulcro em silencio profundo,
- como o mundo sem poetas
não seria mundo!)
...............................

O coração é onda feita
por misteriosa mão,
e o sonho, e a espuma que enfeita
o vaivém do coração!
 

Canto banal

Não te quero dizer palavras difíceis e deformantes
nem inventar imagens que embelezam talvez
mas que não reconheces.

Não tocarei música para os teus ouvidos
nem criarei poesia para a tua imaginação,
nem nada esculpirei que já não estejas em ti...

Nesse instante serei banal,
não respeitarei nem mesmo o silêncio,
nada que nos eleve além do plano em que estamos,
não serás estrela, não serás a nuvem, não serás a flor...

Quando chegares, e eu tomar teu corpo
em meus braços nervosos, te direi apenas:
- meu amor!
 

Canto de ontem

Vamos, põe teu braço no meu braço, vamos recordar
os velhos tempos
do nosso amor.
Passeávamos assim, e que frias eram as tuas mãos
no momento do encontro,
e que dóceis teus lábios depois da rendição.

Muitas vezes perdi-me em teus lábios e não soube voltar.

Que era o mundo senão um punhado de perspectivas
que saíam do ponto coração
e se perdiam nos teus olhos?

Tanta cousa esperamos e alguma cousa colhemos
mas que triste, amor, este todo-o-dia matando
o que esperávamos jamais ser tocado pelo tempo.

Tu me queres ainda, eu sei que te aninhas, por habito ou por frio
junto ao meu corpo, e esperas.

E eu te quero ainda, muito mais pelo que deixaste
nas raízes mergulhadas
e pelo que representas nas nuvens que se acumulam
do que pelo momento de tédio e ternura, elementos
do nosso coquetel cotidiano...

Vamos, põe teu braço no meu braço, como antigamente,
entrega-me docilmente os teus lábios, e pensa
que eu te beijo há mil anos, num tempo em que seremos
sempre os mesmos
e o nosso amor imortal.


Canto e Elegia

Sejam as palavras a forma da minha dor
ou da minha alegria.

Que este é o destino real dos que trouxeram
a poesia,
existirem apenas no canto,
como a chama no fogo,
como a forma na flor!

Canto e elegia...
aonde eu for.
 

Canto efêmero
   
Feliz no mundo eu só!... Ninguém mais é feliz!
Ninguém mais é feliz!... Eu só, sorrio e canto!
Enfim o teu amor!... Quanta coisa! Quem diz,
- quem poderia crer que eu merecesse tanto!

Esplendor! a paisagem mudou por encanto!
No negro da minha alma há rabiscos de giz
traçando ante meus olhos trêmulos de espanto.
- “Feliz no mundo, eu só !... Ninguém mais é feliz!”

Certo do teu amor, tudo ao redor se anima,
em ouro se transforma a fuligem do pó
e a minha alma, a beleza das coisas sublima!

Enfim o teu amor!... E o teu amor primeiro!
Meu Deus! eu sou feliz!... Feliz no mundo eu só!
Ninguém mais é feliz, ninguém!... no mundo inteiro!


Canto integral do amor

Cegos os olhos, continuarias de qualquer forma,. presente,
surdos os ouvidos, e tua voz seria ainda a minha música,
e eu mudo, ainda assim, seriam tuas as minhas palavras.

Sem pés, te alcançaria a arrastar-me como as águas,
sem braços, te envolveria invisível, como a aragem,
sem sentidos, te sentiria recolhida ao coração
como o rumor do oceano nas grutas e nas conchas.

Sem coração, circularias como a cor em meu sangue,
e sem corpo, estarias nas formas do pensamento
como o perfume no ar.

E eu morto, ainda assim por certo te encontrarias
no arbusto que tivesse suas raízes em meu ser,
- e a flor que desabrochasse murmuraria teu nome.
 

Canto pretensioso

Exilado num tempo de perfídias,
de misérias, de lutas, de torpezas,
- pergunto em vão, nesse clamor de insídias
onde vivem as almas e as belezas?

Trago as asas e as ânsias sempre presas
se o mundo é um choque eterno de dissídias...
- onde andarão aquelas naturezas
do século de Péricles e Fídias?

No meu destino singular de eleito
subo à procura do alto da montanha,
onde o ar é mais puro e o céu perfeito!

- Que as montanhas, as eras não consomem,
e nessa ânsia em que avanço, sinto a estranha
vocação de ser deus dentro de um homem!


Canto puro

Como se fosse uma árvore me sinto
a bracejar a luz desta manhã:
do azul dos céus, azul puro e retinto,
embebedo a minha alma livre e sã.

Há uma alegria esplêndida e pagã!
Cheiro de terra a provocar o instinto!
O dia, é um bago rubro de romã
e o Sol renasce de um incêndio extinto

Que gosto bom esse de andar no chão
de pés descalços, tal como as raízes,
a ouvir cantar no peito o coração

Como as aves nas ramas enfloradas
ou como as águas claras e felizes
que cantam pelo chão, despreocupadas...
 

Classicismo

Longínquo  descendente dos helenos
pelo espírito claro, a alma panteísta,
- amo a beleza esplêndida de Vênus
com uma alegria singular de artista!

Amo a aventura e o belo, amo a conquista!
Nem receio os traidores e os venenos...
- Trago na alma engastada uma ametista,
- meus olhos de esmeraldas são serenos!

Com os pés na terra tenho o olhar no céu;
a alma, pura e irrequieta como as linfas
soltas no chão; nos lábios, tenho mel...

Meu culto é a liberdade e a vida sã.
E ainda hoje sigo e persigo as ninfas
com a minha flauta mágica de Pã!
 

Conselhos de Amor...

Incoerência talvez, mas verdades da Vida,
é um mal, um grande mal, amar-se em demasia,
a mulher que se sente adorada e querida
e é pelo teu amor cercada e protegida
é aquela que terás em teus braços mais fria.

Faz-lhe, mil carícias, sim, mas vez em quando
deixa uma frase vaga e indiferente no ar...
Assim, - ela terá com que ficar pensando,
e enquanto desconfia ou fica te esperando
por tanto te querer, talvez chegue a chorar.

O pranto é a chuvarada que prepara a terra
onde lançaste um dia a semente do amor.
O ciúme é o sol que a flor em pétalas descerra,
e o teu carinho, a aragem que nos ramos erra
e conforta as raízes apagando a dor.

E' a mulher que o exige ... Ela te adora e te ama
se souberes ser bom sendo às vezes cruel.
Não te iludas porém, te arrastará na lama
se a rodeares de luxo e a envolveres na chama
de um extremoso amor constantemente fiel!

Sabe sempre pesar sobre ela o teu domínio
não cedas teu lugar nem por mal nem por bem,
se um dia descobrir que tem força e fascínio
datará deste dia o teu fatal declínio
e verás como o amor se transformou também.

Sé perdulário sempre em teu amor, procura
no entanto não perder de vista os teus carinhos.
O amor que se oferece é amor que pouco dura,
- e que a rosa macia da tua ternura
tenha pétalas... sim... mas também tenha espinhos...

Marca na vida dela o rumo dos teus passos
deixando sempre um traço de altivez, viril.
A mulher quer que o homem caia nos seus braços
quer vê-lo - o coração pulsando, os olhos baços,
tendo a vaga impressão de que ele não caiu!


Conto perdulário

Hei de gastar minha alma – a alma dos poetas
é como a luz do Sol ou como o luar,
deve espalhar-se, para embelezar
e iluminar as sombras mais discretas...

Como as águas que cantam, irrequietas,
deve o silêncio, um pouco, musicar,
ou como a onda que se ergue, - a alma dos poetas
deve de espumas enfeitar o mar!

Cumpro assim o meu destino, e neste bando
de versos, perdulário a vou gastando,
e quanto tenho de alma já nem sei...

E hei de esbanjá-la mais, de instante a instante,
e morto – hão de encontrá-la ainda estuante
nos versos onde a vida a desperdicei!
 

Coração solitário

A noite esta fechada na janela aberta.
Uma rua perdeu-se na sombra lá embaixo.
Não existe esta rua - é um beco surrealista
que fugiu de algum quadro louco que não vi.

Ouço meu coração ardente e solitário
com sua música estranha de piano bêbado.
No espelho, meu olhar: duas chamas de estrelas.
Não  sei  se é o vento,  sei que  há  música  na   noite.

Há música no quarto, nas cortinas, música
nos meus cabelos despenteados, nos meus dedos,
no meu rosto, entra e sai pela janela.

Música indefinida a encher a solidão:
- estou no ventre da noite a mexer com os meus sonhos,
ouço o meu coração ardente e solitário.
 

Covardia

O que me falta é a coragem para fazer como Gaugin
e ir pintar as ilhas e as mulheres dos mares do Sul.

Não cair em Jack London
mas pintar pelo menos céus amarelos como os de Van Gogh
e beber absinto como Rimbaud.

O que me falta é a coragem para ir encontro que
marquei comigo mesmo
numa esquina do mundo
para encontrar o destino...
 

Depois...

Pronto... Já agora seremos como dois irmãos
unidos pelo amor que há pouco nos venceu...
Meus sentidos não tocarão tua beleza
nem sentirás a aspereza do meu corpo de encontro ao teu...

Há em ti a quietude das águas remansosas e protegidas
e eu sou como um barco de velas recolhidas
guardando no cordame dos mastros, a nostalgia erótica dos ventos
e no bojo, ressoante, o rumor impetuoso do mar alto...

Pronto... Já agora o meu pensamento ficou límpido e sereno
como um céu sem nuvens depois que o vento passou
num temporal...
- e consigo te amar - um amor quase fraterno
e ameno, -
que fica à margem do bem... que paira acima do mal!

Já agora seremos apenas como dois irmãos...

Adormecerás em meus braços, - como a tua mão que
ficou em minhas mãos -
e eu ficarei a enlaçar-te, com os lábios em teus cabelos
numa ternura imensa,
- esquecido da tua presença...
Tens um vago olhar de sonho.... e devo ter um vago
olhar de criança,
e envolve-nos essa paz, essa serenidade,
do mar calmo depois da chuva, e de um céu de bonança
depois da tempestade...

Já não me ouves, bem sei... se a tua cabeça sobre meu ombro
pendeu, em abandono...
- meus sentidos não acordarão tua beleza
nem sentirás a aspereza do meu corpo perturbar teu sono...

Pronto... Ficaste nos meus braços, quieta, adormecida,
como dentro das minhas mãos as tuas mãos...

Estranho o nosso amor... Interessante a vida...

- Há pouco, loucos, como dois amantes!
- Agora, puros, como dois irmãos!
 

Desânimo

Apoio as minhas mãos sobre os meus próprios ombros
olho para os meus olhos entulhados de escombros
que a luz em vão escancara,
e grito para mim mesmo, para a minha boca,
com a voz cansada e rouca:

- Pára !
.........................

Sensação de vazio, de morte, de paz...
Para que seguir mais? Para que seguir mais?


Desculpa

Me desculpem, amigos, se não consigo sujar o sonho,
torná-lo indecifrável e apocalíptico,
se não consigo lambuzar o símbolo,
se não posso turvar a imaginação.

Me desculpem, amigos, meu jeito é este mesmo de ser poeta,
e a água da minha onda, por mais profundo que seja o mar,
é azul e transparente,
e os peixes tem suas formas, e as algas não tem suas formas,
e as estrelas do mar florescem cinco pontas,
como as palavras que luzem.

Me desculpem, amigos, se venho assim transparente como o  fundo de aquário
num parque para crianças e curiosos,
e se vos ofereço estes velhos símbolos de uma velha e  primitiva poesia
que chegou com os peixes à terra, talvez antes da presença  do homem.


Desejo Oriental

Quero que sejas assim, sempre nova,
sempre diferente,
lírica e sensual
pecadora e inocente,
- imagem pura do bem,
visão estranha do mal,
- nas “mil e uma noites” do meu desejo
oriental...

Terás então o meu amor
se isto conseguires...
- que o meu desejo é assim: volúvel, multicor,
como o arco-íris...
 

Desejos... na manhã de Sol

Na manhã de sol
bela e serena,
depois de um dia de chuva
depois que à noite ventou,
- tive desejos de apanhar aquela mulher morena
que passou...

Devia ter na boca rubra
um gosto de uva
um gosto bom de vinho,
e quando ela me olhou,
- pensei na fruta madura que o vento da noite derrubou
à margem do caminho...

Ah! o garoto que fui!  Ah! o garoto que sou!
Na inquietação da minha vida,
nas voltas do meu caminho,
sempre a vontade incontida
de desejar as frutas do quintal vizinho!

Na manhã de sol
bela e serena,
- depois de um dia de chuva,
- ah! o garoto que sou!
tive desejos de apanhar aquela mulher morena
que passou!
 

Desolação

Na profunda tristeza deste instante,
em que o irremediável
abalou a minha sorte,
na certeza de que te ausentaste definitivamente,
- eu pensei pela primeira vez na morte...

Tudo desapareceu aos meus olhos atônitos
e eu me senti sozinho...
- já não há finalidade na minha criação
nem desejo na minha vida...

Só não abro em meu peito o coração, e o ponho na lapela
como rubra papoula em flor,
- porque sei que ainda te encontras dentro dele,
e nem mesmo a tua lembrança eu ousaria ferir
oh! meu amor!
 

Destino

Cercado de gente, viverei
como uma ilha.

Rompendo as ondas, seguirei
como uma quilha.

Quem sabe, um dia, me encontrarei
- que maravilha!
 

Dezesseis Poemetos

I – Alegria

Há um canto de pássaro no raio de luz
que pousou na janela.

II – Amor

acidentalmente a abelha aproximou duas flores
na manhã nupcial.

III – Brinde

Sirvamos na taça
a palavra e a música.

IV – Canto

Um pássaro pousou na palavra e deu asas
ao coração.

V – Carícia

Foram tuas mãos... ou apenas o sol que saiu de uma nuvem
para tocar-me.

VI – Esperança

A face impassível e lúcida do espelho
ainda se turva...

VII – Inconstância

Já foi rio, hoje é nuvem... e um dia será
flor...

VIII – Inquietação

Não são as ondas, não são os ventos...
Nos rios subterrâneos do meu sangue...
há velas brancas, desesperadas...

IX – Melancolia

As nuvens eram duas mãos longas, cada vez mais longas
acariciando o poente.

X – Oração

Este silêncio... este estranho silêncio que canta
na palavra que brota verde da terra...

XI – Pessimismo

Há estrelas no céu, há vermes na terra,
há algas no mar...
Só eu nasci homem.

XII – Poesia

... quem me levou à este encontro imprevisto
para uma posse impossível?

XII – Pudor

Escapas, nua, de meus braços
e vais te vestir no quarto ao lado.

XIV – Pureza

Brancos pés de criança vão cantando
sobre abismos...

XV – Sensual

Eram dois bicos, como dois bicos de aves,
só que tremiam sob o teu vestido...

XVI – Tristeza

Uma noite obscura adoece
em teus olhos...
 

Dia inútil, vazio...

Dia  inútil, vazio... E a minha alma viúva
do último sonho, envolta em crepe, em luto estranho.
Aqui dentro encerrado, olho o tempo, e acompanho
seu enterro que passa em silêncio na chuva...

