A nossa casa, Amor, a nossa casa! Onde está ela, Amor, que não a vejo? Na minha doida fantasia em brasa Constrói-a, num instante, o meu desejo
Onde está ela, Amor, a nossa casa, O bem que neste mundo mais invejo? O brando ninho aonde o nosso beijo Será mais puro e doce que uma asa?
Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos. Andamos de mãos dadas, nos caminhos Duma terra de rosas, num jardim,
Num pais de ilusão que nunca vi... E que eu moro — tão bom! — dentro de ti E tu, ó meu Amor, dentro de mim...
Amar
Eu quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar: aqui... além... Mais Este e Aquele, ou Outro e toda a gente... Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente! ... Prender ou desprender? É mal? É bem? Quem disser que se pode amar alguém Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida: É preciso cantá-la assim florida, Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada Que seja a minha noite uma alvorada, Que me saiba perder... pra me encontrar...
Árvores do Alentejo
Horas mortas... Curvada aos pés do Monte A planície é um brasido e, torturadas, As árvores sangrentas, revoltadas, Gritam a Deus a benção duma fonte!
E quando, manhã alta, o sol posponte A oiro a giesta, a arder, pelas estradas, Esfíngicas, recortam desgrenhadas Os trágicos perfis no horizonte!
Árvores! Corações, almas que choram, Almas iguais à minha, almas que imploram Em vão remédio para tanta mágoa!
Árvores! Não choreis! Olhai e vede: --- Também ando a gritar, morta de sede, Pedindo a Deus a minha gota de água!
A Minha Dor
A minha dor é um convento ideal Cheio de claustros, sombras, arcarias, Aonde a pedra em convulsões sombrias Tem linhas de um requinte escultural.
Os sinos têm dobres d’agonias Ao gemer, comovidos, o seu mal… E todos têm sons de funeral Ao bater horas, no correr dos dias…
A minha dor é um convento. Há lírios Dum roxo macerado de martírios, Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento aonde eu moro, Noites e dias rezo e grito e choro! E ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…
As minhas ilusões
Hora sagrada dum entardecer De Outono, à beira mar, cor de safira, Soa no ar uma invisível lira... O sol é um doente a enlanguescer...
A vaga estende os braços a suster, Numa dor de revolta cheia de ira, A doirada cabeça que delira Num último suspiro, a estremecer!
O sol morreu... e veste luto o mar... E eu vejo a urna de oiro, a balouçar, À flor das ondas, num lençol de espuma.
As minhas ilusões, doce tesoiro, Também as vi levar em urnas de oiro, No mar da Vida, assim... uma por uma...
À morte
Morte, minha Senhora Dona Morte, Tão bom que deve ser o teu abraço! Lânguido e doce como um doce laço E como uma raiz, sereno e forte.
Não há mal que não sare ou não conforte Tua mão que nos guia passo a passo, Em ti, dentro de ti, no teu regaço Não há triste destino nem má sorte.
Dona Morte dos dedos de veludo, Fecha-me os olhos que já viram tudo! Prende-me as asas que voaram tanto!
Vim da Moirama, sou filha de rei, Má fada me encantou e aqui fiquei À tua espera... quebra-me o encanto
A tua voz na primavera
Manto de seda azul, o céu reflete Quanta alegria na minha alma vai! Tenho os meus lábios úmidos: tomai A flor e o mel que a vida nos promete!
Sinfonia de luz meu corpo não repete O ritmo e a cor dum mesmo beijo... olhai! Iguala o sol que sempre às ondas cai, Sem que a visão dos poentes se complete!
Meus pequeninos seios cor-de-rosa, Se os roça ou prende a tua mão nervosa, Têm a firmeza elástica dos gamos...
Para os teus beijos, sensual, flori! E amendoeira em flor, só ofereço os ramos, Só me exalto e sou linda para ti!
A mulher I
Um ente de paixão e sacrifício, De sofrimento cheio, eis a mulher! Esmaga o coração dentro do meu peito, E nem te doas coração, sequer!
Sê forte, corajoso, não fraquejes Na luta; sê em Vênus sempre Marte; Sempre o mundo é vil e infame o os homens
Se te sentem gemer hão de pisar-te! Se às vezes tu fraquejas, pobrezinho, Essa brancura ideal de puro arminho Eles deixam pra sempre maculada;
E gritam então os vis: “Olhem, vejam É aquela a infame! ” e apedrejam A pobrezita, a triste, a desgraçada!
A mulher II
Ó mulher! Como és fraca e como és forte! Como sabes ser doce e desgraçada! Como sabes fingir quando em teu peito A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosas duma imagem Adorada que amaram doidamente! Quantas e quantas almas endoidecem Enquanto a boca ri alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm Sem nunca o confessarem a ninguém Doces almas de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade Dum rei; amor de sonho e de saudade, Que se esvai e que foge num lamento!
Amiga
Deixa-me ser a tua amiga, Amor; A tua amiga só, já que não queres Que pelo teu amor seja a melhor A mais triste de todas as mulheres.
Que só, de ti, me venha mágoa e dor O que me importa a mim?! O que quiseres É sempre um sonho bom! Seja o que for Bendito sejas to por m’o dizeres!
Beija-me as mãos, Amor, devagarinho... Como se os dois nascêssemos irmãos, Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...
Beija-mas bem! ... Que fantasia louca Guardar assim, fechados nestas mãos, Os beijos que sonhei p’ra minha boca! ...
A um moribundo
Não tenhas medo, não! Tranqüilamente, Como adormece a noite pelo Outono, Fecha os teus olhos, simples, docemente, Como, à tarde, uma pomba que tem sono ...
A cabeça reclina levemente E os braços deixa-os ir ao abandono, Como tombam, arfando, ao sol poente, As asas de uma pomba que tem sono...
O que há depois? Depois?... O azul dos céus? Um outro mundo? O eterno nada? Deus? Um abismo? Um castigo? Uma guarida?
Que importa? Que te importa, ó moribundo? — Seja o que for, será melhor que o mundo! Tudo será melhor do que esta vida! ...
Ambiciosa
Para aqueles fantasmas que passaram, Vagabundos a quem jurei amar, Nunca os meus braços lânguidos traçaram O vôo dum gesto para os alcançar...
Se as minhas mãos em garra se cravaram Sobre um amor em sangue a palpitar... — Quantas panteras bárbaras mataram Só pelo raro gosto de matar!
Minha alma é como a pedra funerária Erguida na montanha solitária Interrogando a vibração dos céus!
O amor dum homem? — Terra tão pisada! Gota de chuva ao vento baloiçada... Um homem? — Quando eu sonho o amor dum deus!
A vida
É vão o amor, o ódio, ou o desdém; Inútil o desejo e o sentimento... Lançar um grande amor aos pés de alguém O mesmo é que lançar flores ao vento!
Todos somos no mundo «Pedro Sem», Uma alegria é feita dum tormento, Um riso é sempre o eco dum lamento, Sabe-se lá um beijo de onde vem!
A mais nobre ilusão morre... desfaz-se... Uma saudade morta em nós renasce Que no mesmo momento é já perdida...
Amar-te a vida inteira eu não podia. A gente esquece sempre o bem de um dia. Que queres, meu Amor, se é isto a vida!
Amor que morre
O nosso amor morreu... Quem o diria! Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta, Ceguinha de te ver, sem ver a conta Do tempo que passava, que fugia!
Bem estava a sentir que ele morria... E outro clarão, ao longe, já desponta! Um engano que morre... e logo aponta A luz doutra miragem fugidia...
Eu bem sei, meu Amor, que pra viver São precisos amores, pra morrer, E são precisos sonhos para partir.
E bem sei, meu Amor, que era preciso Fazer do amor que parte o claro riso De outro amor impossível que há-de vir!
À um livro
No silêncio de cinzas do meu Ser Agita-se uma sombra de cipreste, Sombra roubada ao livro que ando a ler, A esse livro de mágoas que me deste.
Estranho livro aquele que escreveste, Artista da saudade e do sofrer! Estranho livro aquele em que puseste Tudo o que sinto, sem poder dizer!
Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma! O livro que me deste é meu, e salma As orações que choro e rio e canto! ...
Poeta igual a mim, ai quem me dera Dizer o que tu dizes! ... Quem soubera Velar a minha Dor desse teu manto! ...
Alma perdida
Toda esta noite o rouxinol chorou, Gemeu, rezou, gritou perdidamente! Alma de rouxinol, alma de gente, Tu és, talvez, alguém que se finou!
Tu és, talvez, um sonho que passou, Que se fundiu na Dor, suavemente... Talvez sejas a alma, a alma doente D’alguém que quis amar e nunca amou!
Toda a noite choraste... e eu chorei Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei Que ninguém é mais triste do que nós!
