Poemas de Florbela Espanca declamados por Miguel Falabella, divididos em 08 faixas, cada uma delas, contendo 4 poemas, sendo um total de 32 declamações lindas.
Sei lá! Sei lá! Eu Sei lá’ bem Quem sou? Um fogo-fatuo, uma miragem… Sou um reflexo… um canto de paisagem Ou apenas cenario! Um vaivem
Como a sorte: hoje aqui, depois alem! Sei la’ quem sou? Sei la’! Sou a roupagem De um doido que partiu numa romagem E nunca mais voltou! Eu sei la’ quem!…
Sou um verme que um dia quis ser astro… Uma estatua truncada de alabastro.. Uma chaga sangrenta do Senhor…
Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados, Num mundo de maldades e pecados, Sou mais um mau, sou mais um pecador…
Para Que?
Tudo é vaidade neste mundo vão… Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada! E mal desponta em nós a madrugada, Vem logo a noite encher o coração!
Até o amor nos mente, essa canção Que o nosso peito ri à gargalhada, Flor que é nascida e logo desfolhada, Pétalas que se pisam pelo chão!…
Beijos de amor! Pra quê?! … Tristes vaidades! Sonhos que logo são realidades, Que nos deixam a alma como morta!
Só neles acredita quem é louca! Beijos de amor que vão de boca em boca, Como pobres que vão de porta em porta!…
Sem Remédio
Aqueles que me têm muito amor Não sabem o que sinto e o que sou… Não sabem que passou, um dia, a Dor À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor, Este frio que anda em mim, e que gelou O que de bom me deu Nosso Senhor! Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos da Dor, essa cadência Que é já tortura infinda, que é demência! Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio, A mesma angústia funda, sem remédio, Andando atrás de mim, sem me largar!…
Ser Poeta
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e cetim… É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente… É seres alma e sangue e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
Tardes da minha terra, doce encanto, Tardes duma pureza de açucenas, Tardes de sonho, as tardes de novenas, Tardes de Portugal, as tardes d’Anto,
Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!… Horas benditas, leves como penas, Horas de fumo e cinza, horas serenas, Minhas horas de dor em que eu sou santo!
Fecho as pálpebras roxas, quase pretas, Que poisam sobre duas violetas, Asas leves cansadas de voar…
E a minha boca tem uns beijos mudos… E as minhas mãos, uns pálidos veludos, Traçam gestos de sonho pelo ar…
O Nosso Livro
Livro do meu amor, do teu amor, Livro do nosso amor, do nosso peito… Abre-lhe as folhas devagar, com jeito, Como se fossem pétalas de flor.
Olha que eu outro já não sei compor Mais santamente triste, mais perfeito. Não esfolhes os lírios com que é feito Que outros não tenho em meu jardim de dor!
Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu! Num sorriso tu dizes e digo eu: Versos só nossos mas que lindos sois!
Ah! meu Amor! Mas quanta, quanta gente Dirá, fechando o livro docemente: “Versos só nossos, só de nós os dois!…”
Blasfemia
Silêncio, meu Amor, não digas nada! Cai a noite nos longes donde vim… Toda eu sou alma e amor, sou um jardim, Um pátio alucinante de Granada!
Dos meus cílios a sombra enluarada, Quando os teus olhos descem sobre mim, Traça trémulas hastes de jasmim Na palidez da face extasiada!
Sou no teu rosto a luz que o alumia, Sou a expressão das tuas mãos de raça, E os beijos que me dás já foram meus!
Em ti sou Glória, Altura e Poesia! E vejo-me — milagre cheio de graça! – Dentro de ti, em ti igual a Deus!…
Volúpia
No divino impudor da mocidade, Nesse êxtase pagão que vence a sorte, Num frémito vibrante de ansiedade, Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade… A núvem que arrastou o vento norte… - Meu corpo! Trago nele um vinho forte: Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço… São os dedos do sol quando te abraço, Cravados no teu peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos Vão-te envolvendo em círculos dantescos Felinamente, em voluptuosas danças…
O mundo quer-me mal porque ninguém Tem asas como eu tenho! Porque Deus Me fez nascer Princesa entre plebeus Numa torre de orgulho e de desdém.
Porque o meu Reino fica para além … Porque trago no olhar os vastos céus E os oiros e clarões são todos meus ! Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !
O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ? __O jardim dos meus versos todo em flor… A seara dos teus beijos, pão bendito…
Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços… __São os teus braços dentro dos meus braços, Via Láctea fechando o Infinito
Impossível
Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste: “Parece Sexta-Feira de Paixão. Sempre a cismar, cismar de olhos no chão, Sempre a pensar na dor que não existe…
O que é que tem?! Tão nova e sempre triste! Faça por estar contente! Pois então?!…” Quando se sofre, o que se diz é vão… Meu coração, tudo, calado, ouviste…
Os meus males ninguém mos adivinha… A minha Dor não fala, anda sozinha… Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!…
Os males de Anto toda a gente os sabe! Os meus …ninguém… A minha Dor não cabe Em cem milhões de versos que eu fizera!…
Angústia
Tortura do pensar!Triste lamento! Quem nos dera calar a tua voz! Quem nos dera cá dentro, muito a sós, Estrangular a hidra num momento!
E não se quer pensar!…e o pensamento Sempre a morder-nos bem, dentro de nós… Querer apagar no céu — ó sonho atroz! – O brilho duma estrela, com o vento!…
E não se apaga, não…nada se apaga! Vem sempre rastejando como a vaga… Vem sempre perguntando: “O que te resta?…”
Ah! não ser mais que o vago, o infinito! Ser pedaço de gelo, ser granito, Ser rugido de tigre na floresta!
Neurastenia
Sinto hoje a alma cheia de tristeza! Um sino dobra em mim Ave-Maria! Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias, Faz na vidraça rendas de Veneza…
O vento desgrenhado chora e reza Por alma dos que estão nas agonias! E flocos de neve, aves brancas, frias, Batem as asas pela Natureza…
Chuva… tenho tristeza! Mas porquê?! Vento… tenho saudades! Mas de quê?! Ó neve que destino triste o nosso!
Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura! Gritem ao mundo inteiro esta amargura, Digam isto que sinto que eu não posso!!…
Toda esta noite o rouxinol chorou, Gemeu, rezou, gritou perdidamente! Alma de rouxinol, alma da gente, Tu és, talvez, alguém que se finou!
Tu és, talvez, um sonho que passou, Que se fundiu na Dor, suavemente… Talvez sejas a alma, a alma doente D’alguém que quis amar e nunca amou!
Toda a noite choraste… e eu chorei Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei Que ninguém é mais triste do que nós!
Contaste tanta coisa à noite calma, Que eu pensei que tu eras a minh’alma Que chorasse perdida em tua voz!…
Noite de Saudade
A Noite vem poisando devagar Sobre a Terra, que inunda de amargura… E nem sequer a bênção do luar A quis tornar divinamente pura…
Ninguém vem atrás dela a acompanhar A sua dor que é cheia de tortura… E eu oiço a Noite imensa soluçar! E eu oiço soluçar a Noite escura!
Por que és assim tão ’scura, assim tão triste?! É que, talvez, ó Noite, em ti existe Uma Saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu sei donde me vem… Talvez de ti, ó Noite!… Ou de ninguém!… Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!
Cinzento
Poeiras de crepúsculos cinzentos. Lindas rendas velhinhas, em pedaços, Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços, Como brancos fantasmas, sonolentos…
Monges soturnos deslizando lentos, Devagarinho, em misteriosos passos… Perde-se a luz em lânguidos cansaços… Ergue-se a minha cruz dos desalentos!
Poeiras de crepúsculos tristonhos, Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos, A névoa das saudades que deixaste!
Hora em que teu olhar me deslumbrou… Hora em que a tua boca me beijou… Hora em que fumo e névoa te tornaste…
Anoitecer
A luz desmaia num fulgor d’aurora, Diz-nos adeus religiosamente… E eu, que não creio em nada, sou mais crente Do que em menina, um dia, o fui… outrora…
Não sei o que em mim ri, o que em mim chora Tenho bênçãos d’amor pra toda a gente! E a minha alma, sombria e penitente Soluça no infinito desta hora!
Horas tristes que são o meu rosário… Ó minha cruz de tão pesado lenho! Ó meu áspero e intérmino Calvário!