Vida! Bem que por ti muitas vezes me assonho!
Num resto de perfume um gosto ativo de uva!
No entanto, hoje este tédio que não tem tamanho
meus sentidos calçando, assim como uma luva!

Neste vago conforto, quase desconforto,
os minutos iguais pingando a mesma voz
na goteira irreal de algum relógio morto...

E este dia, e esta chuva, e esta sala, e esta calma...
E a inútil sensação de que me encontro a sós
como o último parente a velar a própria alma!


Dilema

Mariposa da noite, asa cor das estrelas,
quero morrer queimando as minhas ânsias
na luz do drama que se ergue
pura como uma prece,
ou viver apagado e perdido na sombra
onde ninguém possa me perceber
- onde ninguém me conhece...

Ou a luz da gloria há de me escravizar
inutilmente,
projetara minha imagem sobre o mundo
crescendo à proporção que ela crescer também,
ou a sombra, onde possa perder minha sombra,
e o sossego feliz dos que nunca aparecem
nesse estranho destino de não ser ninguém...

Ou passar pelas densas multidões abrindo
como uma quilha ousada a espuma dos aplausos,
ver o corpo usufruir as conquistas do espirito
e se imortalizar no bronze a no retrato;
ou evitar a arena onde os homens se chocam
e dar a minha vida o destino de um sonho
que nem chegou a ser, no seu anonimato...

Mariposa da noite, asas pulverizadas
com esse pó que no céu luminoso transluz,
ou rolarei na noite como um meteoro
no mistério das noites consteladas,
ou alimentarei com as minhas asas tontas
o delírio da luz!

Este dilema encerra a minha trajetória,
qual será meu destino, entretanto, nao sei,
- ou a glória da paz, glória de não ter glória,
ou a glória da glória, e me consumirei!
Acabei de dançar, de beber, de sorrir...


Doce é a volta

Às vezes penso, quando estou só: afinal doce é o instante
em que o barco lança a ancora ao fundo.

E apaga os fornos, e esvazia os conveses, e junto ao cais
estira o corpo pesado.

Afinal, doce é o instante em que as águas oleosas e mansas
nos envolvem e nos refletem, e pelas vigias abertas vemos que
curvas amarras nos enlaçam.
Afinal, doce é a volta,
doce é a terra.


Dois caminhos...

Eu queria te dar minha emoção mais pura,
associar-te ao meu sonho e dividir contigo
migalha por migalha, o pouco de ventura
que pudesse colher no caminho onde sigo...

E esse estranho desejo em que se desfigura
a palavra de amor e pureza que eu digo,
- e queria te dar essa minha ternura
que às vezes, por trair-se ao teu olhar, maldigo...

Bem que eu quis te ofertar meu destino, meu sonho,
minha vida, e até mesmo esta efêmera glória
que desperdiço a cantar nos versos que componho...

Nada quiseste... E assim, os sonhos que viviam,
se ontem, puderam ser um começo de história,
hoje, são dois caminhos que se distanciam...
 

Dualismo

Sou a repetição de um velhíssimo drama,
pantomima banal sem princípio e sem fim...
(há de sempre existir na vida de quem ama
um pouco de Pierrot... e um pouco de Arlequim!)

Como uma ave escondida a cantar numa rama,
trago um poeta que sonha e faz versos por mim,
- a alma cheia de sol !... sigo no entanto assim
como quem traz nos pés sempre um pouco de lama...

Meus olhos são janelas que escancaro ao sonho!
E as mãos, - mesmo nas horas em que a sós componho
São raízes nervosas de desejos vãos...

Existo, - nesse eterno dualismo esquisito:.
- tendo os olhos abertos cheios de infinito!
- e enraizadas na terra, e sujas, as minhas mãos!
 

É assim a vida

Poderias ter sido tudo em minha vida
se ao menos tu tivesses desejado ser...
Dei-te a minha emoção mais profunda e sentida
e o mais profundo amor que concebeu meu Ser!

Por esse amor que em vão tentei te oferecer
eu fui poeta, eu fui criança... e tive a alma iludida!
Traí meu ceticismo, e sonhei... e quis crer...
- hoje... volto ao que fui, - a crença perdida...

Poderias ter sido tudo em meu destino:
- o meu lar, o meu filho, o meu rumo, o meu hino,
o meu próprio futuro... a obra que ainda não fiz...

Tudo terias sido... E não quiseste nada...
No entanto, (a vida é assim), - sei de uma outra, coitada,
que se um olhar dou... é a mulher mais feliz!


Edelweiss

Contenta-te com o que já tens, se é tudo o que posso dar-te,
não queiras o coração, - puro Edelweiss das alturas;
que há muito perdi num sonho que escalou a montanha
e não voltou.

Não percebeste ainda no desespero com que me enraízo
que és a terra onde piso e me vingo
do sonho inacessível.

E depois, - oh! a eterna insatisfação, - não te lastimes!
Se atingisses o sonho, talvez o achasse tão pouco
na palma de tua mão.
 

Egoísmo

Não compreendo que tragas um passado,
tu devias esperar-me
devias adivinhar que eu chegaria em tua vida...

Não devias trazer na beleza tristonha
dos teus olhos castanhos
vultos estranhos;
nem nas tuas mãos, inquietas como folhagens
invisíveis tatuagens
como rastros de carícias que passaram;
nem devias trazer nos teus lábios vermelhos
essa umidade das flores
que já desabrocharam...

Queria que as tuas mãos fossem folhas em branco
à espera da minha inspiração;
que os teus olhos fossem ingênuos como os das crianças
ingênuos como a expressão da tua face;
e a tua boca, - uma fruta de vez
que o pássaro do desejo respeitasse...

Eu queria que a tua alma, numa perpétua festa
fosse irmã daquela fonte muito clara, muito límpida,
que mora na floresta...

Não compreendo que tragas um passado
que te lembres de cousas que não sei
nem que tragas vestígios de outro amor
em teu olhar,
- não te perdôo nunca o não teres adivinhado
que  nasceste afinal só para seres minha
e que eu havia de te encontrar...

E eu que sou teu presente e serei o teu futuro
sinto-me paradoxalmente amargurado
com esse egoísmo pueril... e este ciúme doentio
do teu passado...
 

Egoísmo... na noite de chuva...

Bem que gosto da chuva a escorrer dos telhados...
a olhar-me com seus olhos vagos e molhados,
e a cirandar com o vento, e a cantar nas esquinas...
E gosto de espiar ao longe, as ruas curvas,
pelo olhar das vidraças molhadas e turvas
embuçadas no véu friorento das neblinas...

Paro de ler as vezes, esquecido, um instante,
e olho a rua estirada... a rua que está morta...
Chove... que há de fazer aquele vulto adiante,
encolhido e encostado ao vão daquela porta?

Nesses dias assim eu me sinto sozinho...
Egoísmo o meu talvez, só penso em meu conforto...
E o homem que se foi, molhado, no caminho?
e o barco que sumiu na neblina, sem porto?

Sinto-me bem... Lá fora pelas ruas quietas,
pelas ruas molhadas, úmidas, sombrias,
passam sombras fugazes, rápidas, discretas
e erradias...

Ouço a chuva que chove... A chuva cai nas ruas.
Aqui dentro, que íntimo bem-estar me invade!
Mas... por onde andarão aquelas crianças nuas
que eu vi num bairro triste e longe da cidade?

Mas eu gosto da chuva, a chuva me faz bem...
Há dias em que a dor da minha alma é cinzenta,
tenho uns vagos desejos de escutar Chopin
enquanto a chuva chove, enquanto o vento venta...

Tão bom a gente ouvir a chuva assim lá fora
e encolher-se entre quentes lençóis, inconsciente,
sem pensar.. . sem pensar... como eu pensei agora
que há alguém num vão de porta a tiritar doente...
.......................................

Meu Deus, por que hei de estar me entristecendo à toa
se essa chuva que canta é tão suave... é tão boa...
 

Elegia

Ontem
dando-te o verde dos meus olhos,
quis pintar de esperança o nosso sonho
que hoje morre... sem cor...

Dá-me pois agora o negro dos teus olhos,
quero vestir de luto o nosso sonho
de amor...
 

Em teu louvor...

Hoje é que percebi: - sigo esquecido e alheio
e há muito tempo já que não falo de nós...
Não precisas no entanto ter nenhum receio,
se versos não te dou, é que hoje, em meu enleio,
tudo esqueço por ti... quando estamos a sós...
 
Ontem, - era o começo, era o sonho, a ansiedade!
A vida - - uma esperança a repartir por dois...
Hoje... hoje é tão boa a nossa intimidade
que é bastante viver, - e a própria realidade
não nos deixa pensar no que virá depois...
 
Ontem, - fiz do meu verso uma arma de conquista,
e teci confidências  preludiando o amor...
Hoje, (perdoa se o homem sobrepuja o artista!)
- quando em tua nudez, surge bela  e imprevista,
minha alma em minhas mãos tem ânsias de escultor,
 
Vivamos!... E prometo então para mais tarde
mil versos, (sabes bem que um dia hei de faze-los...)
- agora, basta o amor que nos empolga e que arde,
basta que te deseje e te ame sem alarde
a mergulhar na sombra o rosto em teus cabelos!
 
Mais tarde, sim, mais tarde, - hás de tê-los, querida,
ressonâncias de amor, versos puros e francos,
- cantos de ave ao sol-poente, - última ária da vida,
quando a noite cerrar meus olhos, comovida
e o luar tingir de prata os teus cabelos brancos!...
 
 - Agora, não... Agora a vida é bela, é louca,
 nos sentidos em festa e em sons primaveris:
- é o beijo que procuro e mordo em tua boca!
- é a sombra que se vai... é a noite curta e pouca...
(são tão curtas as noites quando se é feliz!...)
 
Sou  assim, - quando vivo não escrevo, - vivo!
E não brotam  meus versos de desejos vãos...
Se tenho em minhas mãos teu corpo cativo,
É inútil insistir meu pensamento é esquivo
Só tu existes, tu! e a ânsia das minhas mãos...
 
Ontem, dava-te versos, versos que relias
com um estranho langor nos olhos extasiados...
Hoje, - encho de beijos tuas mãos vazias,
- e esquecidos do tempo, vão rolando os dias...
e as noites vão rolando em teus olhos cerrados!
 
 Hoje é que percebi num segundo de sonho:
- já não faço mais versos sobre o nosso amor...
Mas, que importa? - se vejo o teu olhar risonho...
- Os versos que em silencio em teu corpo componho
São os mais belos talvez que faço em teu louvor! ...
 

Em tom de prece
 
Vinde a mim, oh! mulheres belas, oh! mulheres puras,
[oh! mulheres perfeitas
que sereis as supremas eleitas
da minha aflição,
- vinde a mim, que eu cansei de pervagar nas ruas,
e trago o olhar entediado de mulheres nuas
que não sei de onde vêm
nem sei para onde vão...

Vinde a mim, - dessedentai com a água clara e milagrosa
da fonte dos vossos beijos,
meus lábios bêbedos, envenenados
de pecados
e vinhos
que encontraram nas poças dos desejos
à margem dos caminhos...

Trazei aos meus lábios a água boa, a água fresca, a água purificante
do cântaro de barro dos vossos lábios vermelhos,
e deixai que à sombra das vossas mãos, com a cabeça no pouso
dos vossos joelhos
por um instante,
eu possa compreender a vossa linguagem acariciante
e os vossos conselhos...                                                 

Deixai que eu repouse, que eu durma, que eu descanse
à sombra das vossas mãos,
ao cuidado dos vossos desvelos,
- e oferecei à minha alma um pouco de romance,
- o céu dos vossos olhos...                                                  
- e a noite dos vossos cabelos...

Deixai que eu repouse, que eu descanse, que eu viva um segundo ao menos
liberto dessas angústias e de desejos malsãos
em vossos braços serenos
e em paz...
- deixai que eu adormeça em vossos corpos, à carícia das vossas mãos
 e não desperte mais...
 

Encontrar-te

Encontrar-te
eu, já humano demais, órfão de qualquer sonho,
tu, ainda pura e feliz sem veres o perigo
a que te expões, a que te exponho...

Encontrar-te
e de repente compreender
que devo continuar como se na realidade
nada tivesse havido,
e tu, deves seguir, - que importa se ao meu lado?
considerando-me um desconhecido...

Que pena vermos frustrado assim, irremediavelmente,
um grande amor,
sem podermos levar dessa emoção proibida
qualquer cousa vivida
mesmo um pouco de dor!
 

Espera...

Se tivesse mandado uma palavra: - “espera!”
Sem mais nada, nem mesmo explicar até quando,
eu teria ficado até hoje esperando...
- era a eterna ilusão de que fosses sincera...

Que importa a vida, o Sol, a primavera,
se eras a vida, o Sol, a flor desabrochando?
Se tivesses mandado uma palavra: - “espera!”
eu teria ficado até hoje esperando...

Não mandaste, tu nada disseste, e eu segui
sem saber que fazer da vida que era tua
procurando com o mundo esquecer-me de ti...

E afinal o destino, irônico e mordaz,
ontem, fez-me cruzar com o teu olhar na rua,
ouvir dizer-te: - “espera!...” E ser tarde demais...
 

Esperança

Morre o sol, - quando sobre o verde travesseiro
das montanhas além, retintas no seu sangue,
pende a cabeça, tonto, num delíquio, exangue,
como quem chega enfim ao sono derradeiro...

Morre o rio no mar. E o pássaro ligeiro
ao despencar no espaço,- e a flor, num gesto langue
ao se despetalar aos poucos num canteiro
ou a manchar curvada as pétalas num mangue!
que muita vez soltava sem querer

Morre o passado em sombras, longe, na lembrança,
- a saudade de alguém que ainda hoje se ama
e às vezes morre mesmo um verdadeiro amor...

Só não morre a esperança, enfim, porque a esperança
na brasa onde expirou a derradeira chama
ainda vive... ainda vive e espera!... ainda é calor!
 

Esperança (para o amor)

Ainda resta afinal intacto o coração
e puro o sonho que como a flor singular e misteriosa
fizeste nascer da pedra lisa.

E ainda podemos como os marinheiros nos mirantes
colocar a mão sobre os olhos para atingir a distancia maior
dos horizontes.

Quando há coração e há caminhos
ainda resta a esperança para o amor.


Esperar...

Quanta gente há que sofre o mal sem cura
de uma infinita e vã desesperança,
condenada a viver só da lembrança
sem direito a esperar qualquer ventura!

E eu a chamar de angústia e de amargura
esta minha saudade ingênua e mansa
que faz com que me sinta um pouco criança ,
só porque a espero com maior ternura!

E eu a dizer que a minha vida é má
Feliz é quem espera um bem que alcança
e eu sou feliz porque ela voltará...

Voltará - pressurosa e comovida -
Ah! poder esperar tendo esperança
é a mais doce esperança desta vida!
 

Espiritualidade

É no sonho que o amor engrandece o seu mundo
para morrer depois nos sentidos exausto...
Nasce, como o de Comte e Clotilde, profundo,
morre, feito desejo, na expressão de um Fausto!

Mais sublime talvez, talvez menos fecundo
antes da posse, é apenas perfume... luz... hausto...
- até que atinge o instante imortal de um segundo
em que a ele ofertamos tudo em holocausto!