Contaste tanta coisa à noite calma, Que eu pensei que eras tu a minh’alma Que chorasse perdida em tua voz! ...
Angústia
Tortura do pensar! Triste lamento! Quem nos dera calar a tua voz! Quem nos dera cá dentro, muito a sós, Estrangular a hidra num momento!
E não se quer pensar! ... e o pensamento Sempre a morder-nos bem, dentro de nós... Querer apagar no céu — ó sonho atroz! — O brilho duma estrela com o vento! ...
E não se apaga, não... nada se apaga! Vem sempre rastejando como a vaga... Vem sempre perguntando: “O que te resta?... ”
Ah! não ser mais que o vago, o infinito! Ser pedaço de gelo, ser granito, Ser rugido de tigre na floresta
A minha tragédia
Tenho ódio à luz e raiva à claridade Do sol, alegre, quente, na subida. Parece que minh’alma é perseguida Por um carrasco cheio de maldade!
Ó minha vã, inútil mocidade, Trazes-me embriagada, entontecida! ... Duns beijos que me deste noutra vida, Trago em meus lábios roxos, a saudade! ...
Eu não gosto do sol, eu tenho medo Que me leiam nos olhos o segredo De não amar ninguém, de ser assim!
Gosto da Noite imensa, triste, preta, Como esta estranha e doida borboleta Que eu sinto sempre a voltejar em mim! ...
Anseios
Meu doido coração aonde vais, No teu imenso anseio de liberdade? Toma cautela com a realidade; Meu pobre coração olha que cais!
Deixa-te estar quietinho! Não amais A doce quietação da soledade? Tuas lindas quimeras irreais, Não valem o prazer duma saudade!
Tu chamas ao meu seio, negra prisão! Ai, vê lá bem, ó doido coração, Não te deslumbre o brilho do luar!
Não ‘stendas tuas asas para o longe Deixa-te estar quietinho, triste monge, Na paz da tua cela, a soluçar.
À tua porta à um pinheiro manso
À tua porta há um pinheiro manso De cabeça pendida, a meditar, Amor! Sou eu, talvez, a contemplar Os doces sete palmos do descanso.
Sou eu que para ti atiro e lanço, Como um grito, meus ramos pelo ar, Sou eu que estendo os braços a chamar Meu sonho que se esvai e não alcanço.
Eu que do sol filtro os ruivos brilhos Sobre as louras cabeças dos teus filhos Quando o meio-dia tomba sobre a serra...
E, à noite, a sua voz dolente e vaga É o soluço da minha alma em chaga: Raiz morta de sede sob a terra!
A flor do sonho
A flor do sonho, alvíssima, divina Miraculosamente abriu em mim, Como se uma magnólia de cetim Fosse florir num muro todo em ruína.
Pende em meu seio a haste branda e fina. E não posso entender como é que, enfim, Essa tão rara flor abriu assim!... Milagre... fantasia... ou talvez, sina....
Ó flor, que em mim nasceste sem abrolhos, Que tem que sejam tristes os meus olhos Se eles são tristes pelo amor de ti?!...
Desde que em mim nasceste em noite calma, Voou ao longe a asa da minh´alma E nunca, nunca mais eu me entendi...
Anoitecer
A luz desmaia num fulgor d’aurora, Diz-nos adeus religiosamente... E eu que não creio em nada, sou mais crente Do que em menina, um dia, o fui... outrora...
Não sei o que em mim ri, o que em mim chora, Tenho bênçãos de amor pra toda a gente! E a minha alma, sombria e penitente Soluça no infinito desta hora!
Horas tristes que vão ao meu rosário... Ó minha cruz de tão pesado lenho! Ó meu áspero e intérmino Calvário!
E a esta hora tudo em mim revive: Saudades de saudades que não tenho... Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...
Alvorecer
A noite empalidece.Alvorecer... Ouve-se mais o gargalhar da fonte... Sobre a cidade muda, o horizonte É uma orquídea estranha a florescer.
Há andorinhas prontas a dizer A missa d´alva, mal o sol desponte. Gritos de galos soam monte em monte Numa intensa alegria de viver.
Passos ao longe...um vulto que se esvai... Em cada sombra Colombina trai... Anda o silêncio em volta a q´rer falar...
E o luar que desmaia, macerado, Lembra, pálido, tonto, esfarrapado, Um Pierrot, todo branco, a soluçar...
A voz da Tília
Diz-me a tília a cantar: "Eu sou sincera, Eu sou isto que vês: o sonho, a graça, Deu ao meu corpo, o vento, quando passa, Este ar escultural de bayadera...
E de manhã o sol é uma cratera, Uma serpente de ouro que me enlaça... Trago nas mãos as mãos da primavera... E é para mim que em noites de desgraça
Toca o vento Mozart, triste e solene, E à minha alma vibrante, posta a nu, Diz a chuva sonetos de Verlaine..."
E, ao ver-me triste, a tília murmurou: "Já fui um dia poeta como tu... Ainda hás de ser tília como eu sou..."
A maior tortura
A um grande poeta de Portugal! Na vida, para mim, não há deleite. Ando a chorar convulsa noite e dia ... E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite! E nem flor de lilás tenho que enfeite A minha atroz, imensa nostalgia! ... A minha pobre Mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite! Poeta, eu sou um cardo desprezado, A urze que se pisa sob os pés. Sou, como tu, um riso desgraçado!
Mas a minha tortura inda é maior: Não ser poeta assim como tu és Para gritar num verso a minha Dor! ...
Ao vento
O vento passa a rir, torna a passar, Em gargalhadas ásperas de demente; E esta minh’alma trágica e doente Não sabe se há-de rir, se há-de chorar!
Vento de voz tristonha, voz plangente, Vento que ris de mim sempre a troçar, Vento que ris do mundo e do amor, A tua voz tortura toda a gente! ...
Vale-te mais chorar, meu pobre amigo! Desabafa essa dor a sós comigo, E não rias assim ! ... Ó vento, chora!
Que eu bem conheço, amigo, esse fadário Do nosso peito ser como um Calvário, e a gente andar a rir pla vida fora!! ...
Blasfêmia
Cala-te... Escuta... Não me digas nada... Cai a noite nos longes donde vim... Toda eu sou alma e amor! Sou um jardim! Um pátio alucinante de Granada!
Dos meus cílios, a sombra enluarada, Quando os teus olhos descem sobre mim, Traça trémulas hastes de jasmim Na palidez da face extasiada!
Sou no teu rosto a luz que o alumia... Sou a expressão das tuas mãos de raça... E os beijos que me dás já foram meus...
Em ti sou glória, altura e poesia! E vejo-me (Oh, milagre cheio de graça! ) Dentro de ti, em ti, igual a Deus!
Balada
Amei-te muito, e eu creio que me quiseste Também por um instante nesse dia Em que tão docemente me disseste Que amavas ‘ma mulher que o não sabia.
Amei-te muito, muito! Tão risonho Aquele dia foi, aquela tarde!... E morreu como morre todo o sonho Deixando atrás de si só a saudade! ...
E na taça do amor, a ambrosia Da quimera bebi aquele dia A tragos bons, profundos, a cantar...
O meu sonho morreu... Que desgraçada! E como o rei de Thule da balada Deitei também a minha taça ao mar ...
Charneca em Flor
Enche o meu peito, num encanto mago, O frémito das coisas dolorosas... Sob as urzes queimadas nascem rosas... Nos meus olhos as lágrimas apago...
Anseio! Asas abertas! O que trago Em mim? Eu oiço bocas silenciosas Murmurar-me as palavras misteriosas Que perturbam meu ser como um afago!
E, nesta febre ansiosa que me invade, Dispo a minha mortalha, o meu bruel, E já não sou, Amor, Soror Saudade...
Olhos a arder em êxtases de amor, Boca a saber a sol, a fruto, a mel: Sou a charneca rude a abrir em flor!
Chama Quente
Gosto de ti apaixonadamente, De ti que és a vitória, a salvação, De ti que me trouxeste pela mão Até ao brilho desta chama quente.
A tua linda voz de água corrente Ensinou-me a cantar... e essa canção Foi ritmo nos meus versos de paixão, Foi graça no meu peito de descrente.
Bordão a amparar minha cegueira, Da noite negra o mágico farol, Cravos rubros a arder numa fogueira.
E eu, que era neste mundo uma vencida, Ergo a cabeça ao alto, encaro o Sol! - Águia real, apontas-me a subida!
Castelã da tristeza
Altiva e couraçada de desdém, Vivo sozinha em meu castelo: a Dor! Passa por ele a luz de todo o amor... E nunca em meu castelo entrou alguém!