E a esta hora tudo em mim revive: Saudades de saudades que não tenho… Sonhos que são os sonhos dos que eu tive…
Os teus olhos são frios como espadas, E claros como os trágicos punhais; Têm brilhos cortantes de metais E fulgores de lãminas geladas.
Vejo neles imagens retratadas De abandonos cruéis e desleais, Fantásticos desejos irreais, E todo o oiro e o sol das madrugadas!
Mas não te invejo, Amor, essa indiferença, Que viver neste mundo sem amar É pior que ser cego de nascença!
Tu invejas a dor que vive em mim! E quanta vez dirás a soluçar: “Ah! Quem me dera, Irmã, amar assim!…”
Tortura
Tirar dentro do peito a emoção, A lúcida verdade, o sentimento, - E ser, depois de vir do coração, Um punhado de cinza esparso ao vento!…
Sonhar um verso d’alto pensamento, E puro como um ritmo de oração! - E ser, depois de vir do coração, O pó, o nada, o sonho dum momento!…
São assim ocos, rudes, os meus versos: Rimas perdidas, vendavais dispersos, Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
A Minha Dor
A minha Dor é um convento ideal Cheio de claustros, sombras, arcarias, Aonde a pedra em convulsões sombrias Tem linhas dum requinte escultural.
Os sinos têm dobres de agonias Ao gemer, comovidos, o seu mal… E todos têm sons de funeral Ao bater horas, no correr dos dias…
A minha Dor é um convento. Há lírios Dum roxo macerado de martírios, Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento aonde eu moro, Noites e dias rezo e grito e choro, E ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…
A Noite Desce
Como pálpebras roxas que tombassem Sobre uns olhos cansados, carinhosas, A noite desce… Ah! doces mãos piedosas Que os meus olhos tristíssimos fechassem!
Assim mãos de bondade me embalassem! Assim me adormecessem! Caridosas E em braçadas de lírios, e mimosas, No crepúsculo que desce me enterrassem!
A noite em sombra e fumo se desfaz… Perfume de baunilha ou de lilás, A noite põe embriagada, louca!
E a noite vai descendo, sempre calma… Meu doce Amor tu beijas a minh’alma Beijando nesta hora a minha boca!
Eu queria ser o Mar de altivo porte Que ri e canta, a vastidão imensa! Eu queria ser a Pedra que não pensa, A pedra do caminho, rude e forte!
Eu queria ser o Sol, a luz intensa, O bem do que é humilde e não tem sorte! Eu queria ser a árvore tosca e densa Que ri do mundo vão e até da morte!
Mas o Mar também chora de tristeza… As árvores também, como quem reza, Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!
E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia, Tem lágrimas de sangue na agonia! E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…
Panteísmo
Tarde de brasa a arder, sol de verão Cingindo, voluptuoso, o horizonte… Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão Dum verso triunfal de Anacreonte!
Vejo-me asa no ar, erva no chão, Oiço-me gota de água a rir, na fonte, E a curva altiva e dura do Marão É o meu corpo transformado em monte!
E de bruços na terra penso e cismo Que, neste meu ardente panteísmo Nos meus sentidos postos e absortos
Nas coisas luminosas deste mundo, A minha alma é o túmulo profundo Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos!
Minhas Ilusões
Hora sagrada dum entardecer De Outono, à beira-mar, cor de safira, Soa no ar uma invisível lira… O sol é um doente a enlanguescer…
A vaga estende os braços a suster, Numa dor de revolta cheia de ira, A doirada cabeça que delira Num último suspiro, a estremecer!
O sol morreu…e veste luto o mar… E eu vejo a urna de oiro, a balouçar, À flor das ondas, num lençol de espuma.
As minhas Ilusões, doce tesoiro, Também as vi levar em urna de oiro, No mar da Vida, assim…uma por uma…
X
Eu queria mais altas as estrelas, Mais largo o espaço, o Sol mais criador, Mais refulgente a Lua, o mar maior, Mais cavadas as ondas e mais belas;
Mais amplas, mais rasgadas as janelas Das almas, mais rosais a abrir em flor, Mais montanhas, mais asas de condor, Mais sangue sobre a cruz das caravelas!
E abrir os braços e viver a vida: - Quanto mais funda e lúgubre a descida, Mais alta é a ladeira que não cansa!
E, acabada a tarefa…em paz, contente, Um dia adormecer, serenamente, Como dorme no berço uma criança!