O que possui de grande, esplêndido, complexo,
está, nessa afeição mais do homem que da fera,
mais do Ser propriamente que do próprio sexo...

Está mais na visão do que se imaginou
- e é por isso que o amor maior é o que se espera,
e eterno, é o que se espera... e nunca o que chegou!...


Estória antiga

Vendo-a, fico a pensar que entre nós, certo dia...
Mas, para que falar desse tempo feliz?
Eu a quis – nem eu sei dizer como a queria!
Ela – Quem poderá dizer quanto me quis?!

Foi romance talvez, foi talvez fantasia,
vida que quase chega, e foge, por um triz...
Nosso amor, mas nem eu me lembro o que dizia!
Quem há de se lembrar do que a sonhar se diz!

Era um misto de sonho e tímido desejo:
eu – temendo manchar uma afeição tão bela!
ela – a entregar-me a vida e a boca num só beijo!

Ah! a Vida... Afinal quem a vida adivinha?
Nem eu – que tanto a quis – sei por que não sou dela!
nem ela, há de saber por que nunca foi minha!
 

Estranho destino...

Ficará ressoando indefinidamente
no bronze de tua carne moça de adolescente
essa música infinita
que ainda às vezes escuto, e ainda às vezes me agita
na lembrança das horas distanciadas. . .

Eu fui no bronze vivo de teu corpo, o primeiro
som!
- o toque matinal e alvissareiro
das primeiras badaladas!

Que a tua carne morena, esplêndida e tropical
trouxe o estranho destino
musical
de um sino!


Estranho remorso...
   
Às vezes, quando escrevo feliz uma poesia,
me assalta um estranho remorso, incompreensível
que não sei de onde vem:
“Quem sabe? pode ser que esse meu canto de alegria
faça mal a alguém...”

Meu irmão triste, meu irmão doente,
perdoem-me a cantiga frívola e contente,
que me fugiu dos lábios na manhã alvissareira
de verão
Ela brotou sem querer da minha felicidade!
- é  que eu trago uma cigarra cantadeira
e imprudente
dentro do coração!

Não é por mal, não é por mal...

Quem pode condenar a alegria da cigarra
em seu sonho
estival?
- a estridular distraída e tagarela
e a dizer que a vida é bela,
- na árvore verde que há no pátio tristonho
do hospital?


Estudo N°. 1
(escafandrista)

Me visto com as palavras
como o escafandrista
para descer ao fundo das coisas
e penetrar o mistério onde me encontro

Mas quem traduzirá a visão dos olhos,
se à luz do sol, na fixação, tudo se perde,
e a verdade absoluta continua submersa?

Cada poema é uma descida ao fundo do oceano:
repentina revelação de algas e peixes
de luz e formas
que a superfície não entremostra.

Ó louco escafandrista,
em vão devassarás as profundezas do oceano,
trazes apenas à tona as tuas narrações - vãs palavras
das expedições ao teu canto!
 

Estudo N°. 2
(a semente)

Plantei-te em meu coração
e  ele consumiu-se inteiro como a semente
e transformou-se em haste, em ramo, em flor...

Consumiu-se inteiro pela glória
humilde de ser seiva
e alimentar este amor.
 

Estudo N°. 3
(caminhos diversos)

Quanto mais ando, mais me afasto de mim mesmo...

Seguimos por caminhos inteiramente diversos
e não sei qual de nós tem sido mais pesado ao outro
carregar...

Talvez que ainda me perca de vista,
e me livre deste canto, entoado em hora imprópria
para a surdez do mundo

e que me comove como a uma  criança.


Estudo N°. 4
(Sem saída)

Por que sonhar com verdes horizontes,
ou árvores assustadas
em fuga pelas montanhas
se é impossível sair

Diante de meus olhos, os altos paredões de concreto
apertam meu coração inocente a cumprir uma pena
por um crime ignorado

E uma surda revolta se debate, como um pássaro
sem vôo.
 

Eterno motivo

Não me envergonho nunca de falar de amor !
..............................

Terá vergonha a fonte em murmúrios de festa,
águas claras rolando dentro da floresta
de embalar a flor?
 
Terá vergonha o pássaro inquieto, sozinho,
de um dia cantar mais, (como todos cantamos...)
- e tecer com gravetos de palha o seu ninho
na altura dos ramos?

Terá vergonha a terra de acordar cheirosa
e inteirinha vibrar ao despontar do dia,
oferecendo ao sol sua boca macia
naquela rosa?

Terá vergonha o mar de acariciar a areia
e oferecer-lhe conchas ao invés de anéis?
E dizer-lhe canções, em que todo se enleia
aos seus pés?

Terá vergonha a noite, que de astros se encheu,
ao pôr o seu vestido imensamente azul
para um baile de luz,
de ostentar o presente que o tempo lhe deu.
o “pendentif” em cruz
do Cruzeiro do Sul?
..........................

Por que razão, portanto, - Ele, o predestinado,
que nasceu para amar com grandeza e esplendor
e trouxe um coração de poeta enamorado
há de sentir pudor?

Eu, por mim, sou feliz, porque amo e sou amado!
Nem me envergonho nunca de falar de amor!
 

Eu sei que era

Não, não eram teus olhos, que eles estavam cerrados
e embriagados
de misterioso vinho;
nem eram tuas mãos, que elas tateavam
tontas de carinho;
nem era a tua vontade, que havias perdido de ti mesma,
e não encontrarias o caminho....

Eram teus lábios sim, e a tua voz que ainda lutava
com ternura,
num débil balbucio sem alento:

- “Meu amor, é loucura!...”

...........................

Eu sei que era! Eu sei que era!
Louco também é o sol, a noite, o mar, o vento!
os pássaros, a terra, o céu, a primavera!


Exaltação do amor

Sofro, bem sei...Mas se preciso for
sofrer mais, mal maior, extraordinário,
sofrerei tudo o quanto necessário
para a estrela alcançar...colher a flor...

Que seja imenso o sofrimento, e vário!
Que eu tenha que lutar com força e ardor!
Como um louco talvez, ou um visionário
hei de alcançar o amor...com o meu Amor!

Nada me impedirá que seja meu
se é fogo que em meu peito se acendeu
e lavra, e cresce, e me consome o Ser...

Deus o pôs...Ninguém mais há de dispor!
Se êsse amor não puder ser meu viver
há de ser meu para eu morrer de Amor!


Fantasia nº 4

Às margens das águas turvas a barrentas
há garças em fila,
de longas plumagens brancas a alvacentas
numa atitude heráldica e tranqüila
e num ar meditativo a longínquo
de sonho,
- diante da correnteza morosa, esquecida,
parecem brancas a puras imagens de sonhos
refletidas nas águas dos rios turvos a impuros
da vida...

Outras vezes, na agonia lenta a dolorosa
das saudades que ficam na minha alma
sofrendo vividas magoas,
indeléveis como nos caminhos molhados
e rastro dos pés,
- a minha vida inteira se abre em flores roxas
esplêndidas a belas,
- (que as saudades na minha vida
sejam elas
de sonhos, de desejos, de risos ou de mágoas
são belas
e escandalosas,
como as flores roxas e formosas
dos murares...)

Dos murares
flutuando sobre as verdes pupilas
intranqüilas
dos igarapés...
 

Fantasia nº 6

Não me digam quem eu sou
nem tentem encontrar a expressão e o valor
da minha alma multicor
numa álgebra mesquinha!
Odeio, e sempre odiei qualquer definição...
Plasmo imagens de terra a de luz para a minha
distração,
e falo sempre das cousas no esperanto dos símbolos,
porque a vida maior nem sempre é essa que a gente
pode tocar com a mão!

O meu verso há de ser claro e puro
diáfano como a manhã,
sonoramente cristalino como as notas
da flauta de Pã...
E a vida que neles pulsa, canta a estua
nem vestirei com a minha fantasia
pela gloria de enfim ver a beleza nua,
no templo da Poesia!

Sem pautas, sem notas, componho os meus versos
quando me encontro a sós,
quando falo da vida...e me esqueço do mundo
a escutar essa fonte que canta no fundo
de todos nós...

Essa fonte que às vezes canta
às vezes ri
às vezes chora
e que no seu estranho simbolismo
parece aquela fonte que rola distante
no fundo do abismo,
(que a gente sabe que existe porque lhe ouve a voz
da água inquieta a canora)
mas não se sabe aonde vai
nem ninguém sabe onde mora!

Fonte oculta, extraordinária
que ri, que canta a soluça
na minha inspiração,
e onde não poucas vezes, temerária
minha alma se debruça
visionaria,
se debruça a procurá-la
e em vão!
 

Fuga e passional

Deixa que eu procure noutras o que só há em ti
para que te ame mais ainda
e para que te sintas mais amada...
Deixa que encontre tua ausência no corpo de outras  mulheres

Oh! minha doce madona idolatrada...

Bem sabes que fujo em vão! não queiras impedir
minhas fugas inúteis
se hei de soltar de novo e sempre ao teu amor...

Por que infundados receios se as outras não poderão me ofertar
o que só há em ti
em teu corpo, em teus olhos, em teus braços ...
- se as outras não possuem as emoções do nosso encontro
e o nosso passado, e as nossas ânsias, e os nossos projetos,
nem as carícias e os beijos
dos nossos instantes mais secretos...

Bem sabes que voltarei!... Que eu morreria de tristeza
se te perdesse
se soubesse que não me esperavas e que já não existias,
- se o porto da tua vida, do mapa de meu destino
desaparecesse...

Bem sabes que voltarei!...  A certeza de que não te encontrarei nunca
em outras mulheres
há de fazer com que volte sempre de toda viagem,
como o navio cansado de roteiros estranhos
alegre ao ver a amiga e insubstituível
paisagem...

Não tentes impedir minha partida, que eu recearia mesmo
ser impossível,
na imobilidade das águas, se encheria de algas o casco do veleiro
e suas velas morreriam de uma tristeza invencível,
de um profundo torpor...

Não tentes impedir que eu vá, que eu morreria
com o nosso amor...
 

Harpa submersa

Este retardatário gosto de pureza,
que me vem à boca do fundo coração,
não sei se é tédio ou o sinal de alvoradas renascentes.

Na areia branca onde a onda tenta apagar
vestígios de pés e levar todas as conchas,
me deixo à espera de outra vagas carregadas de conchas
ou de passos que tatuem novas marcas
na epiderme do coração.

Pobre coração marinheiro, tão marcado,
de que canto obscuro desenterras imprevistamente
esta harpa cheia de algas e de sons submersos?


Imprevidência

Vamos seguindo assim, desprevenidamente
a brincar com  o Destino... e a pensar que brincamos...
quando, na realidade, ele brinca com a gente,
e trama qualquer coisa que não suspeitamos...

Julgamos dominá-lo... e, que somos? - dois ramos
arrastado por ele ao sabor da corrente...
Bem que percebemos quando nos amamos
mas teimamos, seguindo assim, inutilmente...

Prolongamos em vão um traiçoeiro dilema:
- ou tu te entregarás um dia, com ternura,
ou teremos criado um eterno problema...

Fora disto, há o recuo, bem sei... Mas assim
- tua vida há de ser um remorso sem cura!
- minha vida há de ser uma angústia sem fim!


Improviso nº 3

Os poetas são os eternos marinheiro
que do alto dos mastros
sondando os horizontes,
descobrem, antes que todos, os sinais primeiros
dos mundo novos:

pelas aves do céu, a posição dos astros,
pela cor dos oceanos,
- profetizam na vida os destinos humanos
- antevêem na história o destino dos povos!

Também tenho o meu posto e o meu lugar
no alto do mastro, de onde sonho os sem-fins
do mar...
E cada vez que componho um novo poema
e a vibrar termino,
é como se avistasse, ao longe, a despontar
o ponto pequenino
- da coma verde de uma ilha que o azul descerra!

E grito então lá do alto, para o meu Destino:
- Terra! Terra!


Incompreensão

Há dias em que a gente acorda assim, doente
irremediavelmente...
de um incurável mal...
- há dias em que a gente acorda assim, poeta
a alma romântica, inquieta,
sentimental.
...........................

Tu... pobre homem que ris disto que escrevo e digo
que escarneces de mim e irônico me olhaste...

Tens direito de rir... e afinal te bendigo:
- porque nunca acordaste...
 

Incontentável

Quando eu parti, ela chorou, e eu disse
tendo-a entre os braços a enxugar-lhe o pranto:

- “Voltarei logo, meu amor, portanto
não chores, que chorar é uma tolice...”

- “Voltarás?...”, perguntou-me. E o seu espanto
quase fez afinal com que me risse.

- “ E não hei de voltar, se te amo tanto
e se te quero assim com tal meiguice ?”
.................................

E eu que ia me afastar por alguns meses,
fiquei dois dias só. Depois que vim,

ela diz e repete – quantas vezes! –
como quem desabafa imensa dor:

- “Enfim juntos de novo, os dois, enfim!
Mas demoraste tanto meu amor!”


Indiscrição...

Tu me perguntas porque escrevo poemas
e estas cousas que dizes que te encantam
tu quiseste saber
como posso fazê-las...

Acaso já indagaste aos rios por que correm
às ondas por que espumam,
e ao céu por que possui tantas estrelas?
 

Instantâneo nº 1

Há por certo inconstância, maldade, ironia,
no destino que um dia cruza duas vidas
e alheio a uma tragédia imensa:

- põe numa, um grande amor,
e noutra, a indiferença!
 

Instantâneo nº 2

Eu vi a asa da borboleta que morreu
rolando ao vento, no chão,
num destino tristonho...

Naquela asa, fina leve, multicor,
coo um minúsculo vitral,
via a imagem do sonho...
 

L'apès-midi d'um Faune...

Só agora o vejo:
- o maior crime do nosso amor
foi matar nosso desejo...

Hoje, a antiga emoção, arrebatada e profana
é um suave e sagrado sentimento...
Onde o erotismo daqueles loucos instantes
de paixão humana
e de arrebatamento?

Teu corpo é a curva suave de uma enseada
onde as minhas carícias, vagas mansas
vão ficar perdidas...

Oh! As saudades do mar revolto
e das penhas atrevidas!


Lembranças

Me lembro das emoções que experimentei então.
Dos ciúmes do teu decote, das exigências do teu cabelo,
do excessivo rubor de tuas unhas
que tanto me preocupavam, tão vermelhas.

Me lembro do meu domínio e do orgulho do meu domínio
pequeno César de esquina
à espera de que tivesses pronta para o baile.

Me lembro da noite toda de par constante
policiando teus olhos e teus gestos,
captando teus sorrisos em todas as direções...

Era tudo tão tolo, era tudo tão besta, meu amor,
mas que estranha poesia a vida pisou
para nunca mais.
 

Madrigal
   
Gosto de te falar de amor, do nosso amor,
retendo em minhas mãos as tuas mãos pequenas,
- quando a tarde no céu põe desmaios de cor
e há no espaço um rumor inaudível de penas ...

Gosto de conversar com os teus olhos estranhos
no silêncio feliz de intérminos idílios,
- inebria-me a luz dos teus olhos castanhos
através do “abat-jour” de seda dos teus cílios...

Gosto de te falar de amor, falar baixinho...
Tudo o que então te digo, a sós, nesses instantes,
é assim como o arrulhar amoroso de um ninho
ou o rumor de uma fonte em lugares distantes...