Castela da Tristeza, vês?... A quem?... — E o meu olhar é interrogador — Perscruto ao longe as sombras do sol-pôr... Chora o silêncio... nada... ninguém vem...
Castelã da Tristeza, porque choras Lendo, toda de branco, um livro de horas, À sombra rendilhada dos vitrais?...
À noite, debruçada, p’las ameias, Porque rezas baixinho?... Porque anseias?... Que sonho afagam tuas mãos reais?...
Crucificada
Amiga ... noiva... irmã... o que quiseres! Por ti, todos os céus terão estrelas, Por teu amor, mendiga, hei-de merecê-las, Ao beijar a esmola que me deres.
Podes amar até outras mulheres! - Hei-de compor, sonhar palavras belas, Lindos versos de dor só para elas, Para em lânguidas noites lhes dizeres!
Crucificada em mim, sobre os meus braços, - Hei-de poisar a boca nos teus passos Pra não serem pisados por ninguém.
E depois... Ah! depois de dores tamanhas, Nascerás outra vez de outras entranhas, Nascerás outra vez de uma outra Mãe!
Chopin
Não se acende hoje a luz... Todo o luar Fique lá fora. Bem aparecidas As estrelas miudinhas, dando no ar As voltas dum cordão de margaridas!
Entram falenas meio entontecidas ... Lusco-fusco... Um morcego, a palpitar Passa... torna a passar... torna a passar As coisas têm o ar de adormecidas...
Mansinho ... Roça os dedos p’lo teclado, No vago arfar que tudo alteia e doira, Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!
E, enquanto o piano a doce queixa exala, Divina e triste, a grande sombra loira, Vem para mim da escuridão da sala ...
Caravelas
Cheguei a meio da vida já cansada De tanto caminhar! Já me perdi! Dum estranho país que nunca vi Sou neste mundo imenso a exilada.
Tanto tenho aprendido e não sei nada. E as torres de marfim que construí Em trágica loucura as destruí Por minhas próprias mãos de malfadada!
Se eu sempre fui assim este Mar morto: Mar sem marés, sem vagas e sem porto Onde velas de sonhos se rasgaram!
Caravelas doiradas a bailar... Ai quem me dera as que eu deitei ao Mar! As que eu lancei à vida, e não voltaram! ...
Conto de fadas
Eu trago-te nas mãos o esquecimento Das horas más que tens vivido, Amor! E para as tuas chagas o ungüento Com que sarei a minha própria dor.
Os meus gestos são ondas de Sorrento... Trago no nome as letras de uma flor... Foi dos meus olhos garços que um pintor Tirou a luz para pintar o vento...
Dou-te o que tenho: o astro que dormita, O manto dos crepúsculos da tarde, O sol que é de oiro, a onda que palpita.
Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez! — Eu sou Aquela de quem tens saudade, A princesa do conto: «Era uma vez... »
Cinzento
Poeiras de crepúsculos cinzentos. Lindas rendas velhinhas, em pedaços, Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços, Como brancos fantasmas, sonolentos...
Monges soturnos deslizando lentos, Devagarinho, em misteriosos passos... Perde-se a luz em lânguidos cansaços... Ergue-se a minha cruz dos desalentos!
Poeiras de crepúsculos tristonhos, Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos, A névoa das saudades que deixaste!
Hora em que teu olhar me deslumbrou... Hora em que a tua boca me beijou... Hora em que fumo e névoa te tornaste...
Crisântemos
Sombrios mensageiros das violetas, De longas e revoltas cabeleiras; Brancos, sois o casto olhar das virgens Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.
Vermelhos, gargalhadas triunfantes, Lábios quentes de sonhos e desejos, Carícias sensuais d´amor e gozo; Crisântemos de sangue, vós sois beijos!
Os amarelos riem amarguras, Os roxos dizem prantos e torturas, Há-os também cor de fogo, sensuais...
Eu amo os crisântemos misteriosos Por serem lindos, tristes e mimosos, Por ser a flor de que tu gostas mais!
Cravos Vermelhos
Bocas rubras de chama a palpitar, Onde fostes buscar a cor, o tom, Esse perfume doido a esvoaçar, Esse perfume capitoso e bom?!
Sois volúpias em flor! Ó gargalhadas Doidas de luz, ó almas feitas risos! Donde vem essa cor, ó desvairadas, Lindas flores d´esculturais sorrisos?!
...Bem sei vosso segredo...Um rouxinol Que vos viu nascer, ó flores do mal Disse-me agora: "Uma manhã, o sol,
O sol vermelho e quente como estriga De fogo, o sol do céu de Portugal Beijou a boca a uma rapariga..."
Cegueira bendita
Ando perdida nestes sonhos verdes De ter nascido e não saber quem sou, Ando ceguinha a tatear paredes E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago... E a minha alma cega, ao abandono Faz-me lembrar o nenúfar dum lago ´Stendendo as asas brancas cor do sonho...
Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo E não ver nada nesse mar sem fundo, Poetas meus irmãos, que triste sorte!...
E chamam-nos a nós Iluminados! Pobres cegos sem culpas, sem pecados, A sofrer pelos outros té à morte!
Crepúsculo
Teus olhos, borboletas de ouro, ardentes Borboletas de sol, de asas magoadas, Pousam nos meus, suaves e cansadas Como em dois lírios roxos e dolentes...
E os lírios fecham... Meu amor não sentes? Minha boca tem rosas desmaiadas, E a minhas pobres mãos são maceradas Como vagas saudades de doentes...
O silêncio abre as mãos... entorna rosas... Andam no ar carícias vaporosas Como pálidas sedas, arrastando...
E a tua boca rubra ao pé da minha É na suavidade da tardinha. Um coração ardente palpitando...
Desejos vãos
Eu queria ser o Mar de altivo porte Que ri e canta, a vastidão imensa! Eu queria ser a Pedra que não pensa, A pedra do caminho, rude e forte!
Eu queria ser o Sol, a luz imensa, O bem do que é humilde e não tem sorte! Eu queria ser a árvore tosca e densa Que ri do mundo vão e até a morte!
Mas o Mar também chora de tristeza ... As árvores também, como quem reza, Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!
E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia, Tem lágrimas de sangue na agonia! E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...
Dizeres íntimos
É tão triste morrer na minha idade! E vou ver os meus olhos, penitentes Vestidinhos de roxo, como crentes Do soturno convento da Saudade!
E logo vou olhar (com que ansiedade! ... ) As minhas mãos esguias, languescentes, De brancos dedos, uns bebés doentes Que hão-de morrer em plena mocidade!
E ser-se novo é ter-se o Paraíso, É ter-se a estrada larga, ao sol, florida, Aonde tudo é luz e graça e riso!
E os meus vinte e três anos... (Sou tão nova! ) Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida! ... ” Responde a minha Dor: “Que linda a cova! ... ”
Doce certeza
Por essa vida afora hás de adorar Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca, Em infinito anseio hás de beijar Estrelas d’oiro fulgindo em muita boca!
Hás de guardar em cofre perfumado Cabelos d’oiro e risos de mulher, Muito beijo d’amor apaixonado; E não te lembrarás de mim sequer! ...
Hás de tecer uns sonhos delicados... Hão de por muitos olhos magoados, Os teus olhos de luz andar imersos! ...
Mas nunca encontrarás p’la vida fora, Amor assim, como este amor que chora Neste beijo d’amor, que são meus versos!
De joelhos
‘Bendita seja a Mãe que te gerou. ’ Bendito o leite que te fez crescer. Bendito o berço aonde te embalou A tua ama, pra te adormecer!
Bendita essa canção que acalentou Da tua vida o doce alvorecer... Bendita seja a lua que inundou De luz, a terra, só para te ver...
Benditos sejam todos que te amarem, As que em volta de ti ajoelharem Numa grande paixão fervente e louca!
E se mais que eu, um dia, te quiser Alguém, bendita seja essa Mulher, Bendito seja o beijo dessa boca! !
Dize-me amor, como te sou querida
Dize-me, amor, como te sou querida, Conta-me a glória do teu sonho eleito, Aninha-me a sorrir junto ao teu peito, Arranca-me dos pântanos da vida.
Embriagada numa estranha lida, Trago nas mãos o coração desfeito, Mostra-me a luz, ensina-me o preceito Que me salve e levante redimida!
Nesta negra cisterna em que me afundo, Sem quimeras, sem crenças, sem turnura, Agonia sem fé dum moribundo,
Grito o teu nome numa sede estranha, Como se fosse, amor, toda a frescura Das cristalinas águas da montanha!
Eu
Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte, Sou a irmã do sonho, e desta sorte Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa ténue e esvaecida, E que o destino amargo, triste e forte, Impele brutalmente para a morte! Alma de luto sempre incompreendida! ...
