Aquele outro não via minha muita amplidão Nada lhe bastava. Nem ígneas cantigas. E agora vã, te pareço soberba, magnífica E fodes como quem morre a última conquista E ardes como desejei arder de santidade. (E há luz na tua carne e tu palpitas.)
Ah, por que me vejo vasta e inflexível Desejando um desejo vizinhante De uma fome irada e obsessiva?
Como se te perdesse, assim te quero
Como se te perdesse, assim te quero. Como se não te visse (favas douradas Sob um amarelo) assim te apreendo brusco Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses, A mim me fotografo nuns portões de ferro Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações Ou contornando um círculo de águas Removente ave, assim te somo a mim: De redes e de anseios inundada.
Do desejo(trechos)
I
Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. Antes, o cotidiano era um pensar alturas Buscando Aquele Outro decantado Surdo à minha humana ladradura. Visgo e suor, pois nunca se faziam. Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo Tomas-me o corpo. E que descanso me dás Depois das lidas. Sonhei penhascos Quando havia o jardim aqui ao lado. Pensei subidas onde não havia rastros. Extasiada, fodo contigo Ao invés de ganir diante do Nada.
IV
Se eu disser que vi um pássaro Sobre o teu sexo, deverias crer? E se não for verdade, em nada mudará o Universo. Se eu disser que o desejo é Eternidade Porque o instante arde interminável Deverias crer? E se não for verdade Tantos o disseram que talvez possa ser. No desejo nos vêm sofomanias, adornos Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro Voando sobre o Tejo. Por que não posso Pontilhar de inocência e poesia Ossos, sangue, carne, o agora E tudo isso em nós que se fará disforme?
V
Existe a noite, e existe o breu. Noite é o velado coração de Deus Esse que por pudor não mais procuro. Breu é quando tu te afastas ou dizes Que viajas, e um sol de gelo Petrifica-me a cara e desobriga-me De fidelidade e de conjura. O desejo Este da carne, a mim não me faz medo. Assim como me veio, também não me avassala. Sabes por quê? Lutei com Aquele. E dele também não fui lacaia.
E por que haverias de querer...
E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras liquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo prazer lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de coitos e de acertos. Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
Enquanto faço o verso
Enquanto faço o verso, tu decerto vives. Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue. Dirás que sangue é o não teres teu ouro E o poeta te diz: compra o teu tempo.
Contempla o teu viver que corre, escuta O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo. Enquanto faço o verso, tu que não me lês Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas: "Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas". Irmão do meu momento: quando eu morrer Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
Morre o amor de um poeta.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra, E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto Não cabe no meu canto.
Fragmentos
Muros castos e tristes Cativos de si mesmos
Como criaturas que envelhecem Sem conhecer a boca De homens e mulheres.
Muros Escuros, tímidos: Escorpiões de seda No acanhado da pedra.
Há alturas soberbas Danosas, se tocadas. Como a tua própria boca, amor, Quando me toca...
Para poder morrer Guardo insultos e agulhas Entre as sedas do luto. Para poder morrer Desarmo as armadilhas Me estendo entre as paredes Derruídas Para poder morrer Visto as cambraias E apascento os olhos Para novas vidas Para poder morrer apetecida Me cubro de promessas Da memória. Porque assim é preciso Para que tu vivas.
Penso linhos e ungüentos
Penso linhos e ungüentos para o coração machucado de Tempo. Penso bilhas e pátios Pela comoção de contemplá-los. (E de te ver ali À luz da geometria de teus atos) Penso-te Pensando-me em agonia. E não estou. Estou apenas densa Recolhendo aroma, passo O refulgente de ti que me restou.
Poesia I (Em: tempo - morte)
Corroendo As grandes escadas Da minha alma. Água. Como te chamas? Tempo.
Vivida antes Revestida de laca Minha alma tosca Se desfazendo. Como te chamas? Tempo.
Águas corroendo Caras, coração Todas as cordas do sentimento. Como te chamas? Tempo.
Irreconhecível Me procuro lenta Nos teus escuros. Como te chamas, breu? Tempo.
Que este amor não me cegue nem me siga
Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua de estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu Senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente E farta de fadigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só soem ser aranhas e formigas.