Gosto de te falar de amor, - sentir que aos poucos
vamos ficando tontos, sem querer, os dois...
E te ouço a me dizer que não! que somos loucos!
- e te entregas inteira em meus braços depois...

Gosto de te falar de amor, - pela expressão
de amor que há nos teus olhos quando assim te falo,
- por tudo o que teus gestos pródigos darão
na embriaguez do segundo eterno em que me calo...

Gosto de te falar de amor, - nesta certeza
de que gostas também que te fale de amor...
- És a terra que vive! - e eu sou a correnteza
que canta e que fecunda a terra e a enche de flor!


Mãos enlaçadas
   
Teus cinco dedos, entrelaçados
nos meus cinco dedos,
trocaram confidências e segredos
num doce enlevo esquecidos....
- são teus cinco sentidos
entrelaçados
nos meus cinco sentidos...

Assim, na sombra, de mãos dadas
não te sentes sozinha e eu não me sinto só...
E as nossa mãos unidas,
enlaçadas,
parecem nossas vidas
amarradas,
num nó...

nessa hora de silêncio  em que juntos ficamos,
tu, cheia de meiguice... eu, cheio de carinho,
e em que nada conversamos,
invade-me a impressão,

- de que a minha alma e a tua, bem baixinho
trocam juras de amor, trocam segredos
em teus dedos trançados nos meus dedos,
e em tua mão perdida em minha mão!


Marinha nº. 1

Desmancha os meus cabelos, como fazes
quando estamos os dois calmos e em paz,
em vazio colóquio - quando estamos
como dois barcos quietos... junto ao cais...

Quando deixamos para trás o mar,
mar de impulsos, de sonhos e desejos,
quando o teu corpo é um barco ao meu comando
sacudido de ventos e de harpejos...

Já vencemos, os dois, cantos e vagas,
na aventura das horas dionisíacas,
deslumbrados com os próprios temporais...

Desmancha agora, amor, os meus cabelos,
como fazes nas horas de bonança,
quando somos dois barcos, junto ao cais...


Marinha nº. 2

Em teus braços, sou como um barco
desarvorado,
por roteiros perdidos...

E o meu desejo é este vento
que levanta procelas
em teus sentidos...

Ah! Morrer assim
como um marinheiro,
e mergulhar, e me afogar...
... e encontrar meu destino e meu fim
em teu corpo de mar...


Marinha nº. 3

Para mim, as ruas, as longas ruas,
são negros conveses imóveis
de um navio encalhado
num estagnado porto

Eu, sou um marinheiro morto.
 

Marinha nº. 4

Quando a minha cidade levantará ferros
e seguirá pelos mares do mundo ?

Ou terei que me atirar às águas e seguir a braçadas
para as ilhas que me acenam no horizonte?
 

Marinha nº. 5

Está renascendo está ânsia, que julguei superada
como uma onda na praia,
e ela retorna como uma onda nova, encapelada
sobre o coração.

Esta ânsia de fuga sem tocata, de fuga à fatalidade
prosaica do destino
ao tiro burguês que prostrou de tocaia irremediavelmente o sonho
e que não responderá pelo delito.

Sinto que me atingiram em cheio o peito,
- neste líquido quente
ainda pulsa a vida que vem de dentro como as águas dos “geisers”
revelando o coração da terra.

Cambaleio, como bêbedo, meus olhos estão turvos
como espelhos côncavos,
Sinto que me atingiram em cheio o peito,
mas meu espirito paira nítido como a estratosfera
inalcançável às nuvens e às perturbações do mundo.

Está voltando esta ânsia, renascendo como gêmula verde de tronco abatido,
entre os destroços da queimada,
e sinto que ainda ascenderei além das nuvens,
[como o pé de feijão da história infantil,
e chegarei à asa do avião que me levara como Flash Gordon
para luas surrealistas.

Nas visões da crise nova, Hong-Kong e coqueirais do Pacifico
se misturam aos cais de Hamburgo e às ladeiras de Montparnasse,
e a morena de Hawaii dança sobre meus joelhos, enquanto minhas mãos
deslizam sobre as ancas da mulher perdida de Anvers...

As arcadas de Leandro Arlen viajam pelo mundo num tango
e ancoram num bar da Broadway, onde um japonês de MacArthur
faz um brinde a América com um trago de vodca.

Não sei onde me levará esta onda que cresce, e só desejo
que haja ainda algum penhasco submerso,
para que ao menos possa acabar como os restos de um naufrágio
dando a alguma praia sem nome.
 

Matemática da vida

Matemática esquisita
que das suas sempre faz,
ao final de nove meses
somando dois, - multiplica -
e ao invés de dois, às vezes:
- são três, são quatro, e até mais...


Menina dos olhos verdes

Ó! menina dos olhos verdes, que à tardinha
estás sempre à janela à hora de minha volta...
Que cousas pensarás? Que fazes aí sozinha?
Por que regiões de sonho a tua alma se solta?

Sempre que dobro a esquina encontro o teu olhar
e o teu claro sorriso adolescente ainda...
Habituei-me a te ver - e és tão criança e tão linda
que sem querer, também sorrio ao te encontrar...

Menina dos olhos verdes... A quem esperas
com teus olhos gritando a cor das primaveras?
Queres versos? Pois bem, estes são teus, recolhe-os!

Escrevi-os pensando em ti, tímida e bela,
- a menina dos olhos verdes da janela
debruçada à janela verde dos meus olhos!
 

Metamorfose

Depois que vi a larva informe e suja
transformar-se na linda borboleta
de asas finas
inquietas,

achei mais fácil compreender enfim
como podem nos homens
despertar os poetas...
 

Meu Mundo

Toda tarde digo para mim mesmo:
afinal, eis o meu mundo.

O mesmo beijo, o mesmo quarto claro, com seu assoalho brilhando
refletindo o meu passo;
as mesmas paredes brancas me envolvendo com afáveis gestos de paz;
o mesmo rádio silencioso, entre livros empilhados, a mesma estante fechada
que a um gesto meu descobre tesouros como velha mala de pirata.

Afinal, eis o meu mundo.
A mesma insubstitutível companhia, a mesma presença
[até quando longe dos olhos,
a mesma voz perguntando, a mesma voz respondendo,
o mesmo odor suave da janta, do tempero cozinhando,
a mesma impressão de quem chega de ombros nus e veste ajudado
um macio agasalho.

Afinal, eis o meu mundo.
Como o pássaro do dilúvio, diante do primeiro ramo:
- afinal, eis a terra!
 

Música
   
Silêncio... Solidão... - sinto pelo ar que existe
em surdina, no céu, tempestuoso e cinzento,
- um ritmo... um compasso... um solo muito lento...
de uma obra de Chopin... nervosamente triste...

Repentinos clarões !... Lá pelo espaço se ouvem
entre a voz dos trovões e os sons das ventanias,
os brados de aflição... de estranhas sinfonias
lembrando a orquestração da “nona” de Beethoven...

Há música nos céus... Há música em minha alma...
Ficou na natureza um Liszt interpretando
a rapsódia de amor que enche a noite de calma...

Já não há no infinito as tormentas e o caos...
- O azul, traz de Mozart o tom sereno e brando,
e o arvoredo cicia as músicas de Strauss!...


Namorados

Um ao lado do outro, - assim juntinhos,
mãos enlaçadas num enlevo infindo,
- seguem... a imaginar que estão seguindo
o mais suave de todos os caminhos...

Com gravetos de sonho vão construindo
na terra, como no ar os passarinhos,
a esplêndida ilusão de um mundo lindo,
entre beijos, sorrisos e carinhos...

Nada tolda os seus olhos... Nem um véu...
Andam sem ver os lados, vendo o fim
e o fim que vêem é o azul do céu...

Ah! se a gente, - tal como namorados,
pudesse eternamente andar assim
pela vida a sonhar de braços dados!..


Naquele Dia...

Não devia
ter-te encontrado em meu caminho
naquele dia...

Naquele dia
teriam gosto amargo os teus beijos mais doces
e por mais sincera e humana que tu fosses
no teu amor por mim,
havia de ferir-te com meu orgulho mordaz...

Perdoa, meu amor, naquele dia
todas as mulheres para mim
eram iguais...
 

Navio morto

Depois que tu partiste, no silêncio das horas inúteis
na minha vida quieta como as águas dentro dos diques
eu sou o vulto de um navio morto...
Não mais viajarei, nem jogarei amarras,
e as âncoras que lancei aos mares como garras
morrerão enterradas no fundo de um porto...

Não mais a vertigem das viagens, o deslumbramento
dos poentes incendiando os horizontes,
gaivotas bêbedas de espaço em sinuosos volteios
sobre o mar,
- Mar de teu corpo, gaivotas de carícias
que eram minhas mãos,
horizontes de abraços infinitos,
poentes do teu olhar...

Não mais os ventos nos conveses, a salsugem do oceano
largo, dilatando as narinas,
o balanço das ondas, o rumor das águas, orquestral,
e a revelação das noites em seus mistérios de luz...
- ventos do teu desejo, salsuagem de teu beijo salgado,
sensual,
balanços do teu corpo, revelação de teus seios que foram mistérios
e despontavam nus...

Meus braços estão vazios, hirtos, e tristes
como estão hirtos e tristes no navio abandonado
os varais dos seus mastros...
E as minhas mãos outrora inquietas, cheias de ânsias,
já não acenam para as tuas, nas partidas e nas chegadas,
como bandeiras aos astros...

Bandeiras que vão ficar para sempre guardadas
e nunca mais hão de soltar-se no ar,
se não mais voltarei aos teus braços,
enseada
onde a bandeira de teu lenço
estava sempre a acenar...

Dentro dos meus olhos vagam fantasmas de sonhos
pervagam pelos conveses lembranças descarnadas
de memórias e fatos,
- ali! pobre navio abandonado!
a saudade é a ferrugem que o destrói, e as águas
vão minando os porões onde ouve as próprias mágoas
na algazarra dos ratos...

Longe de ti, me sinto assim como esse fantástico navio,
o olhar oleoso e frio
como as águas nas docas junto ao cais,
- surdos apitos de angústia me chamam dentro da noite,
e o vento que ontem venci, se vinga... e ao seu açoite
os mastros se vergam mais...

Nunca mais vibrarei à alegria das partidas
nem nunca mais com os olhos saturados de imagens
poderei voltar...
Hoje, já não sou mais do que um navio morto,
sem itinerário e sem porto...
- uma sombra, ancorada, a tremer sobre o mar..


Nós

Afinal o que sinto
é o sofrimento atroz
de muito tarde descobrir que nunca falaremos
em nós...

Eu, serei eu, tu, serás tu,
e eternamente assim
nem nunca me terás como queres que eu seja
nem serás como eu quero que sejas pra mim...

Muito tarde... muito tarde...
- depois que assim te quero, e preciso de ti
como os pulmões precisam de ar
ou os olhos de luz,
é que vou descobrir que se ficarmos juntos,
eu poderia te odiar, tu poderias me odiar!
- Quem diria ao final, ao que o amor se reduz?!

Estraguei a tua vida e desgraçaste a minha
e fomos acordar, os dois, tarde demais...
Agora, eu sigo só,
tu, seguirás sozinha,
eu, fugindo; covarde!... a este amor que me espinha!
tu, querendo, - medrosa!... inutilmente a paz!

E o que é estranho afinal, é que nos amamos,
e sentimos no entanto que nos separamos,
cada um com a sua sombra dolorosa
a sós...
- conformados, na dor cruel, nos convencemos,
de que nunca na vida, eu e tu... seremos
nós...
 

Noturno nº 3

Sobre o teclado negro das montanhas
onde o sol, num incêndio de gazes e sombras
delira, em agonia,
uma palmeira pianista
com as longas palmas de seus dedos longos
de artista,
toca uma ave-maria...
 

Noturno nº 4

Ah! só os meus ouvidos ouvem!
Cada estrela é uma nota nítida vibrando
como um toque de cristal,
na sinfonia azul da noite tropical
que superou Bethoven!


O Lago

É um lago azul, tranqüilo, pequenino,
sereno, cristalino,
bem ao pé da montanha distante, onde o vês...
Da sua superfície sempre calma
nada perturba a suave placidez

De súbito, uma pedra vem rolando
e sobre as águas cai...

Uma onda, uma outra mais se vão formando
e em círculos concêntricos crescendo, aumentando,
chegam até as bordas, e a primeira
transborda... e sai...

a alma da gente é assim, é como um lago
bem ao pé da montanha do destino,
com a sua superfície transparente...

Vem a pedra rolando e a água perturba,
os círculos se vão formando, vão crescendo,
e de repente,
as lágrimas transbordam uma a uma
pelos olhos da gente.
 

O sonho

I
Um nosso irmão, suave pessimista,
já nos aconselhou serenamente:
- não sonhes mais, ó imprudente artista!
ninguém sonha na vida impunemente...

O sonho é a eterna flor adolescente
que o gesto nao alcança e não conquista,
e a maldade do mundo, irreverente,
desfolha sem piedade à nossa vista...

As vezes, estes sonhos que sonhamos,
podem chegar a ser frutos nos ramos,
e uma nova alegria nos trairá...

O pólen venenoso que fecunda
a flor, faz com que dela seja oriunda
a fruta que por dentro podre esta!


II
Mas sonhamos, no entanto... sem ouvidos
à experiência cruel do irmão mais velho,
e imprevidentes, loucos, esquecidos,
nem damos atenção ao seu conselho...

Vamos sonhando, sonhos coloridos:
amarelo, violeta, azul, vermelho...
- sem querer nos mirar no turvo espelho
dos sonhos, hoje brancos, já perdidos...

Vamos sonhando sempre novos sonhos
que fazem bem ao coração da gente;
sonhar, só pelo sonho... nada mais...

Mesmo a saber que os frutos são medonhos
vamos plantando indiferentemente
que o sonho é o mal que maior bem nos faz!


III
Mas seguimos sonhando... sem ouvidos
à experiência cruel do irmão mais velho,
e imprevidentes, loucos , esquecidos,
nem damos atenção ao seu conselho...

Vamos sonhando, sonhos coloridos:
amarelo, violeta, azul, vermelho...
- sem querer mirar no turvo espelho
dos sonhos, hoje brancos, já perdidos...

Vamos sonhando sempre novos sonhos
que fazem bem ao coração da gente;
sonhar, só pelo sonho... nada mais...

Mesmo a saber que os frutos são medonhos
vamos plantando indiferentemente
que o sonho é o mal que maior bem nos faz.
 

Oh! Não será isto a alegria?

Numa hora calma, sentar-se a sós, tomar um livro de páginas fechadas
cujo conteúdo pressentimos, pelo autor, nosso velho conhecido,
e abrirmos página por página, levantando aqui e ali
sem nos contermos, curiosos, uma palavra, como um
véu sobre a beleza ignorada, a beleza que desponta, como o sol que irradia.

Oh! não será isto a alegria?

Receber uma carta, uma carta simples, de uma desconhecida
num, domingo de manhã, e antes do jornal, abri-la conjecturando,
e encontrar uma alma irmã, ardente e solitária
que nos faz confidências e amplia nossos limites
numa imprevista harmonia.

Oh! não será isto a alegria?