Sou aquela que passa a ninguém vê... Sou a que chamam triste sem o ser... Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo pra me ver E que nunca na vida me encontrou!
Em busca do amor
O meu Destino disse-me a chorar: “Pela estrada da Vida vai andando, E, aos que vires passar, interrogando Acerca do Amor, que hás-de encontrar.”
Fui pela estrada a rir e a cantar, As contas do meu sonho desfilando ... E noite e dia, à chuva e ao luar, Fui sempre caminhando e perguntando ...
Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho, Viste o Amor acaso em teu caminho?” E o velho estremeceu ... olhou ... e riu ...
Agora pela estrada, já cansados, Voltam todos pra trás desanimados ... E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu! ...”
Escrava
Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor, Eu te saúdo, olhar do meu olhar, Fala da minha boca a palpitar, Gesto das minhas mãos tontas de amor!
Que te seja propicio o astro e a flor, Que a teus pés se incline a terra e o mar, P’los séculos dos séculos sem par, Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor!
Eu, doce e humilde escrava, te saúdo, E, de mãos postas, em sentida prece, Canto teus olhos de oiro e de veludo.
Ah, esse verso imenso de ansiedade, Esse verso de amor que te fizesse Ser eterno por toda a Eternidade! ...
Esquecimento
Esse de quem eu era e que era meu, Que foi um sonho e foi realidade Que me vestiu a alma de saudade, Para sempre de mim desapar’ceu.
Tudo em redor então escureceu, E foi longínqua toda a claridade! Ceguei,... tacteio sombras... Que ansiedade! Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro. A sombra dos meus olhos, a escurecer... Veste de roxo e negro os crisântemos...
E desse que era meu já me não lembro... Ah, a doce agonia de esquecer A lembrar doidamente o que esquecemos!
Espera
Não me digas adeus, ó sombra amiga, Abranda mais o ritmo dos teus passos; Sente o perfume da paixão antiga, Dos nossos bons e cândidos abraços!
Sou a dona dos místicos cansaços, A fantástica e estranha rapariga Que um dia ficou presa nos teus braços.. Não vás ainda embora, ó sombra amiga!
Teu amor fez de mim um lago triste: Quantas ondas a rir que não lhe ouviste, Quanta canção de ondinas lá no fundo!
Espera... espera... ó minha sombra amada... Vê que pra além de mim já não há nada E nunca mais me encontras neste mundo! ...
Escreve-me
Escreve-me! Ainda que seja só Uma palavra, uma palavra apenas, Suave como o teu nome e casta Como um perfume casto d’açucenas!
Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo Que te não vejo, amor! Meu coração Morreu já,e no mundo aos pobres mortos Ninguém nega uma frase d’oração!
“Amo-te! ” Cinco letras pequeninas, Folhas leves e tenras de boninas, Um poema d’amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas? Olha, manda então... brandas... serenas... Cinco pétalas roxas de saudade...
Exaltação
Viver! ... Beber o vento e o sol! ... Erguer Ao Céu os corações a palpitar! Deus fez os nossos braços pra prender, E a boca fez-se sangue pra beijar!
A chama, sempre rubra, ao alto, a arder! ... Asas sempre perdidas a pairar, Mais alto para as estrelas desprender! ... A glória! ... A fama! ... O orgulho de criar! ...
Da vida tenho o mel e tenho os travos No lago dos meus olhos de violetas, Nos meus beijos extáticos, pagãos! ...
Trago na boca o coração dos cravos! Boémios, vagabundos, e poetas: — Como eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos! ...
Errante
Meu coração da cor dos rubros vinhos Rasga a mortalha do meu peito brando E vai fugindo, e tonto vai andando A perder-se nas brumas dos caminhos.
Meu coração o místico profeta, O paladino audaz da desventura, Que sonha ser um santo e um poeta, Vai procurar o Paço da Ventura...
Meu coração não chega lá decerto... Não conhece o caminho nem o trilho, Nem há memória desse sítio incerto...
Eu tecerei uns sonhos irreais... Como essa mãe que viu partir o filho, Como esse filho que não voltou mais!
Este livro
Este livro é de mágoas. Desgraçados Que no mundo passais, chorai ao lê-lo! Somente a vossa dor de Torturados Pode, talvez, senti-lo ... e compreendê-lo.
Este livro é para vós. Abençoados Os que o sentirem , sem ser bom nem belo! Bíblia de tristes ... Ó Desventurados, Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!
Livro de Mágoas ... Dores ... Ansiedades! Livro de Sombras ... Névoas e Saudades! Vai pelo mundo ... (Trouxe-o no meu seio ...)
Irmãos na Dor, os olhos rasos de água, Chorai comigo a minha imensa mágoa, Lendo o meu livro só de mágoas cheio! ...
Em vão
Passo triste na vida e triste sou, Um pobre a quem jamais quiseram bem! Um caminhante exausto que passou, Que não diz onde vai nem de onde vem.
Ah! Sem piedade, a rir, tanto desdém A flor da minha boca desdenhou! Solitário convento onde ninguém A silenciosa cela procurou!
E eu quero bem a tudo, a toda a gente... Ando a amar assim, perdidamente, A acalentar o mundo nos meus braços!
E tem passado em vão, a mocidade Sem que no meu caminho uma saudade Abra em flores a sombra dos meus passos!
È um não querer mais que bem querer
I Gosto de ti apaixonadamente, De ti que és a vitória, a salvação, De ti que me trouxeste pela mão Até ao brilho desta chama quente.
A tua linda voz de água corrente Ensinou-me a cantar... e essa canção Foi ritmo nos meus versos de paixão, Foi graça no meu peito de descrente.
Bordão a amparar minha cegueira, Da noite negra o mágico farol, Cravos rubros a arder numa fogueira.
E eu, que era neste mundo uma vencida, Ergo a cabeça ao alto, encaro o Sol! — Águia real, apontas-me a subida!
II Meu amor, meu Amado, vê... repara: Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim, — Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara Para nunca os contares até ao fim.
Meus olhos têm tons de pedra rara — É só para teu bem que os tenho assim — E as minhas mãos são fontes de água clara A cantar sobre a sede dum jardim.
Sou triste como a folha ao abandono Num parque solitário, pelo Outono, Sobre um lago onde vogam nenufares...
Deus fez-me atravessar o teu caminho... — Que contas dás a Deus indo sozinho, Passando junto a mim, sem me encontrares?
III Frémito do meu corpo a procurar-te, Febre das minhas mãos na tua pele Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel, Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,
Olhos buscando os teus por toda a parte, Sede de beijos, amargor de fel, Estonteante fome, áspera e cruel, Que nada existe que a mitigue e a farte!
E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma Junto da minha, uma lagoa calma, A dizer-me, a cantar que me não amas...
E o meu coração que tu não sentes, Vai boiando ao acaso das correntes, Esquife negro sobre um mar de chamas
IV És tu! És tu! Sempre vieste, enfim! Oiço de novo o riso dos teus passos! És tu que eu vejo a estender-me os braços Que Deus criou pra me abraçar a mim!
Tudo é divino e santo visto assim... Foram-se os desalentos, os cansaços... O mundo não é mundo: é um jardim! Um céu aberto: longes, os espaços!
Prende-me toda, Amor, prende-me bem! Que vês tu em redor? Não há ninguém! A Terra? — Um astro morto que flutua...
Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente, Tudo o que é vida e vibra eternamente É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!
V Dize-me, Amor, como te sou querida, Conta-me a glória do teu sonho eleito, Aninha-me a sorrir junto ao teu peito, Arranca-me dos pântanos da vida.
Embriagada numa estranha lida, Trago nas mãos o coração desfeito. Mostra-me a luz, ensina-me o preceito Que me salve e levante redimida!
Nesta negra cisterna em que me afundo, Sem quimeras, sem crenças, sem ternura, Agonia sem fé dum moribundo,
Grito o teu nome, numa sede estranha, Como se fosse, Amor, toda a frescura Das cristalinas águas da montanha!
VI Falo de ti às pedras das estradas, E ao sol que é loiro como o teu olhar, Falo ao rio, que desdobra a faiscar, Vestidos de Princesas e de Fadas;
Falo às gaivotas de asas desdobradas, Lembrando lenços brancos a acenar, E aos mastros que apunhalam o luar Na solidão das noites consteladas;
Digo os anseios, os sonhos, os desejos De onde a tua alma, tonta de vitória, Levanta ao céus a torre dos meus beijos!
E os meus gritos de amor, cruzando o espaço, Sobre os brocados fúlgidos da glória, São astros que me tombam do regaço!
VII São mortos os que nunca acreditaram Que esta vida é somente uma passagem, Um atalho sombrio, uma paisagem Onde os nossos sentidos se pousaram.
São mortos os que nunca alevantaram De entre escombros e Torre de Menagem Dos seus sonhos de orgulho e de coragem, E os que não riram e os que não choraram.
Que Deus faça de mim, quando eu morrer, Quando eu partir para o País da Luz, A sombra calma de um entardecer,
Tombando, em doces pregas de mortalha, Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz, Na solidão dum campo de batalha!
VIII Abrir os olhos, procurar a luz, De coração erguido no alto, em chama, Que tudo neste mundo se reduz A ver os astros cintilar na lama!
Amar o sol da glória e a voz da fama Que em clamorosos gritos se traduz! Com misericórdia, amar quem nos não ama, E deixar que nos preguem numa cruz!
Sobre um sonho desfeito erguer a torre Doutro sonho mais alto e, se esse morre, Mais outro e outro ainda, toda a vida!
Que importa que nos vençam desenganos, Se pudermos contar os nossos anos Assim como degraus duma subida?
IX Perdi os meu fantásticos castelos Como névoa distante que se esfuma... Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: Quebrei as minhas lanças uma a uma!
Perdi minhas galeras entre gelos Que se afundaram sobre um mar de bruma... — Tantos escolhos! Quem podia vê-los? Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!
Perdi a minha taça, o meu anel, A minha cota de aço, o meu corcel, Perdi meu elmo de oiro e pedrarias...
Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... Sobre o meu coração pesam montanhas... Olho assombrada as minhas mãos vazias...
X Eu queria mais altas as estrelas, Mais largo o espaço, o Sol mais criador, Mais refulgente a Lua, o mar maior, Mais cavadas as ondas e mais belas;
Mais amplas, mais rasgadas as janelas Das almas, mais rosais a abrir em flor, Mais montanhas, mais asas de condor, Mais sangue sobre a cruz das caravelas!
E abrir os braços e viver a vida: — Quanto mais funda e lúgubre a descida, Mais alta é a ladeira que não cansa!
E, acabada a tarefa... em paz, contente, Um dia adormecer, serenamente, Como dorme no berço uma criança!
Fumo
Longe de ti são ermos os caminhos, Longe de ti não há luar nem rosas, Longe de ti há noites silenciosas, Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
Meus olhos são dois velhos pobrezinhos Perdidos pelas noites invernosas... Abertos, sonham mãos cariciosas, Tuas mãos doces, plenas de carinhos!
Os dias são Outonos: choram... choram... Há crisântemos roxos que descoram... Há murmúrios dolentes de segredos...
Invoco o nosso sonho! Estendo os braços! E ele é, ó meu Amor, pelos espaços, Fumo leve que foge entre os meus dedos!...
Fanatismo
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida Meus olhos andam cegos de te ver! Não és sequer razão de meu viver, Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida... Passo no mundo, meu Amor, a ler No misterioso livro do teu ser A mesma história tantas vezes lida!
Tudo no mundo é frágil, tudo passa... Quando me dizem isto, toda a graça Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros: Ah! Podem voar mundos, morrer astros, Que tu és como Deus: princípio e fim!...
Folhas de rosa
Todas as prendas que me deste, um dia, Guardei-as, meu encanto, quase a medo, E quando a noite espreita o pôr-do-sol, Eu vou falar com elas em segredo...
E falo-lhes d’amores e de ilusões, Choro e rio com elas, mansamente... Pouco a pouco o perfume do outrora Flutua em volta delas, docemente...
Pelo copinho de cristal e prata Bebo uma saudade estranha e vaga, Uma saudade imensa e infinita Que, triste, me deslumbra e m’embriaga
O espelho de prata cinzelada, A doce oferta que eu amava tanto, Que reflectia outrora tantos risos, E agora reflecte apenas pranto,
E o colar de pedras preciosas, De lágrimas e estrelas constelado, Resumem em seus brilhos o que tenho De vago e de feliz no meu passado...
Mas de todas as prendas, a mais rara, Aquela que mais fala à fantasia, São as folhas daquela rosa branca Que a meus pés desfolhaste, aquele dia...
Frémito do meu corpo
Frémito do meu corpo a procurar-te, Febre das minhas mãos na tua pele Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel, Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,
Olhos buscando os teus por toda a parte, Sede de beijos, amargor de fel, Estonteante fome, áspera e cruel, Que nada existe que a mitigue e a farte!
E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma Junto da minha, uma lagoa calma, A dizer-me, a cantar que me não amas...
E o meu coração que tu não sentes, Vai boiando ao acaso das correntes, Esquife negro sobre um mar de chamas...
Frieza
Os teus olhos são frios como espadas, E claros como os trágicos punhais; Têm brilhos cortantes de metais E fulgores de lâminas geladas.
Vejo neles imagens retratadas De abandonos cruéis e desleais, Fantásticos desejos irreais, E todo o oiro e o sol das madrugadas!
Mas não te invejo, Amor, essa indiferença, Que viver neste mundo sem amar É pior que ser cego de nascença!
Tu invejas a dor que vive em mim! E quanta vez dirás a soluçar: “Ah! Quem me dera, Irmã, amar assim! ... ”
Falo de ti as pedras das estradas
Falo de ti às pedras das estradas, E ao sol que e louro como o teu olhar, Falo ao rio, que desdobra a faiscar, Vestidos de princesas e de fadas;
Falo às gaivotas de asas desdobradas, Lembrando lenços brancos a acenar, E aos mastros que apunhalam o luar Na solidão das noites consteladas;
Digo os anseios, os sonhos, os desejos Donde a tua alma, tonta de vitória, Levanta ao céu a torre dos meus beijos!
Horas Rubras
Horas profundas, lentas e caladas Feitas de beijos sensuais e ardentes, De noites de volúpia, noites quentes Onde há risos de virgens desmaiadas…
Ouço as olaias rindo desgrenhadas… Tombam astros em fogo, astros dementes. E do luar os beijos languescentes São pedaços de prata p'las estradas…
Os meus lábios são brancos como lagos… Os meus braços são leves como afagos, Vestiu-os o luar de sedas puras…
Sou chama e neve branca misteriosa… E sou talvez, na noite voluptuosa, Ó meu Poeta, o beijo que procuras
Humildade
Toda a terra que pisas, eu qu’ria ajoelhada, Beijar terna e humilde em lânguido fervor; Qu’ria poisar fervente a boca apaixonada Em cada passo teu, ó meu bendito amor!
De cada beijo meu, havia de nascer Uma sangrenta flor! Ébria de luz, ardente! No colo purpurino havia de trazer Desfeito no perfume o mist’rioso Oriente!
Qu’ria depois colher essas flores reais, Essas flores de sonho, entranhas, sensuais, E lançar-tas aos pés em perfumados molhos.
Bem paga ficaria, ó meu cruel amante! Se, sobre elas, eu visse apenas uma instante Cair como um orvalho os teus divinos Olhos!
Impossível
Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste: "Parece Sexta-feira da Paixão. Sempre a cismar, cismar, d´olhos no chão, Sempre a pensar na dor que não existe...
O que é que tem?! Tão nova e sempre triste! Faça por ´star contente! Pois então?!..." Quando se sofre, o que se diz é vão... Meu coração, tudo, calado ouviste...
Os meus males ninguém mos adivinha... A minha dor não fala, anda sozinha... Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!...
Os males d´Anto toda a gente os sabe! Os meus...ninguém...A minha dor não cabe Nos cem milhões de versos que eu fizera!...
Inconstância
Procurei o amor, que me mentiu. Pedi à Vida mais do que ela dava; Eterna sonhadora edificava Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu, E tanto beijo a boca me queimava! E era o sol que os longes deslumbrava Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer... Atrás do sol dum dia outro a aquecer As brumas dos atalhos por onde ando...
E este amor que assim me vai fugindo É igual a outro amor que vai surgindo, Que há-de partir também... nem eu sei quando...
Interrogação
Neste tormento inútil, neste empenho De tornar em silêncio o que em mim canta, Sobem-me roucos brados à garganta Num clamor de loucura que contenho.
Ó alma da charneca sacrossanta, Irmã da alma rútila que eu tenho, Dize para onde eu vou, donde é que venho Nesta dor que me exalta e me alevanta!
Visões de mundos novos, de infinitos, Cadências de soluços e de gritos, Fogueira a esbrasear que me consome!
Dize que mão é esta que me arrasta? Nódoa de sangue que palpita e alastra... Dize de que é que eu tenho sede e fome?!
Junquilhos
Nessa tarde mimosa de saudade Em que eu te vi partir, ó meu amor, Levaste-me a minh'alma apaixonada Nas folhas perfumadas duma flor.
E como a alma, dessa florzita, Que é minha, por ti palpita amante! Oh alma doce, pequenina e branca, Conserva o teu perfume estonteante!