Esperar alguma noite, um amigo que não perturbará a nossa intimidade
que beberá conosco o mesmo ouvirá a mesma música
cuja cadeira o destino colocou ao nosso lado na mesma mesa do passado
com quem partilharemos nossos planos e nossas esperanças
e a quem gostaríamos de chamar de irmão
numa hora de Paz ou de agonia...

Oh! não será isto a alegria?

Despertar sobressaltado, voltar o rosto e encontrar
ao seu lado, sereno e confiante, o rosto da companheira que dorme,
pousar nossa mão sobre a sua, e adormecer sem remorsos
numa profunda poesia..

Oh! não será isto a alegria?

Trazer o corpo vencido, os nervos doídos, exaustos,
e aberta a porta, encontrar as coisas nos mesmos lugares:
nossa cama, a nossa mesa, os nossos livros, a nossa companheira,
do no mesmo lugar, em paz, fielmente à nossa espera
todo dia...

Oh! não será isto a alegria?

Manhã clara de primavera, calção de banho, o sol no peito,

sem dívidas e pecados, invejas ou remorsos,
encher de ar os pulmões diante da praia iluminada,
e atirarmo-nos de encontro às ondas e nadar contra o horizonte
de um novo dia...

Oh! não será isto a alegria?
 

Oráculo

Sinto que vens de longe, através das eras,
para um mundo profano, esquecido das olímpicas
belezas,
das mediterrâneas primaveras
e das perfeições supremas...

Eu sabia que vinhas, e por isso eu te esperava ...

Ressuscitarei em teu corpo a alma perdida e escrava,
e ao milagre da ressurreição,
vibrarão teus ouvidos com a música dos meus poemas
e os teus olhos com a fantasia da minha imaginação!

Despertarei em tua carne todos os gestos adormecidos
e ressoarão novamente em teus sentidos
acordes imortais de outros hinos de amor...

Soprarei a luz nas tuas órbitas frias e inanimadas
que não viram a marcha dos tempos,
e na superfície de cristal de tua beleza serena
acordarei repuxos de líquidos corpos
transparentes,
e mergulharei nas profundezas as minhas mãos nervosas
-as minhas mãos ardentes...

Depois... eu turvarei a pureza sem mácula
da tua alma presa
e adormecida,
trazendo-te do fundo de ti mesma, e entregando-te surpresa
a própria Vida ...

Libertarei o teu corpo feito de ritmos elementares
para a suprema celebração desse milagre criador...
E dos teus esponsais com o Poeta,
renascerão em tuas formas
todas as estátuas gregas,
e de teu ventre virá a luz que há de perpetuar a beleza
na imagem de um novo deus, filho do nosso amor!
 

Oração de Graça

Não, eu não invejo ninguém... eu tenho tudo Senhor!
Na manhã cheia de sol eu me sinto feliz
como os pássaros que abandonam o mistério dos ninhos
e são notas de música na pauta dos caminhos

Eu dormi bem, Senhor. como as crianças e os justos,
muito embora eu já tenha sofrido
e já tenha pecado.
- fechei os olhos com as estrelas! e abri-os quando o sol
saltou o muro verde das montanhas
e libertou-se pelo descampado!

Acordei com a madrugada dealbando
e as aves tagarela,
- e ao abrir os meus olhos, já encontrei me espiando
os dois olhos quadrados das janela

Não, eu não invejo ninguém... Eu tenho livres e fortes
os braços, as pernas e o coração...
- E estão limpos os meus olhos
e a minha alma é sadia,
- e posso sentir a força dos meus músculos
com um orgulho viril e uma ingênua alegria!

Abro os braços e respiro fundo, como quem sente
e saboreia lentamente
um sorvo puro de ar!
E penso então para mim, intimamente:
- que bom, numa manhã de sol assim, a gente
respirar!

Canta o ar nos pulmões que vibram como sinos
brônzeos, sincopados,
num misterioso som,
e eu repito comigo numa alegria cheia de prazeres
incalculados:
- que bom a gente respirar! que bom!

Que bom sentir no sangue os ímpetos da vida
e nos olhos a luz que dos céus se irradia,
como se abríssemos pela primeira vez os olhos
para o primeiro dia!

Sentir-se humano, e amar as coisas simples
encontrando-se de repente livre e puro
depois de tanto tempo cativo,
a repetir tal como eu, atordoado com a própria descoberta:
- eu amo! eu vivo

Não, eu não invejo ninguém... e quero dizer ao mundo
por que me sinto feliz...
Há tanta gente como eu que está vivendo
e segue se maldizendo
sem saber o que diz...

Eu tenho tudo, Senhor... Eu tenho tudo, Senhor...

Posso vestir-me e sair, deambular pelas ruas;
olhar as casas, ouvir os pássaros, acompanhar os navios
partindo
e chegando;
ou sentar-me no banco dos jardins, sob a sombra ainda fria
das árvores
para sentir-me criança outra vez, na alegria
da criança sorrindo
e brincando...

Sentar-me no banco das praças, junto aos lagos e às ermas
dos poetas,
a olhar os repuxos bailarinos
esquecido do tempo e sem saber quem sou eu...
- para reler aqueles versos claros e divinos
que um dia. Raul de Leoni escreveu...

E posso debruçar-me nas amuradas a observar
as gaivotas que mergulham,
os ônibus que correm,
ou os reflexos do sol liqüefeito no mar...

E posso ir às praias encontrar-me com as ondas,
meter os pés descalços nas areias úmida,
correr como um menino
ou como o vento!
- e escalar as montanhas, e fugir pelas estradas
sem saber por muito tempo qual o próprio destino
do meu pensamento!

E posso entrar nos “cafés”, e deixar-me ficar
para ver todo mundo que passa nas ruas;
e admirar as vitrinas
e desejar as mulheres!
- tudo isso eu posso fazer!
E posso amar, e posso pensar, e posso escrever!

Não, eu não invejo ninguém... Eu tenho tudo. Senhor!

As ruas, as praças, os jardins, os caminhos,
as árvores, o mar, a alegria das crianças,
o ar com que encho os pulmões...
E o ruído das ondas, e o sussurro das folhas, e a música das água.
e as cores, e os perfumes, e as formas, e os sons!

Eu tenho tudo. Senhor!... Eu tenho tudo. Senhor!

Tenho demais talvez, porque ainda trago um coração
que compreende a grandeza
dessa graça,
e a infinita beleza
desse amor!...

- Obrigado, Senhor!...


Otimismos

Falas só por falar, não que a vida te doa,
não que o mundo te faça desejar um fim.
Quanta gente acharia a tua vida boa
e quantos sonhariam ter um mundo assim...

Tens mais que um rei - que importa se não tens coroa?
Tens teu lar, teu trabalho, e crianças no jardim...
Não andes por aí te maldizendo à toa,
nem a vida e tão má... nem o mundo é tão ruim...

Falas só por falar... Pensa, a ficarás mudo
ao ver que te pertencem os maiores bens
do mundo, e que afinal a tua vida, é tua!

Basta olhar ao redor, tomar posse de tudo!
Ninguém, por mais que tenha, há de ter o que tens;
se tudo é teu: - o céu, o mar, a praia, a rua!


Palavras

Ah! como me parece inútil tudo quando
sobre nós tenho escrito e hei de ainda compor...
não há verso que valha uma gota de pranto
nem poema que traduza um segundo de dor.

Nem palavra que exprima a singeleza e o encanto
de um pedaço do céu, de um olhar, de uma flor!
Ah! como me parece inútil tudo quanto
na vida, tenho escrito sobre o nosso amor.

Não devia existir a palavra... Devia
existir tão somente a infinita poesia
dos gestos e da luz, - que o amor do meu enlevo

quando o sinto, é profundo, indefinido e imenso,
mas se o chão tão grande quando nele penso
parece-me tão pouco se sobre ele escrevo!
 

Palavras à tua timidez ...

Antes se arrepender de um gozo já vivido
mesmo tendo custado aflição e amargura,
do que o arrependimento de se ter perdido
o que podia ser, ventura . . . ou desventura.

Antes o coração ferido e a alma cheia
de imagens a emoções, de prazeres e amores,
que um destino vazio sobre um chão de areia,
- sem arvores, sem sons, sem fontes a sem flores.

Antes essa certeza amarga, mas sentida,
esse gosto de fel que é mais doce no fundo,
que a imensa solidão de quem fugiu da Vida
e covarde impressão de quem fugiu do mundo!
..............................
Por que temer a vida pelo sofrimento?
Por que preocupações inúteis te consomem?
- O mesmo amor que dói, causa contentamento,
e que falta faria o sofrimento ao homem!

Não transformes a vida em teu próprio degredo
nem queiras perguntar o que ninguém responde.
Abre os olhos, e avança! Abre os bravos, sem medo!
É na vida que a estranha resposta se esconde.


Paradoxo

A dor que abate, e punge, e nos tortura,
que julgamos as vezes não ter cura
e o destino nos deu e nos impôs,

- é pequenina, é bem menor, e até
já não é dor talvez, dor já não é
dividida por dois!

A alegria que às vezes num segundo
nos dá desejos de abraçar o mundo
e nos põe tristes sem querer, depois,

- aumenta, cresce, e bem maior se faz,
já não é alegria é muito mais,
dividida por dois.
...........................

Estranha essa aritmética da Vida
nem parece ciência, parece arte,
compreendo a dor menor, se dividida,
não entendo, é aumentar nossa alegria
se essa mesma alegria
se reparte!
 

Paraíso perdido

Penso isto: penso que devemos fugir para nos mesmos.

Não são apenas os amigos que nos levam sem reação,
são os cinemas, os teatros, as horas que perdemos nas ruas
quando nosso quarto se fecha silencioso, sem tempo
e esperanças.

Não são apenas as horas que o trabalho me rouba
inapelavelmente, e que não me serão devolvidas.

É a nossa vida, feita sem tempo e de desencontros,
sem pausa para a criação, sem paz para o recolhimento,
sem silêncio para o pensamento, sempre ininterrupta,
passando por nós, enquanto nos deixamos ficar sem alcançá-la...

Penso isto: só a fuga para nos mesmos seria a salvação.
Conheço um amigo pintor que se encontrou em Itatiaia
e ouve o canto dos pássaros e das águas junto às Agulhas Negras.

Meu amor: sinto que vamos chegando à hora em que
devemos voltar ao Paraíso,
ou jamais o reconquistaremos.


Pássaro

Sou um pássaro sobrevivente,
o exilado da minha sensibilidade
entre o ruído estranho
de uma estranha cidade.

Moro na praça arborizada
que o trânsito poupou.

Vejo crianças brincando a pisar nos canteiros
indigentes sentando a miséria nos bancos,
chafarizes jogando serpentinas no ar,
ouço as juras de amor dos namorados
converso com as hermas dos poetas , anacrônicas.

Os homens expulsaram as matas e as florestas
e elas correram para o alto das montanhas
até encontrar as pedras.

No terreno estrumado de cimento a pedra,
os homens plantaram as sementes de uma floresta estranha:
os arranha-céus.

E eles brotaram a cresceram prodigiosamente
numa incessante ascensão,
andaimes trepando nos ombros de andaimes
no espetáculo malabarístico da civilização.

E as árvores que correm para as encostas das montanhas
assistem atônitas e assustadas,
a subida do progresso empurrando com as mãos negras do asfalto
o rolo das estradas.

E a cidade vai escalando, a pouco e pouco as montanhas,
derramando-se pelos baixios
correndo à beira das praias,
e os homens lançando novas sementes de aço dos arranha-céus
espantam as aves e as folhas.

Sobre as fitas negras, reluzentes, das ruas esticadas
como réguas no chão
a vida da cidade circula como sangue
na sístole - diástole de imenso coração.
E cada arranha-céu é um brônquio respirando
e cada homem um glóbulo em circulação!

O espaço se encheu de outros pássaros estranhos
pássaros mecânicos que não cantam
e sobre o mormaço civilizado que pesa sobre tudo
como uma olheira cansada,
cresce a zoeira da cidade, como um jazz  tocando
o prelúdio sinfônico da loucura.

Sou o pássaro sobrevivente
que mora nas árvores empoeiradas de uma praça
asfixiada pelo arranha-céu.

Entre o ruído estridente dos veículos e das buzinas
o zumbido surdo dos motores
e esse vago rumor que é a voz da cidade,
meu canto se perde...

Apesar de tudo hei de sempre existir
como as praças, as crianças, os indigentes e os namorados,
e é para eles que escrevo, e é para eles que eu canto!
 

Passionata

Não compreendes que és a deusa imortal que mora dentro do templo,
- Senhora de todos os altares e de todas as preces...

Que importa se te dizem que há outras mulheres
em minha vida?
Que importa? se elas serão sempre os degraus da escadaria
que me levarão de volta a Ti
em minha adoração?

Que importa? Se são elas que me dão a certeza
de tua divindade,
e é por elas que meço a altura em que te encontras
em minhas orações.

Não compreendes que és a Deusa imortal cuja imagem
contemplo
em meu próprio olhar...

- meu amor é o teu templo
meu coração, teu altar...
 

Pensamento

Hoje, na nossa grande felicidade luminosa
descobri em meu pensamento a única nuvem
talvez:

- “ Que pena, nunca mais poder te olhar com os olhos
da primeira vez...”
 

Piano de Bairro

Na rua sossegada onde moro, - à tardinha,
quando em sombras o céu lentamente escure,
- um piano solitário, em surdina, - parece
acompanhar ao longe a tarde que definha...

Nessa hora, em que de manso a noite se avizinha,
seus acordes pelo ar tem murmúrios de prece...
- Ah! Quem não traz como eu também, na alma sozinha,
um piano evocativo que nos entristece?

Há sempre um velho piano de bairro, esquecido
na memória da gente, - e que nas tardes mansas
sonoriza visões de outrora ao nosso ouvido.

Seus monótonos sons, seus estudos sem cor,
repetem no teclado branco das lembranças
o inconcluso prelúdio de um longínquo amor!
 

Poesia

Hoje
depois que a vi
faltou apenas a palavra necessária
para que fizesse poesia.
 

Por quê?

Por que não hei de colher a flor e o fruto
com uma só mão?

Por que sempre este duplo gesto, no destino
das coisas bipartidas, se sou um só
e se és uma somente...

Por que serás a flor, hoje serás a flor,
e hei de colher o fruto noutro corpo
que nunca foi botão?

Ah! se fosses flor e fruto, como outrora,
para que pudesse te colher como dantes
com o mesmo gesto fiel, e a mesma ânsia...
 

Prece

Bendita sejas tu em meu caminho!
Bendita sejas tu, pela coragem
com que fizeste de um amor selvagem
esse amor que se humilha ao teu carinho!

Bendita sejas, porque a tua imagem
suaviza toda angústia e todo espinho...
Já não maldigo a insipidez da viagem,
nem me sinto só, nem vou sozinho...

Bendita sejas tantas vezes quantas
são as aves no céu; e são as plantas
na terra; e são as horas de emoção

em que juntos ficamos, de mãos dadas,
como se nossas vidas irmanadas
vivessem por um mesmo coração!
 

Prelúdio da Gota d'água

Cheio da tua ausência me angustio
a cada hora que passa... a cada instante...
- pelo meu pensamento, como um fio,
és uma gota d'água, tremulante...