Quando fores velha, emurchecida e triste, Recorda ao meu amor, com teu perfume A paixão que deixou e qu'inda existe...
Ai, dize-lhe que se lembre dessa tarde, Que venha aquecer-se ao brando lume Dos meus olhos que morrem de saudade!
E os meus gritos de amor, cruzando o espaço, Sobre os brocados fúlgidos da glória, São astros que me tombam do regaço!
Languidez
Tardes da minha terra, doce encanto, Tardes de uma pureza de açucenas, Tardes de sonho, as tardes de novenas, Tardes de Portugal, as tardes de Anto,
Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto! Horas benditas, leves como penas, Horas de fumo e cinza, horas serenas, Minhas horas de dor em que eu sou santo!
Fecho as pálpebras roxas, quase pretas, Que poisam sobre duas violetas, Asas levas cansadas de voar...
E a minha boca tem uns beijos mudos... E as minhas mãos, uns pálidos veludos, Traçam gestos de sonho pelo ar...
Loucura
Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada Pavorosa! Não sei onde era dantes. Meu solar, meus palácios, meus mirantes! Não sei de nada, Deus, não sei de nada! ...
Passa em tropel febril a cavalgada Das paixões e loucuras triunfantes! Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes! Não tenho nada, Deus, não tenho nada! ...
Pesadelos de insônia, ébrios de anseio! Loucura a esboçar-se, a enegrecer Cada vez mais as trevas do meu seio!
Ó pavoroso mal de ser sozinha! Ó pavoroso e atroz mal de trazer Tantas almas a rir dentro da minha!
Lágrimas ocultas
Se me ponho a cismar em outras eras Em que ri e cantei, em que era querida, Parece-me que foi noutras esferas, Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida, Que dantes tinha o rir das primaveras, Esbate as linhas graves e severas E cai num abandono de esquecida!
E fico pensativa, olhando o vago... Toma a brandura plácida de um lago O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma, Ninguém as vê brotar dentro da alma, Ninguém as vê cair dentro de mim!
Mendiga
Na vida nada tenho e nada sou; Eu ando a mendigar pelas estradas... No silêncio das noites estreladas Caminho, sem saber para onde vou!
Tinha o manto do sol... quem mo roubou?! Quem pisou minhas rosas desfolhadas?! Quem foi que sobre as ondas revoltadas A minha taça de ouro espedaçou?
Agora vou andando e mendigando, Sem que um olhar dos mundos infinitos Veja passar o verme, rastejando...
Ah, quem me dera ser como os chacais Uivando os brados, rouquejando os gritos Na solidão dos ermos matagais!...
Mais triste
É triste, diz a gente, a vastidão Do mar imenso! E aquela voz fatal Com que ele fala, agita o nosso mal! E a Noite é triste como a Extrema-Unção!
É triste e dilacera o coração Um poente do nosso Portugal! E não vêem que eu sou ... eu ... afinal, A coisa mais magoada das que são?! ...
Poentes de agonia trago-os eu Dentro de mim e tudo quanto é meu É um triste poente de amargura!
E a vastidão do Mar, toda essa água Trago-a dentro de mim num mar de Mágoa! E a noite sou eu própria! A Noite escura!!
Minha culpa
A Artur Ledesma
Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem... Sou um reflexo... um canto de paisagem Ou apenas cenário! Um vaivém...
Como a sorte, hoje aqui, depois além! Sei lá quem sou?! Sei lá! Sou a roupagem Dum doido que partiu numa romagem E nunca mais voltou! Eu sei lá quem! ...
Sou um verme que um dia quis ser astro... Uma estátua truncada de alabastro... Uma chaga sangrenta do Senhor...
Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados, Num mundo de vaidades e pecados, Sou mais um mau, sou mais um pecador...
Mistério
Gosto de ti, ó chuva, nos beirados, Dizendo coisas que ninguém entende! Da tua cantilena se desprende Um sonho de magia e de pecados.
Dos teus pálidos dedos delicados Uma alada canção palpita e ascende, Frases que a nossa boca não aprende, Murmúrios por caminhos desolados.
Pelo meu rosto branco, sempre frio, Fazes passar o lúgubre arrepio Das sensações estranhas, dolorosas…
Talvez um dia entenda o teu mistério… Quando, inerte, na paz do cemitério, O meu corpo matar a fome às rosas!
Mocidade
A mocidade esplêndida, vibrante, Ardente, extraordinária, audaciosa, Que vê num cardo a folha duma rosa, Na gota de água o brilho dum diamante;
Essa que fez de mim Judeu Errante Do espírito, a torrente caudalosa, Dos vendavais irmã tempestuosa, — Trago-a em mim vermelha, triunfante!
No meu sangue rubis correm dispersos: — Chamas subindo ao alto nos meus versos, Papoilas nos meus lábios a florir!
Ama-me doida, estonteadoramente, Ó meu Amor! que o coração da gente É tão pequeno... e a vida, água a fugir...
Não ser
Quem me dera voltar à inocência Das coisas brutas, sãs, inanimadas, Despir o vão orgulho, a incoerência: — Mantos rotos de estátuas mutiladas!
Ah! Arrancar às carnes laceradas Seu mísero segredo de consciência! Ah! Poder ser apenas florescência De astros em puras noites deslumbradas!
Ser nostálgico choupo ao entardecer, De ramos graves, plácidos, absortos Na mágica tarefa de viver!
Ser haste, seiva, ramaria inquieta, Erguer ao sol o coração dos mortos Na urna de oiro de uma flor aberta! ...
Noite trágica
O pavor e a angústia andam dançando... Um sino grita endechas de poentes... Na meia-noite d´hoje, soluçando, Que presságios sinistros e dolentes!...
Tenho medo da noite!... Padre nosso Que estais no céu... O que minh´alma teme! Tenho medo da noite!... Que alvoroço Anda nesta alma enquanto o sino geme!
Jesus! Jesus, que noite imensa e triste! A quanta dor a nossa dor resiste Em noite assim que a própria dor parece...
Ó noite imensa, ó noite do Calvário, Leva contigo envolto no sudário Da tua dor a dor que me não ´squece!
Neurastênica
Sinto hoje a alma cheia de tristeza! Um sino dobra em mim Ave-Marias! Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias, Faz na vidraça rendas de Veneza...
O vento desgrenhado chora e reza Por alma dos que estão nas agonias! E flocos de neve, aves brancas, frias, Batem as asas pela Natureza...
Chuva... tenho tristeza! Mas porquê?! Vento... tenho saudades! Mas de quê?! Ó neve que destino triste o nosso!
Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura! Gritem ao mundo inteiro esta amargura, Digam isto que sinto que eu não posso! ! ...
Nocturno
Amor! Anda o luar todo bondade, Beijando a terra, a desfazer-se em luz. . Amor! São os pés brancos de Jesus Que andam pisando as ruas da cidade!
E eu ponho-me a pensar ... Quanta saudade Das ilusões e risos que em ti pus! Traçaste em mim os braços duma cruz, Neles pregaste a minha mocidade!
Minh’alma, que eu te dei, cheia de mágoas, É nesta noite o nenúfar dum lago ‘Stendendo as asas brancas sobre as águas!
Poisa as mãos nos meus olhos, com carinho, Fecha-os num beijo dolorido e vago... E deixa-me chorar devagarinho ...
Nostalgia
Nesse País de lenda, que me encanta, Ficaram meus brocados, que despi, E as jóias que p’las aias reparti Como outras rosas de Rainha Santa!
Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta! Foi por lá que as semeei e que as perdi... Mostrem-se esse País onde eu nasci! Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!
Ó meu País de sonho e de ansiedade, Não sei se esta quimera que me assombra, É feita de mentira ou de verdade!
Quero voltar! Não sei por onde vim... Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra Por entre tanta sombra igual a mim!
Navios fantasmas
O arabesco fantástico do fumo Do meu cigarro traça o que disseste, A azul, no ar, e o que me escreveste, E tudo o que sonhastes e eu presumo.
Para a minha alma estática e sem rumo, A lembrança de tudo o que me deste Passa como o navio que perdestes,
No arabesco fantástico do fumo... Lá vão! Lá vão! Sem velas e sem mastros, Têm o brilho rutilante de astros,
Navios-fantasmas, perdem-se a distância! Vão-me buscar, sem mastros e sem velas, Noiva-menina, a doidas caravelas,
Noite de saudade
A Noite vem poisando devagar Sobre a Terra, que inunda de amargura... E nem sequer a benção do luar A quis tornar divinamente pura...
Ninguém vem atrás dela a acompanhar A sua dor que é cheia de tortura... E eu oiço a Noite imensa soluçar! E eu oiço soluçar a Noite escura!
Porque és assim tão escura, assim tão triste?! é que, talvez, ó Noite, em ti existe Uma saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu sei donde me vem... Talvez de ti, ó Noite! ... Ou de ninguém! ... Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!
Nihil novum
Na penumbra do pórtico encantado De Bruges, noutras eras, já vivi; Vi os templos do Egito com Loti; Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.
No horizonte de bruma opalizado, Frente ao Bósforo errei, pensando em ti! O silêncio dos claustros conheci Pelos poentes de nácar e brocado...
Mordi as rosas brancas de Ispaã E o gosto a cinza em todas era igual! Sempre a charneca bárbara e deserta,
Triste, a florir, numa ansiedade vã! Sempre da vida ? o mesmo estranho mal, E o coração ? a mesma chaga aberta!
Os versos que te fiz
Deixa dizer-te os lindos versos raros Que a minha boca tem pra te dizer! São talhados em mármore de Paros Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros, São como sedas pálidas a arder... Deixa dizer-te os lindos versos raros Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda... Que a boca da mulher é sempre linda Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto! E nunca te beijei... E nesse beijo, Amor, que eu te não dei Guardo os versos mais lindos que te fiz!
Os teus Olhos
Olhos do meu amor! Infantes loiros Que trazem os meus presos, endoidados! Neles deixei, um dia, os meus tesoiros: Meus anéis, minhas rendas meus brocados.
Neles ficaram meus palácios moiros, Meus carros de combate, destroçados, Os meus diamentes, todos os meus oiros Que trouxe d'Além-Mundos ignorados!
Olhos do meu amor! Fontes... cisternas... Enigmáticas campas medievais... Jardins de Espanha... catedrais eternas...
Berço vindo do céu à minha porta... Ó meu leito de núpcias irreais!... Meu sumptuoso túmulo de morta!...
O meu orgulho
Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera Não me lembrar! Em tardes dolorosas Lembro-me que fui a Primavera Que em muros velhos faz nascer as rosas!
As minhas mãos outrora carinhosas Pairavam como pombas... Quem soubera Porque tudo passou e foi quimera, E porque os muros velhos não dão rosas!
O que eu mais amo é que mais me esquece... E eu sonho: ‘Quem olvida não merece... ’ E já não fico tão abandonada!
Sinto que valho mais, mais pobrezinha: Que também é orgulho ser sozinha, E também é nobreza não ter nada!
Ódio
Ódio por Ele? Não... Se o amei tanto, Se tanto bem lhe quis no meu passado, Se o encontrei depois de o ter sonhado, Se à vida assim roubei todo o encanto,
Que importa se mentiu? E se hoje o pranto Turva o meu triste olhar, marmorizado, Olhar de monja, trágico, gelado Com um soturno e enorme Campo Santo!
Nunca mais o amar já é bastante! Quero senti-lo doutra, bem distante, Como se fora meu, calma e serena!
Ódio seria em mim saudade infinda, Mágoa de o ter perdido, amor ainda! Ódio por Ele? Não... não vale a pena...
O meu desejo
Vejo-te só a ti no azul dos céus, Olhando a nuvem de oiro que flutua. Ó minha perfeição que criou Deus E que num dia lindo me fez sua!
Nos vultos que diviso pela rua, Que cruzam os seus passos com os meus... Minha boca tem fome só da tua! Meus olhos têm sede só dos teus!
Sombra da tua sombra, doce e calma, Sou a grande quimera da tua alma E, sem viver, ando a viver contigo...
Deixa-me andar assim no teu caminho Por toda a vida, Amor, devagarinho, Até a morte me levar consigo...
O maior bem
Este querer-te bem sem me quereres, Este sofrer por ti constantemente, Andar atrás de ti sem tu me veres Faria piedade a toda a gente.
Mesmo a beijar-me a tua boca mente... Quantos sangrentos beijos de mulheres Poisa na minha a tua boca ardente, E quanto engano nos seus vãos dizeres! ...
Mas que me importa a mim que me não queiras. Se esta pena, esta dor, estas canseiras, Este misero pungir, árduo e profundo
Do teu frio desamor, dos teus desdéns, É, na vida, o mais alto dos meus bens? É tudo quanto eu tenho neste mundo?
O meu mal
A meu irmão
Eu tenho lido em mim, sei-me de cor, Eu sei o nome ao meu estranho mal: Eu sei que fui a renda dum vitral, Que fui cipreste, e caravela, e dor!
Fui tudo que no mundo há de maior, Fui cisne, e lírio, e águia, e catedral! Eu fui, talvez, um verso de Nerval, Ou um cínico riso de Chanfort...
Fui a heráldica flor de agrestes cardos, Deram as minhas mãos aroma aos nardos... Deu cor ao aloendro a minha boca...
Ah! De Boabdil fui lágrima na Espanha! E foi de lá que eu trouxe esta ânsia estranha! Mágoa não sei de quê! Saudade louca!
O nosso mundo
Eu bebo a vida, a vida, a longos tragos Como um divino vinho de Falerno! Pousando em ti o meu olhar eterno Como pousam as folhas sobre os lagos...
Os meus sonhos agora são mais vagos... O teu olhar em mim, hoje, é mais terno... E a vida já não é o rubro inferno Todo fantasmas tristes e pressagos!
A vida, meu amor, quero vivê-la! Na mesma taça erguida em tuas mãos, Bocas unidas, hemos de bebê-la!
Que importa o mundo e as ilusões defuntas?... Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?... O mundo, amor! ... As nossas bocas juntas!...
O teu olhar
Passam no teu olhar nobres cortejos, Frotas, pendões ao vento sobranceiros, Lindos versos de antigos romanceiros, Céus do Oriente, em brasa, como beijos,
Mares onde não cabem teus desejos; Passam no teu olhar mundos inteiros, Todo um povo de heróis e marinheiros, Lanças nuas em rútilos lampejos;
Passam lendas e sonhos e milagres! Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres, Em centelhas de crença e de certeza!
E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim, Amor, julgo trazer dentro de mim Um pedaço da terra portuguesa!
Os meus versos
Rasga esses versos que eu te fiz, amor! Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento, Que a cinza os cubra, que os arraste o vento, Que a tempestade os leve aonde for!
Rasga-os na mente, se os souberes de cor, Que volte ao nada o nada de um momento! Julguei-me grande pelo sentimento, E pelo orgulho ainda sou maior!...
Tanto verso já disse o que eu sonhei! Tantos penaram já o que eu penei! Asas que passam, todo o mundo as sente...
Rasgas os meus versos... Pobre endoidecida! Como se um grande amor cá nesta vida Não fosse o mesmo amor de toda a gente!...
O meu soneto
Em atitudes e em ritmos fleugmáticos, Erguendo as mãos em gestos recolhidos, Todos brocados fúlgidos, hieráticos, Em ti andam bailando os meus sentidos...
E os meus olhos serenos, enigmáticos Meninos que na estrada andam perdidos, Dolorosos, tristíssimos, extáticos, São letras de poemas nunca lidos...
As magnólias abertas dos meus dedos São mistérios, são filtros, são enredos Que pecados d´amor trazem de rastros...
E a minha boca, a rútila manhã, Na Via Láctea, lírica, pagã, A rir desfolha as pétalas dos astros!...
Passeio no campo
Meu amor! Meu amante! Meu amigo! Colhe a hora que passa, hora divina, Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo! Sinto-me alegre e forte! Sou menina!
Eu tenho, amor, a cinta esbelta e fina... Pele dourada de alabastro antigo... Frágeis mãos de madona florentina... - Vamos correr e rir por entre o trigo!
Há rendas de gramíneas pelos montes... Papoulas rubras nos trigais maduros... Água azulada a cintilar nas fontes...
E à volta, amor... tornemos, nas alfombras Dos caminhos selvagens e escuros, Num astro só as nossas duas sombras...
Perdi meus fantásticos castelos
Perdi meus fantásticos castelos Como névoa distante que se esfuma... Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: Quebrei as minhas lanças uma a uma!
Perdi minhas galeras entre os gelos Que se afundaram sobre um mar de bruma... - Tantos escolhos! Quem podia vê-los? – Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!
Perdi a minha taça, o meu anel, A minha cota de aço, o meu corcel, Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...
Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... Sobre o meu coração pesam montanhas... Olho assombrada as minhas mãos vazias...
Paisagem
Uns bezerritos bebem lentamente Na tranqüila levada do moinho. Perpassa nos seus olhos, vagamente, A sombra duma alma cor do linho!
Junto deles um par. Naturalmente Namorados ou noivos. De mansinho Soltam frases d´amor...e docemente Uma criança canta no caminho!
Um trecho de paisagem campesina, Uma tela suave, pequenina, Um pedaço de terra sem igual!
Oh, abre-me em teu seio a sepultura, Minha terra d´amor e de ventura, Ó meu amado e lindo Portugal!