Uma gota suspensa e cintilante,
límpida e imóvel como um desafio...
Tua ausência, - é a presença triunfante
daquela gota que ficou no fio. . .

As outras todas, céleres, pingaram,
e caíram na terra onde secaram,
só tu ficaste, última gota, assim

como uma estrela sem ter firmamento,
suspensa ao fio do meu pensamento
e a brilhar, sem cair... dentro de mim...
 

Procura

Vou seguindo meu caminho
a procurar-me.

Estarei na estrela?  Na vaga do mar?
Atrás da montanha?  Na água que corre
estarei?

Na rua, no avião, no pássaro livre
no gesto do galho, na gota de chuva,
na rosa vermelha, no canto da criança
estarei?

Difícil é achar-me
disperso me encontro
na face das coisas
que chegam, que passam

Um olho no rio, um pé no caminho,
o sangue na aurora, as mãos pelo mar,
quem sabe onde estou?

Talvez passe junto a mim mesmo, quem sabe?
Me olho nos olhos, me toco nas mãos,
me falo e respondo
não me reconheço.

Vou seguindo meu caminho
a procurar-me.
 

Profecia

Enamorada de ti mesma,
- no espelho das águas que refletem tua beleza,-
enamorada da vida,
tu te ofereces ousadamente e te debruças distraída
sobre a correnteza...

Um dia, tuas ramagens ferirão o espelho das águas
e tudo se nublará,
teu corpo sem firmeza tombará finalmente,
e a correnteza há de te arrebatar
indiferente
e má...

Só então, quando te fores arrastada, em desvario,
vendo a terra fugir, sem poderes voltar,
sentirás como é fria a água turva do rio
e inquietante a ameaça, o mistério do mar!


Que importa se chove?

Que importa se chove?  Eu não vejo a tristeza do céu
eu vejo é a alegria da terra.

Que importa se a chuva nos espia curiosa
com seus olhos nublados, nas janelas...

Eu não vejo a tristeza do céu, eu sinto é a alegria da terra
que exulta no teu corpo,
eu vejo é o Sol que brilha nesta noite de chuva
em teu olhar...

Eu não ouço a música da chuva na noite
nem o vento a bater nas arestas das casas
- ouço é a alegria das folhagens inquietas
batendo as asas ...

Que importa se chove, e se há vento, e se há frio,
- se aqui no nosso leito há carinho e calor?

Minha alma não quer sentir a chuva,
nem olhar com tristeza os que passam na rua
ao relento,
porque minha alma se comove.

Neste momento
minha alma quer ficar é juntinho da tua...
- e ... que importa se chove?
 

Queria...

Queria que seguíssemos os dois
sempre unidos, assim,
na dor e na alegria a caminhar,
- como dois lábios que sorriem juntos,
ou dois olhos que, juntos
e só juntos,
é que podem chorar!

Queria
e entretanto, como a noite e o dia,
- quando eu chego, tu partes,
quando voltas, não posso mais te ver...
E vivemos os dois, eternamente, assim,
ou das horas tristonhas de algum poente,
ou das horas furtivas de um nascer...

Se o destino não quer, - que fazer?  - não nascendo,
para seguir os dois por um mesmo caminho,
- tu deves andar só,
eu devo andar sozinho;
nem podes me culpar.,
nem te culpo nada.,
e temos que viver avaramente assim
das migalhas de amor de cada encruzilhada...

Às vezes penso para mim,
(e aprendi a pensar desde menino)
como é estranho o destino!

Nossas vidas distantes... E no entanto outras vidas
que ansiariam talvez estar sozinhas
e caminhar a sós,
seguem juntas e presas, como linhas
amarradas por nós...
 

Rapsódia em cinza

Em meio das cidades ciclópicas,
cheias pelo denso cosmopolitismo
de gentes
de todos os mundos,
de todas as raças,
- sou como um banco vazio onde se sentam poetas
e dormem vagabundos
e indigentes,
na quietude das praças...

Sou, dentro das cidades, as praças ainda verdes
os jardins com repuxos
onde brincam nos domingos de sol as crianças,
e onde passeiam namorados,
- e é por isso talvez que ainda trago em minha alma
algum silêncio
e em meus olhos algumas esperanças
como folhas boiando em dois lagos parados!

Que os poetas, são nas cidades, nas ruas agitadas
pelo movimento,
imprensadas e sem ar
por entre os paredões do arranha-céus cinzentos,
as árvores da rua que ninguém repara
ao passar,
mas que nos dias de sol quente, escaldante,
tem as folhagens sombrias de seus ramos
nostálgicos e descontentes
fazem sombra no piso das calçadas
onde todos passamos
indiferentes...

Meus poemas, com as suas notas verdes, coloridas
- lembram talvez,
a arborização
das ruas e avenidas
e das praças mais quietas,
onde sonham meditativas hermas de poetas...
Nelas, nas horas suaves de melancolia
ao fim do dia
quando a tarde é um bocejo roxo de cansaço,
e ziziam as últimas cigarras,
por entre gorjeios vivos, e vôos longos, suaves,
se recolhem em bandos felizes as aves
pelo espaço,
em algazarras...

Minha vida é por isso uma fuga constante, uma fuga
às vezes sem razão
diante da decadência, da miséria, e dos ruídos
da civilização
para a renascença tranqüila e o sublime esplendor
de um novo templo pagão!

Uma fuga para longínquas a indescritíveis viagens
maravilhosas,
onde há coloridas paisagens
silenciosas,
que se desdobram, refletidas,
nas pupilas dos meus olhos onde a vida
esconde tantas vidas!
 

Razões

Pensarás que é mentira e é no entanto verdade
- mas me afasto de ti, propositadamente,
pelo estranho prazer de sentir que a saudade
ainda torna maior o coração da gente...

Parto! Bem sei que parto sem necessidade!
Quero ver os teus olhos turvos, de repente,
embora não compreenda essa felicidade
que assim te faz sofrer comigo inutilmente!

Quero ouvir-te na hora da despedida
que eu volte bem depressa para a tua vida,
- quero no último beijo um soluço interior...

Que enquanto ficas só, e enquanto vou sozinho,
sabemos que a saudade vai tecendo o ninho
que há de aquecer na volta o nosso eterno amor!
 

Receio

Receio  de que o anos passem, - e eu sozinho
me deixe para trás, e reconheça então
que fiquei sem ninguém a meio do caminho
e meu sonho de glória esboroou-se no chão

Receio de ser tarde,  e quando erguer a mão
a flor cair... cair a flor... ficar o espinho...
Receio de que seja apenas ilusão
a ilusão que ideei a afago com carinho...

Receio de que tudo afinal seja nada,
- e a noite, a grande noite inesperada e escura
me atropele o percurso em meio da jornada...

Receio de que um grito estrangule o meu hino,
- e eu tenha que parar, na infinita amargura
de não ter completado o meu próprio destino!
 

Reflexo

Vês aquele lago?
Água verde, parada, sem encanto,
entretanto que lindo ele parece
ao refletir nos céus...

É por isso que gostas dos meus olhos...

Não percebe que ao fitá-los
neles, vês, sem querer, o reflexo dos teus...


Revolta
   
Não! não quero bocas fartas e relaxadas
pelos desejos,
frias
e saturadas de beijos,
saturadas
e vazias...

Bocas que deixam manchas noutras bocas,
tatuagens efêmeras e loucas
de segundos de amor que estertoram de tédio...
- nem quero essa mulher que me dê seu desejo
com gestos indiferentes
de alguém que ofertasse aos meus nervos doentes
um fictício remédio...

Não! não quero mulheres inúteis
e lidas,
fúteis
e conhecidas
como certos romances de edições proibidas
sem dono e sem autor,
- não quero só dois braços, só dois seios,
nem quero apenas um corpo apertado ao meu peito
nem quero apenas um leito
seja ele qual for!

Não! não quero mulheres  estéreis com olhos estagnados
e sem luz
de carnes infecundas coo as terras cansadas
ou as águas paradas
nos pauis !

Não! não quero braços mercenários
e frios,
de braços que “lembram amarras de navios
prendem-se a qualquer cais...”
..........................

Eu quero muito mais... eu quero muito mais!


Rosa de vidro

Rosa de Vidro
límpida rosa
mistério puro
imagem só.
Quem te plantou?
Quem te regou?
Na luz flutuas
na sombra és luz!
Rosa de vidro
do pensamento.

Tão transparentes
são tuas pétalas
como o ar de ouro
na alta montanha.
Súbita imagem
de escuro abismo,
no alto da rocha
cheia de sol
toca-te o vento
oscilas, cantas.

Rosa de Vidro
doce mistério
da fixa idéia,
estrela mágica
de cinco pétalas
que os cinco dedos
querem tocar.

Rosa de Vidro
Minha obsessão,
que no mistério
da criação
brotou, brotou.
Louco alpinista
quero alcançar-te,
raro Edelweíss
quem sabe, quando?

Quem sabe, a queda
antes de ver-te
e de tocar-te
Rosa de Vidro.
 

Rosas

Repara, meu amor, naquelas belas rosas
vaidosas
só porque ao seu redor os pássaros e abelhas
adejam...

Quero que venhas comigo até o jardim
para que aquelas rosas
vaidosas
te vejam...


Serás... Serei...
(Motivo Lírico)

I
Serás as nuvens,
serei o ar;
serás a noite, a Lua,
ou a praia sensual onde o mar tumultua,
- serei o mar;
serás a seiva, a terra,
a flor que abre a corola e as pétalas descerra,
ou uma deusa, e terás os teus cabelos verdes
e a humildade feliz de um girassol...

Serei o vento, o pólen, a ave inquieta
o dia claro e sem véus,
o deus primeiro, o poeta,
o fauno loiro dos céu
- serei o Sol!


II
Serás a mata a trescalar perfume
na noite escura,
- serei o vaga-lume
à tua procura!

Serás a mata cerrada
e sombria,
tecida e emaranhada
como um ninho...
- serei a estrada
abrindo a mataria!

- serei o caminho!


III
Serás a estrela pequenina, pura
e brilhante,
ou a fonte que murmura
no coração da rocha de granito...

Serei o rio gigante,
ou o cume da montanha a desafiar a altura,
- serei o Infinito!


IV
Serás a pérola guardada
no estojo de uma concha nacarada,
polida e rebrilhante,
redonda, redondinha como as pupilas
tranqüilas
do teu olhar

Serei o diamante
envolto na ganga rude,
fiquei na terra
e não pude
ser polido pelo mar!


V
Serás a esperança que anima e seduz,
uma voz na distância
ou uma canção!
- Serei um hino!

Serás a luz!
a ilusão
- serei a ânsia,
o destino!


VI
Serás eternamente a imagem
desejada,
a miragem
que me acompanha os passos pela estrada,
seja para onde for,
- serás a visão perseguida!
Serei o conquistador!

Serás a vida!
Serei o amor!
 

Serás... Serei...
(Segundo Motivo Lírico)
   
I
Serás a brasa ardente,
a chama
a brilhar mais vivamente
ao vento que passa...
Serei o vento outra vez, serei o vento
a arder os teus sentidos
numa irrequieta alegria.
- a fazer dos momentos gloriosos
e vividos
dia a dia,
e das ânsias e dos gozos,
- espirais de fumaça
e de poesia!


II
Espirais de fumaça, esguias,
azuis,
monólogos de sonhos e poesias
que ainda não compus,
intentando lembrar as linhas dos teus traços
e a tatuarem nos espaços
teu corpo de fumaça
e tua alma de luz!


III
As líricas espirais dos poemas que componho
lembrando restos de sonho,
e que vem de ti, porque te amo
e porque me amas,
como da brasa acesa fogem para os céus
numa dança de gestos e de flamas,
espirais de fumaça
envolvendo de véus
os corpos bailarinos e louros das chamas!


IV
Serei o vento, sim! Virei de muito longe,
da experiência das minhas emoções,
pela infinita estrada
onde deixei um sonho preso a cada espinho,
e em cada espinho presa uma ilusão fanada...

Virei de muito longe, sim, nesse caminho,
que vai chegar a ti,  
onde os cardos e as rosas se misturam pelas
encruzilhadas,
- julgando trazer as mãos cheias de estrelas,
quando apenas colhi
os louros pirilampos soltos nas estradas!


V
Serei o vento, sim! encherei teus ouvidos
com as canções mais distantes, mais estranhas
de povos desconhecidos
que moram para além do mar e das montanhas...

Transbordarei teus olhos com o caleidoscópio
das paisagens bonitas
e esquisitas
do mundo em que habito,
e dar-te-ei a provar do extraordinário ópio
infinito
da minha alma,
- e então te levarei pela mão, dócil, calma,
deslumbrada,
em abandono,
e como que embalada
num sono!
 

Serás... Serei...
(Variações Líricas)

I
Serás a terra, - humanamente cheia
de beleza, de encantos, de paisagens,
terás um corpo de areia
e uma alma de miragens;
serás a terra, sim, - esplêndida, formosa,
abrindo a boca rubra numa rosa
como uma taça de mel!

E eu serei, pretensão, talvez! fátua loucura! -
terei que ser, para viver curvado
sobre ti, numa atitude de ternura,
e envolver-te encantado,
- terei que ser o céu!


II
Serás a terra, sim, - e os teus cabelos verdes
como as altas folhagens saltas e sem grampos,
- hão de acenar ao vento enfeitados de sol  
e à noite hão de se encher de louros pirilampos!


III
Serás a árvore bela, vaidosa, florida,
com suas ramas pendida
sobre o rio da vida!
(rio a fugir por sobre o leito dos desejos!)

Serei o rio a namorar-te as flores
e a carregar comigo as folhas que soltares
pelos ares,
e as pétalas multicores
dos teus beijos!


IV
Depois, serei o lago quieto, o teu espelho
de Uiara adolescente,
onde verás tua imagem se refletir
tremulamente...

Serei o lago, - e sentirás nas águas, minhas carícias,
quando te banhares,
e o teu corpo perfeito, belo e puro,
ao meu corpo ofertares
como um fruto maduro...

Ou. - quem sabe?... teu corpo há de cair
num gesto de folha solta, indolente e vago,
sobre o lago,
e aos círculos concêntricos e infinitos
do meu afago,
imergir...


V
Serás a copada folhagem, a folhagem
discreta
tonta de ninhos e de sons,
de flores e botões
repleta;
a alegria da paisagem,
com seus gestos e acenos;

Serei o vento, a aragem,
e à minha passagem,
aos meus contatos serenos ou nervosos
vibrarão teus arvoredos
nervosos ou serenos!
 

Serenidade
(1940)

Cheguei enfim a essa serenidade
de quem sorri condescendente,
do homem que não pragueja, na vaidade
de impor aquilo que hoje pensa ou sente...

Desprezo a inútil religiosidade
e o fanatismo histérico de um crente...
Nem vestirei jamais a liberdade
nos dogmas de uma força onipotente!

Não afirmo mentiras nem me exalto,
toda verdade por mais forte é incerta
e não convenço por falar mais alto...

Libertei-me! E afinal concluí, na vida,
que a verdadeira voz que se liberta
não afirma nem nega... mas duvida!
 

Sofrer por sofrer...

Parti. Quis te deixar abandonada
às lembranças do amor que nos prendeu.
Trouxe comigo, na alma torturada,
um ciúme atroz ciumentamente meu...

Fugi... fuga cruel, desesperada,
quando supus que nosso amor morreu...
Fuga inútil, se ainda és a minha amada,
se continuo inteiramente seu!

Não, não me livro deste amor nefasto,
nem dessa angústia, dessa luta, desse
ciúme que aumenta quanto mais me afasto...

E hoje concluí, fugindo de meus passos,
que sofrer por sofrer, antes sofresse
como sempre sofri... mas nos teus braços!


Solilóquio

A poesia chega forte como uma hemoptise. Mancha
de vermelho o papel  e se transforma em palavra. Vem
em golfadas, depois de longos períodos de ausência.
Rompe a inércia, abruptamente, como um objeto solto
no ar!

Oh! a ânsia de não poder contê-la tantas vezes nas
palavras, vê-la desperdiçar-se, fugir, entranhar-se no chão,
como a água da chuva em terra seca.

Pequeninas e insignificantes taças são as palavras
de que disponho para servir meu pensamento.
Meu Deus!
como hei de conseguir conter nestas taças pequeninas,
feias e opacas, a torrente sonora e clara que não para,
que me afoga?
 

Sonata ao Luar

Branca, tão branca, como se fosse feita
toda de luar,
- um luar humano...
- como se seu corpo fosse o maravilhoso teclado
de um piano
à espera de mãos de artista para o despertar

Branca, tão branca, como se seu corpo fosse
feito da espuma do mar,
mar de delícias, mar de meus anseios...
- adivinho a inquietação desse mar de mistérios
quando tremem as ondas vivas dos seus seios!

Branca, tão branca, como se fosse feita
da mais fina areia,
dessa areia que é luz embebida de sol
dessa areia que canta ao contato do mar!
Areia de unia praia impossível e desconhecida
numa enseada escondida
onde nenhuma vaga ainda foi se espraiar...

Branca, tão branca, como se seu corpo fosse
uma estátua vestida em mil véus de luar,
- branco luar de camélias e de lírios
que tem forma de mulher em meu olhar ;
um morno luar de amor, a viver em meus nervos,
como a lua, sobre os nervos deslumbrados
do mar!

Branca, tão branca, como se seu corpo fosse
num gesto heráldico e fino
um lírio esbelto no ar!...
- um lírio de alma vermelha de rosa feiticeira
que abre os lábios úmidos, brejeira
para o sol beijar!

Branca, tão branca, como se seu corpo fosse
esta folha sem mancha onde escrevo os meus versos
a pensar,
- pensar que hei de compor na alvura de seu corpo,
versos do nosso amor, sem rimas nem palavras,
que ela só há de ler... a viver...
a vibrar...

Branca, tão branca, como o meu pensamento
antes de a encontrar.
 

Soneto à tua volta

Voltaste, meu amor... enfim voltaste!
Como fez frio aqui sem teu carinho....
A flor de outrora refloresce na haste
que pendia sem vida em meu caminho.

Obrigado... Eu vivia tão sozinho...
Que infinita alegria, e que contraste!
-Volta a antiga embriaguez porque voltaste
e é doce o amor, porque é mais velho o vinho!

Voltaste... E dou-te logo este poema
simples e humilde repetindo um tema
da alma humana esgotada e envelhecida...

Mil poetas outras voltas celebraram,
mas, que importa? se tantas já voltaram
só tu voltaste para a minha vida...


Soneto ao nosso encontro

Desenrolam-se as curvas do caminho
à proporção que aos poucos avançamos...
Um dia, - e eu vinha então triste e sozinho,
- um dia, - vinhas só... nos encontramos...

Desde esse dia, juntos, simulamos
duas asas de um mesmo passarinho,
- nesse destino que entrançou dois ramos
que dão a mesma flor... e o mesmo espinho...

Depois de tantas curvas já vencidas
que sejamos ao fim de nossas vidas
na perfeição do amor que nos conduz,

- como a folhagem que um só ninho esconde,
ou dois galhos que vêm da mesma fronde
para juntos morrer na mesma cruz!
 

Sugestões... na tarde chuvosa...
   
Aqui dentro, em meu quarto de estudo, que calma!
Que calma ainda maior, no entanto, há dentro de mim...
Estes dias de chuva, é que encheram minha alma
de motivos sem cor... e de gestos de splim...

Estas tardes de cinza e de recolhimento
repousam minha vida das cores berrantes...
...Há em mim... esse silêncio bom de isolamento,
e um desejo pueril de mil coisas distantes...

Os pingos, pelos fios que passam lá fora,
para os meus olhos, são como contas de um terço,
- e a chuva... a repetir a mesma ária sonora
quem sabe se a cantar não embala algum berço?

A tarde morre, suave . . . A chuva cai, tão boa...
Fica muito mais triste a chuva ao fim do dia...
Quem será que na rua vem trauteando à toa
uma velha canção que eu quase já esquecia?

Quem será? Ah! se fosse o rumor de teus passos!
Ah! se enfim fosses tu, (tu que um dia partiste...)
que voltasses de novo, só para os meus braços,
nesta tarde de chuva ensimesmada e triste...

Fosses tu, que tornasses para a nossa vida,
para aquecer o ninho bom de antigamente,
- e trouxesses tua alma, quente e arrependida!
- e trouxesses teu corpo, arrependido e quente!

E as tuas mãos de novo para as minhas mãos,
e os teus olhos de luz para a sombra dos meus...
- e lançasses, voltando, as sementes e os grãos
na terra que ficou vazia após o adeus...
............................

Há dias chove assim... Dias longos, cinzentos...
Sozinho, horas a fio, entre livros calados
gosto de ouvir lá fora a cantiga dos ventos
e os monótonos sons da chuva nos telhados...

Isolamento bom!... Calma... Estranha doçura...
Folhagens na vidraça embaciada, acenando...
E um nome de mulher... (é a chuva que o murmura!)
minha mão no papel sem querer vai traçando...
 

Suprema  ironia

Não digas que não sofro - o meu sofrer profundo
com um sorriso nos lábios muita vez apago...
A dor - é como a pedra que cai - vai pro fundo
sob a face serena e tranqüila do lago...

Um segundo de pura alegria - um segundo
muitas vezes me basta, e já me dou por pago...
Se invejo, invejo aquele que não tendo um mundo,
tem mundo para além do olhar ardente e vago...

Que eu não ando a dizer que sofro e me atormento!
É covardia a gente maldizer-se à toa
a viver esta vida entre um ai e um lamento...

Eu, não! Bem sei que sofro, mas sofrer - que importa?
Digo aos homens que o mundo é belo, a vida é boa!
E... suprema ironia... a minha voz conforta!

 

Tenho ainda na boca o sabor de teus beijos
e nos olhos a morna luz de teu olhar,
- há em teu corpo alvoradas rubras de desejos
e rompantes de vagas livres sobre o mar...

Sabes bem que te adoro, eu o disse a tua boca
naquele instante longo a cheio de delicias,
e em minhas mãos provaste a ânsia incontida e louca
de uma declaração de amor a de carícias. . .

Consegui te alcançar em minhas mãos, - assim
como quem colhe um fruto entre as sombras dos ramos...
Toquei-te o corpo inteiro.. . a pensar que a sem fim
o incêndio que nos queima enquanto nos amamos!

Hás de ser uma praia branca ao meu enleio
nua, deitada ao sol, exposta ao mar a aos ventos,
- e eu serei esse vento de ternuras cheio!
e eu serei esse mar de desejos violentos!

Um do outro vamos ser, assim . . . divinizados
por um amor perfeito em comunhão com o céu,
- ver o céu a morrer em tens olhos parados
e a terra, aberta em flor, em teus lábios de mel. . .

Fundiremos no mesmo abraço o mesmo assomo,
dois num só - na infinita integração do amor,
tu, perfeita, eu perfeito, ambos perfeitos, como
a terra e o céu, o mar e a praia, o sol e a flor!

 

Tão simples este amor...

Tão simples este amor nasceu... Nós nem notamos
que era amor e afeição que aos poucos nos prendia...
O amor, - é aquela flor que engrinalda dois ramos
aos esponsais de luz do sol de cada dia!

Dois ramos, - eu e tu, - e as horas desfolhamos
numa doce, irrequieta e impensada alegria,
- e assim vamos vivendo, e a viver, acenamos
sonhos verdes aos céus azuis da fantasia!

Tão simples este amor nasceu... Tal como nasce
um beijo em tua boca, um riso em tua face,
uma estrela no céu... ou uma flor de um botão...

Nem era necessário mesmo eu te falar,
se já o tens transformado em luz no teu olhar,
e eu, já o sinto a cantar, dentro do coração!


Templo pagão

Quando inteira te despes, - os teus ombros nus
modelados de luar, de areias e de luz;

os teus seios pequenos, trêmulos e ousados,
como frutos maduros, quentes, sazonados;

e os teus curvos quadris esculturais, e as ondas
das nádegas carnosas, cheias e redondas;

e o detalhe das pernas firmes, que eu contemplo
como a duas colunas áticas de um templo;

e a borboleta fulva, de asas de veludo
imóveis e espalmadas no teu claro ventre;

quando inteira te despes aos meus olhos, - tudo
é um convite de amor a que eu viva, a que eu entre

para rezar no templo escondido e velado
que há no teu corpo esplêndido e marmorizado

uma oração pagã, olímpica e sensual,
em glorificação da beleza imortal!
 

Um dia...

Um dia ... E para nós há sempre um dia
que tudo modifica de repente,
dando outro rumo, inesperadamente,
ao caminho que a gente percorria.

E então, a hora impensada de alegria
se transforma em tristeza rudemente,
- ou a dor se desfaz - e a alma sente
imprevisto prazer que não sentia.

Ouço falar assim desde menino
e me deixo ficar, sempre esperando
por esse estranho dia do destino...

E às vezes, esta espera me intimida,
porque não sei o que trará, nem quando
chegará esse dia à minha vida!


Um lenço

Há dias em que eu desejaria voltar
não sei de onde,
simplesmente voltar
de países que ficam lá onde o sol se esconde,
de desejos que acenam da distância do mar...

Voltar
de qualquer lugar...

Há dias assim... Em que a gente desejaria chegar
num navio qualquer
ou numa asa de avião,
de paragens longínquas, carregado de ausência,
só pela alegria  de rever, de reencontrar a existência
renascendo ao milagre da separação

Há dias assim...
Em que eu desejaria voltar, voltar
com quem vem do fim
para o princípio...

Desejaria
no imenso vazio
desse dia,
- dia estranho, em que às vezes, muitas vezes, penso -
Ter um lenço a acenar ansioso ao navio...
... um lenço...
 

Uma palavra, um gesto...

Não quiseste, - ou quem sabe? ... vacilaste na hora
em que esperei de ti uma palavra, um gesto...
- bastaria um olhar quando me fui embora,
um olhar... e eu feliz entenderia o resto...

Mas, não. Nem um olhar, num um vago protesto,
em um tremor na voz de quem sofre e não chora...
Ah! teria bastado uma palavra, um gesto,
para tudo, afinal, ser diferente agora...

Parti! levou-me a vida, ao léu, e redemoinho...
Hoje, volto, - e tu me olhas a falar de amor
e me entregas as mãos num gesto de carinho...

E evito teu olhar... E não me manifesto...
- É que, já não te posso dar, seja o que for,
nem mesmo uma palavra de esperança, um gesto...
 

Vaidade

Tua vaidade é como um deus antigo
exige sacrifícios aos seus pés...
Olhar-te, é desafiar algum perigo,
amar-te, é procurar algum revés...

Olhei-te, e desde então teus passos sigo...
Amei-te, e mesmo assim. não sei quem és...
Meu amor, pobre amor, quase o maldigo,
talvez seja outra vitima a teus pés...

Amores, esperanças e desejos
ardem nos castiçais dessa vaidade
ao incenso sensual que há nos teus beijos...

Eis que te trago aqui meu coração.
Já de nada me serve, se em verdade
converteu-se a tão fútil religião!
 

Variações sobre a Vida...

1
Gota d’água transparente
que brilha, cresce... e que cai!
Assim a vida de gente
que um instante se vai!


2
A Vida, - mistério vão
sombra agora, depois luz,
- estranho traço de união
ligando um berço... a uma cruz!


3
A Vida – uma onda que avança
e volta, - vai-vem do mar...
Quando vai, quanta esperança!
Quanta amargura, ao voltar!


4
A Vida, ansiosa escalada
sobre a paisagem do mundo...
Tanto esforço para nada
se há sempre abismo no fundo!


5
Ás vezes penso que a vida
essa vida – besta vida! –
coisa sem finalidade
que há tanta gente a querer!


6
Ás vezes penso que a vida
que há tanta gente a querer,
só existe, - indefinida –
pra gente poder morrer...
 

Variações sobre um tema banal

I
Não te esqueças que a vida é um momento que voa
um efêmero instante de beleza e alento;
vive pois sem temor e com desprendimento
o que ela te ofertar, sem maldize-la à-toa!

E' uma nuvem que muda aos caprichos do vento!
Se hoje a perdes... O tempo nunca te perdoa!
Vida! Repara bem como a palavra soa!
Não temas pronunciá-la com deslumbramento!

Há alguém, não sei quem é, mas disto estou seguro,
que nos há de intimar num remoto futuro
a dar contas da vida que um dia ganhamos...

E após tal julgamento estranho, com certeza
havemos de sofrer e pagar, se em defesa
não der-mos as razões porque a desperdiçamos...


II
O que a vida te der, seja migalha embora,
se é migalha de amor, de prazer, de alegria,
- colhe-a! que esta migalha é o pão de cada dia,
e há de um dia chorar quem hoje a jogar fora!

Quem muito quer, despreza o pouco, sempre chora,
ou quem indiferente segue, de alma fria,
há de um dia parar e há de lembrar-se um dia
do clarão que se foi numa longínqua aurora!

Então, nada haverá... nem mais frutos nos ramos
nem migalhas de amor - se outrora as desprezados,-
e a indiferença de ontem sofre arrependida...

E ante a sombra que vem velar nosso desgosto
procuramos em vão uma aurora perdida
na luz que desespera e morre num sol-posto!


III
Hás de te arrepender sempre tarde demais
dos momentos de amor ou de puro prazer
que com medo talvez, não quiseste colher
e ficaram em branco ... inúteis, para trás ...

Vive com todo o ardor de que fores capaz
e a essa paixão entrega, em êxtase, teu Ser.
Ah! bem pior do que a dor vivida, podes crer,
é a dor de não poder vivê-la nunca mais!

Não receies sofrer, que é vida o sofrimento.
Receia, e com razão - cada dia perdido
sem que o amor te arrebate ou te perca um momento.

De nada há de servir-te o desespero teu,
pois mais vale chorar o amor que foi vivido
que lastimar o amor que um dia se perdeu!


IV
Quantas vezes já ouvi dizer amargamente
quando a noite do tempo chegou sem alarde:
“só agora depois que o coração não arde,
não arde o coração... e a alma já não sente...

- vejo, quanto perdi, irremediavelmente,
por ter sido na vida, um tímido, um covarde!
Ah! se pudesse ser o que fui, novamente!”
Quantas vezes já ouvi dizer... mas muito tarde...

Sofrimento absurdo esse arrependimento
de tudo ter podido alcançar num momento
e tudo ter perdido sem erguer a mão...

E abatido ir sentido a invasão desse tédio
que vai enregelando aos poucos, sem remédio:
a alma, o sonho, a esperança, a vida, o coração!


V
Antes se arrepender do que se fez um dia
por sincero prazer pondo tudo de lado,
do que o arrependimento de se ter deixado
de fazer, por temor... - se o coração pedia.

Se colheste a emoção com intensa alegria
e se foste feliz e marcaste o passado,
bendiz esse segundo ou essa hora, - esse dia
em que o mundo foi teu, vencido e conquistado...

A vida é uma aventura e é preciso vivê-la!
Nada há que justifique uma abstinência ao mundo,
- ergue a mão para o céu e colhe a tua estrela!

E' a hora do Natal... A estrela é o teu presente!
Mesmo que ela cintile apenas um segundo,
contigo hás de levá-la indefinidamente...


VI
Escreve com teu sangue o teu próprio romance
enche-o com teu amor, misto de sonho e vinho,
mais vale ter no peito enterrado um espinho
depois - que a solidão até onde a vista alcance...

Sofrimento é afinal perceber, de relance,
que já estamos ao fim de um imenso caminho
e que tudo que esteve um dia ao nosso alcance
passou... E olhar em torno, e se sentir sozinho...

Não, não tentes voltar, porque a vida não volta...
Jogarás contra o vento a angústia e o desespero
e em espumas verás tua inútil revolta...

Vive, pois... E se assim te falo, e isso te digo,
é que poderás ver no instante derradeiro
que se a vida foi vã a memória é um castigo!
 

Vento...

Teu amor entrou na minha vida
violentamente,
como um sopro de vento abrindo uma janela
de repente.

Teu amor desarrumou meu Destino,
arrancou das paredes velhos retratos queridos,
e quebrou uma jarra no canto da minha
alma,
cheia de rosas,
cheia de sonhos...

Depois...
Teu amor saiu da minha vida, de repente,
como um sopro de vento fechando uma porta
violentamente...
 

Vingança

Ontem eu a possuí ... e você não é minha!
Paradoxo talvez, mas tudo aconteceu ...
Em pensamento, o beijo eu colhia, tinha
o sabor desse beijo que você não deu ...

De olhos cerrados, louco, a sua imagem vinha
com a força do que é real e se impôs ao meu “eu” ...
E o corpo que eu tocava e a minha mão sustinha,
na sombra, aos meus sentidos cegos - era o seu!

Ontem por mais que a idéia seja estranha e louca,
- você foi minha enfim!... apertei-a ao meu peito...
desmanchei seus cabelos... machuquei-lhe a boca!

E possuía afinal, - num ímpeto criador –
vingando o meu orgulho abatido e desfeito
num doentio segundo de paixão e amor!
 

Vinho

Do amor tu não dirás: provo, mas não me embriago,
que não basta provar para sentir o amor.
É preciso sorvê-lo até o último trago
se a embriaguez é que dá seu profundo sabor.

Teu amor deve ter profundidade e cor
não deve ser um sonho doentio e vago,
se assim for, então sim, podes te dar por pago
que este é o preço da vida e todo o seu valor.

Transborda a tua taça, ergue-a nas mãos, e brinda
o momento feliz que viveste e não finda,
que só o amor que embriaga e que nos leva a extremos

pode glorificar os sentidos e a vida,
e vencendo a razão que nos tolhe e intimida,
nos faz reaver, de pronto, as horas que perdemos!
 

Voltar
   
De países frios,
de países quentes,
descendo e subindo rios
ou sobre o dorso do mar,

chegam e partem navios,
navios livres, contentes,
que vêm, - vão, sem parar...

Que vontade de vir com os navios que chegam
de países frios, de países quentes,
de portos que talvez eu não verei jamais...
- para que alguém me esperasse com dois olhos felizes
e um lenço branco esvoaçante, como uma ave presa
batendo asas no cais...

Será mesmo, que haveria um lenço a acenar assim
de longe, para mim,
em desvario?
Ou meu olhar, - com uma grande e dolorosa surpresa, -
se encheria de infinita tristeza
ao ver o cais vazio?
..........................

Há dias assim... em que desejaria
voltar, não sei de onde,
vir lá da curva do céu, lá de onde o sol se esconde
sobre o mar...

Voltar... por essa estranha e esquisita alegria
de voltar...
 

Volúpia

Quisera te associar à pureza e à candura
quando pensasse em ti... Mas a emoção, teimosa,
transforma sem querer toda a minha ternura
numa  estranha lembrança ardente voluptuosa...

Não poderei dizer apenas que és formosa
quando a própria beleza em ti se transfigura,
- e pela tua carne há pétalas de rosa
e no teu corpo há um canto fresco de água pura!

Um sincero pudor vislumbro em teus enleios,
mas se disser que te amo com pureza, eu minto,
- no olhar trago tatuada a visão de teus seios...

E em vão tento associar-te ao céu, à fonte, à flor!
Quando falo de ti, penso em teu corpo, e sinto
que ainda estremece em mim teu último estertor!

Serás as nuvens,
serei o ar;
serás a noite, a Lua,
ou a praia sensual onde o mar tumultua,
- serei o mar;


Carta a um amor impossível
   
Recebi tua carta, - e ainda sob o peso
da emoção que me trouxe, eu te escrevo, surpreso,
reavivando na minha lembrança esquecida
certos traços sem cor de uma história perdida:
- falo dos poucos dias que passamos juntos...

Tão longe agora estas Quantos belos assuntos,
a que eu não quis, nem soube mesmo dar valor,
relembras com um estranho e desvelado amor...
Tua carta é tão doce, e tão cheia de cores
que, dir-se-ia a escreveste com o mel que há nas flores,
sobre o azul de um papel tão azul, que o papel
faz a gente pensar num pedaço de céu!
Impregnado nas folhas chegou até mim,
um perfume sutil e agreste de jasmim
e um pouco do ar sadio e puro de montanha!

Estranha a tua carta, inesperada e estranha!

Deixas nas minhas mãos a tua alma confiante,
ante a revelação desse amor deslumbrante
e abres teu coração, num gesto de ansiedade,
sob a opressão cruel de uma imensa saudade.
Dizes que só por mim tu vives, - que a tristeza
é a companheira fiel que tens por toda parte,
e me falas assim com tamanha franqueza
que eu nem sei que dizer receando magoar-te!
Não compreendo esse amor que revelas por mim
nem mereço a ternura e o enlevo sem fim
de um só trecho sequer de tudo o que escreveste,
- por exemplo, - de um trecho belo e bom, como este:
.................................

“Teu olhar é o meu sol! Vivo da sua luz!
- e mesmo que esse amor seja como uma cruz
eu o levarei comigo em meu itinerário!
e o bendirei na dor ascendendo ao Calvário!
Sem ele não existo; e sem ti, meu destino
será vazio, assim como o bronze de um sino
que ficou mutilado e emudeceu seus sons
na orquestra matinal dos outros carrilhões!
Quero ser tua sombra até, - e quando tudo
te abandonar na vida, e o frio, e quedo, e mudo,
encerrarem teu corpo em paz sob um lajedo,
eu ficarei contigo ao teu lado, sem medo,
e sozinha e sem medo eu descerei contigo
oh! meu único amor! oh! meu querido amigo!
- para que os nossos corpos juntos, abraçados,
fiquem na mesma terra em terra transformados!”
....................................

Escreves tudo assim, - e eu nem sei que te diga
nesta amarga resposta, oh! minha pobre amiga!

Tarde, tarde demais... Bem me arrependo agora
do amor que te inspirei, daquele amor de outrora
que eu julgava um brinquedo a mais em minha vida
e a quem davas tua alma inteira e irrefletida...
Releio a tua carta, e confesso que sinto
o ter-te que falar sobre esse amor extinto,
um prelúdio de amor que ficou sem enredo
e que só tu tocaste em surdina, em segredo...

Dizes que o que eu mandar, farás... e que és tão minha
que mesmo que não te ame e que fiques sozinha
bastará para ti a lembrança feliz
dos dias de ilusão em que nunca te quis!
E escreves, continuando essa carta que eu leio
com uma vontade louca de parar no meio:           
.....................................

“Minha vontade é a tua! E meu destino enredo
no teu!... És o meu Deus! Teu desejo é o meu credo!
Creio na tua força e no teu pensamento,
e nem um só segundo e nem um só momento
deixarei de seguir-te aonde quer que tu fores,
seja a estrada coberta de espinhos ou flores,
te aureole a fronte a glória e te sirva a riqueza
ou vivas no abandono e sofras na pobreza!
Serei outra Eleonora Duse, e te amarei
com um amor infinito, sem razão nem lei.
Tu serás o meu Poeta imortal, - meu Senhor,
a quem entregarei minha alma e o meu amor!

Creio na tua força e no teu pensamento!
- faço dela um arrimo, e tenho nele o alento
da única razão que dirige meus atos;  
- é a lógica fatal das cousas e dos fatos!
Orgulho-me de ser a matéria plasmável
onde o teu gênio inquieto, e nervoso, e insaciável,
há de esculpir uma obra à tua semelhanças!
Junto a ti sou feliz e me sinto criança
curiosa de te ouvir, fascinada e atraída
pela tua palavra alegre e colorida!
E se falas da vida ou se o mundo desvendas
os assuntos ressoam na alma como lendas
e tudo é novo e é belo, e tudo prende e atrai,
de um simples botão que se abre a um pingo d'água que caí.

Há em tudo uma alma nova! Há em tudo um novo encanto!
Tantas vezes te ouvi! E sempre o mesmo espanto
quando tu me dizias, que era tarde, era a hora
em que eu ia dormir em que te ias embora...
Muitas vezes, deitada, - eu rezava baixinho
uma prece que fiz só para o meu carinho:

Com meus beijos de amor matarei tua sede,
com os meus cabelos tecerei a rede
onde adormecerás feliz, imaginado
que é a noite que te envolve e te embala cantando;
formarei com os meus braços o ninho amoroso
onde terás na volta o almejado repouso;

minhas mãos te darão o mais terno carinho
e julgarás que é o vento a soprar de mansinho
sussurrando canções e desfeito em desvelos
a desmanchar de leve os teus claros cabelos!
No meu seio, - que a uma onda talvez se pareça,
recostarei feliz, enfim, tua cabeça,
e nada, nenhum ruído há de te perturbar!
- meu próprio coração mais baixo há de pulsar...
Quando o sol castigar as frondes e as raízes
com o meu corpo farei a sombra que precises,
e se o inverno chegar, ou se sentires frio,
em mim hás de achar todo o calor do estio!

Não te rias, - bem sei que te digo tolices,
mas ah! se compreendesses tudo, ou se sentisses
a alegria que sinto ao te falar assim,
talvez que não te risses, meu amor, de mim...
Isto tudo, - é obra apenas da fatalidade,
 - quando o amor é uma doença e é uma febre a saudade.”
 ......................................

Tua carta é uma frase inteira de ternura,
como uma renda fina, cuja tessitura
trai a mão delicada e a alma de quem a fez.
Ela é bem a expressão da mulher, que uma vez...
(mas não, não recordemos estas cousas mais,
- para o teu bem, deixemos o passado em paz
se o não posso trazer num augúrio feliz
para a prolongação de um sonho que eu desfiz...)

Tua carta é o reflexo da tua beleza,
e há no seu ofertório a singela pureza
desse amor que te empolga e te invade e domina!
(Uma alma de mulher num corpo de menina!)
Reli-a muito, a sós... - Mais adiante tu dizes,
com esse místico dom das criaturas felizes:
....................................................

“Amo, para a alegria suprema e indizível
de humilhar-me aos teus pés tanto quanto possível,
e viverei feliz, como a poeira da estrada
 se erguer-me ao teu passar, numa nuvem dourada
cheia de sol e luz, - nessa glória fugaz
de acompanhar-te os passos aonde quer que vás!
Não importa que eu role depois no caminho,
não importa que eu fique abandonada e só,
- quem nasceu para espinho há de ser sempre espinho!...
- quem nasceu para pó, há de sempre ser pó!”
.......................................

Faz-me mal tua carta, muito mal... Receio
pelo amor infeliz que abrigaste em teu seio,
e uma angústia mortal me oprime e me castiga,
deixa que te confesse, oh! minha pobre amiga!

Não pensei... Não pensei que te afeiçoasses tanto,
nem desejava ver a tristeza do pranto
ensombrecer teus olhos... Quando tu partiste,
não compreendia bem por que ficaste triste
nem quis acreditar no que estavas sentindo...
Hoje, - hoje eu descubro que o teu sonho lindo
era mais do que um sonho, - era mesmo, em verdade
uma grande esperança de felicidade!

Me perdoarás no entanto... ah! não fosses tão boa!
E eu insisto de joelhos a teus pés: - perdoa!
Se eu soubesse, ou se ao menos eu adivinhasse
o que não pude ver além de tua face
e o que não soube ler velado em teu olhar,
não teria deixado esse amor te empolgar...

Perdoa o involuntário mal que te causei!
A carta que escreveste, e há bem pouco guardei,
um grande mal também causou-me sem querer:
- é bem rude e bem triste a gente perceber
que encontrou seu ideal, - o seu ideal mais belo,
- e o destruir, tal como eu, que agora o desmantelo!
É doloroso a gente em mil anos sonhá-lo
e inesperadamente ter que abandoná-lo!

Se algum amor eu quis, esse era igual ao teu
que tudo me ofertou e nada recebeu;
ingênuo e puro amor, simples, sem artifícios,
capaz como bem dizes “de mil sacrifícios,
e de mil concessões, chorando muito embora,
só para ver feliz o ente que quer e adora!”

E pensar que isso tudo que tu me ofereces:
- teu raro e imenso amor, teus beijos tuas preces,
a tua alma de criança ainda em primeiro anseio;
e o teu corpo, onde a forma ondulante do seio
não atingiu sequer seu máximo esplendor;
tua boca, ainda pura aos contatos do amor;
- e dizer que isso tudo, isso tudo afinal
que era o meu velho sonho e o meu maior ideal,
abandono, desprezo, renuncio e largo
com um gesto vil como este, indiferente e amargo!

Enfim, já estás vingada... E porque ainda és criança
há de este falso amor te ficar na lembrança
como uma experiência... (a primeira vencida
das muitas que talvez ainda encontres na vida...)

E um dia então... - quem sabe se não será breve?
- descobrirás na vida aquele amor que deve 
transformar teu destino e realizar teu sonho...
Antevendo esse dia de festa, risonho,
comporei, como um véu de noiva, para as bodas,
a mais bela poesia, a mais bela de todas...
(... Recebendo-a, dirás, esquecida e contente:
- “quem teria enviado este estranho presente?”)

Sé feliz, minha amiga ... eu me despeço aqui...
Lamento o meu destino, porque te perdi
e maldigo esta carta pelo que ela diz...
Não chores, - porque eu sei que ainda serás feliz...

E que as lágrimas de hoje, - enxuguem-se ao calor
de um verdadeiro, eterno e imorredouro amor!

P. S. - Sê feliz. Amanhã tudo isto será lenda ...
E pede a Deus, por mim, - que eu nunca me arrependa...
 






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