Poetas
Ai as almas dos poetas Não as entende ninguém; São almas de violetas Que são poetas também.
Andam perdidas na vida, Como as estrelas no ar; Sentem o vento gemer Ouvem as rosas chorar!
Só quem embala no peito Dores amargas e secretas É que em noites de luar Pode entender os poetas
E eu que arrasto amarguras Que nunca arrastou ninguém Tenho alma para sentir A dos poetas também!
Pequenina
À Maria Helena Falcão Risques És pequenina e ris... A boca breve É um pequeno idílio cor-de-rosa... Haste de lírio frágil e mimoso!
Cofre de beijos feito sonho e neve... Doce quimera que a nossa alma deve Ao Céu que assim te fez tão graciosa! Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve! O ver o teu olhar faz bem à gente... E cheira e sabe, a nossa boca, a flores Quando o teu nome diz, suavemente...
Pequenina que a Mãe de Deus sonhou, Que ela afaste de ti aquelas dores Que fizeram de mim isto que sou!
Para que?
Tudo é vaidade neste mundo vão... Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada! E mal desponta em nós a madrugada, Vem logo a noite encher o coração!
Até o amor nos mente, essa canção Que o nosso peito ri à gargalhada, Flor que é nascida e logo desfolhada, Pétalas que se pisam pelo chão! ...
Beijos de amor! Pra quê?! ... Tristes vaidades! Sonhos que logo são realidades, Que nos deixam a alma como morta!
Só neles acredita quem é louca! Beijos de amor que vão de boca em boca, Como pobres que vão de porta em porta! ...
Pior velhice
Sou velha e triste. Nunca o alvorecer Dum riso são andou na minha boca! Gritando que me acudam, em voz rouca, Eu, náufraga da Vida, ando a morrer!
A Vida, que ao nascer, enfeita e touca De alvas rosas a fronte da mulher, Na minha fronte mística de louca Martírios só poisou a emurchecer!
E dizem que sou nova ... A mocidade Estará só, então, na nossa idade, Ou está em nós e em nosso peito mora?!
Tenho a pior velhice, a que é mais triste, Aquela onde nem sequer existe Lembrança de ter sido nova ... outrora ...
Quem sabe?
Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino: Beber o fel amargo em luminosa taça, Chorar amargamente um beijo teu, divino, E rir olhando o vulto altivo da desgraça!
Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito; Por mais que fujas sempre, um sonho há de alcançar-te Se um sonho pode andar por todo o infinito, De que serve fugir se um sonho há de encontrar-te?!
Demais, nem eu talvez, perceba se o amor É este perseguir de raiva, de furor, Com que eu te sigo assim como os rafeiros leais.
Ou se é então a fuga eterna, misteriosa, Com que me foges sempre, ó noite tenebrosa! Por me fugires, sim, talvez me queiras mais!
Que importa?
Eu era a desdenhosa, a indiferente. Nunca sentira em mim o coração Bater em violências de paixão, Como bate no peito à outra gente.
Agora, olhas-me tu altivamente, Sem sombra de desejo ou de emoção, Enquanto as asas loiras da ilusão Abrem dentro de mim ao sol nascente.
Minh’alma, a pedra, transformou-se em fonte; Como nascida em carinhoso monte, Toda ela é riso, e é frescura e graça!
Nela refresca a boca um só instante... Que importa?... se o cansado viandante Bebe em todas as fontes... quando passa?...
Realidade
Em ti o meu olhar fez-se alvorada E a minha voz fez-se gorgeio de ninho... E a minha rubra boca apaixonada Teve a frescura pálida do linho...
Embriagou-me o teu beijo como um vinho Fulvo de Espanha, em taça cinzelada... E a minha cabeleireira desatada Pôs a teus pés a sombra dum caminho...
Minhas pálpebras são cor de verbena, Eu tenho os olhos garços, sou morena, E para te encontrar foi que eu nasci...
Tens sido vida fora o meu desejo E agora, que te falo, que te vejo, Não sei se te encontrei... se te perdi...
Rústica
Ser a moça mais linda do povoado, Pisar, sempre contente, o mesmo trilho, Ver descer sobre o ninho aconchegado A benção do Senhor em cada filho.
Um vestido de chita bem lavado, Cheirando a alfazema e a tomilho... — Com o luar matar a sede ao gado, Dar às pombas o sol num grão de milho. .
Ser pura como a água da cisterna, Ter confiança numa vida eterna Quando descer à ‘terra da verdade’...
Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza! Dou por elas meu trono de Princesa, E todos os meus Reinos de Ansiedade.
Ruínas
Se é sempre Outono o rir das primaveras, Castelos, um a um, deixa-os cair... Que a vida é um constante derruir De palácios do Reino das Quimeras!
E deixa sobre as ruínas crescer heras. Deixa-as beijar as pedras e florir! Que a vida é um contínuo destruir De palácios do Reino das Quimeras!
Deixa tombar meus rútilos castelos! Tenho ainda mais sonhos para erguê-los Mais altos do que as águias pelo ar!
Sonhos que tombam! Derrocada louca! São como os beijos duma linda boca! Sonhos! ... Deixa-os tombar... deixa-os tombar...
Se tu viesses ver-me
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços, Quando a noite de manso se avizinha, E me prendesses toda nos teus braços...
Quando me lembra: esse sabor que tinha A tua boca... o eco dos teus passos... O teu riso de fonte... os teus abraços... Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca, Traça as linhas dulcíssimas dum beijo E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca... Quando os olhos se me cerram de desejo... E os meus braços se estendem para ti...
Ser Poeta
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
Suavidade
Pousa a tua cabeça dolorida Tão cheia de quimeras, de ideal, Sobre o regaço brando e maternal Da tua doce Irmã compadecida.
Hás-de contar-me nessa voz tão qu’rida A tua dor que julgas sem igual, E eu, pra te consolar, direi o mal Que à minha alma profunda fez a Vida.
E hás-de adormecer nos meus joelhos... E os meus dedos enrugados, velhos, Hão-de fazer-se leves e suaves...
Hão-de pousar-se num fervor de crente, Rosas brancas tombando docemente, Sobre o teu rosto, como penas de aves...
Sonho vago
Um sonho alado que nasceu um instante, Erguido ao alto em horas de demência... Gotas de água que tombam em cadência Na minh’alma tristíssima, distante...
Onde está ele, o Desejado? O Infante? O que há-de vir e amar-me em doida ardência? O das horas de mágoa e penitência? O Príncipe Encantado? O Eleito? O Amante?
E neste sonho eu já nem sei quem sou... O brando marulhar dum longo beijo Que não chegou a dar-se e que passou...
Um fogo-fátuo rútilo, talvez... E eu ando a procurar-te e já te vejo! E tu já me encontraste e não me vês! ...
Sem palavras
Brancas, suaves mãos de irmã Que são mais doces que as das rainhas, Hão de pousar em tuas mãos, as minhas Numa carícia transcendente e vã.
E a tua boca a divinal manhã Que diz as frases com que me acarinhas, Há de pousar nas dolorosas linhas Da minha boca purpurina e sã.
Meus olhos hão de olhar teus olhos tristes; Só eles te dirão que tu existes Dentro de mim num riso d’alvorada!
E nunca se amará ninguém melhor; Tu calando de mim o teu amor, Sem que eu nunca do meu te diga nada!...
Súplica
Olha para mim, amor, olha para mim; Meus olhos andam doidos por te olhar! Cega-me com o brilho de teus olhos Que cega ando eu há muito por te amar.
O meu colo é arminho branco imaculado Duma brancura casta que entontece; Tua linda cabeça loira e bela Deita em meu colo, deita e adormece!
Os meus braços são brancos como o linho Quando os cerro de leve, docemente... Oh! deixa-me prender-te e enlear-te Nessa cadeia assim eternamente! ...
Vem para mim, amor... Ai não desprezes A minha adoração de escrava louca! Só te peço que deixes exalar Meu último suspiro na tua boca! ...
Sonhos
Ter um sonho, um sonho lindo, Noite branda de luar, Que se sonhasse a sorrir... Que se sonhasse a chorar...
Ter um sonho, que nos fosse A vida, a luz, o alento, Que a sonhar beijasse doce A nossa boca... um lamento...
Ser pra nós o guia, o norte, Na vida o único trilho; E depois ver vir a morte
Despedaçar esses laços! ... É pior que ter um filho Que nos morresse nos braços!
Sem remédio
Aqueles que me têm muito amor Não sabem o que sinto e o que sou... Não sabem que passou, um dia, a Dor, À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor, Este frio que anda em mim, e que gelou O que de bom me deu Nosso Senhor! Se eu nem sei por onde ando e onde vou! !
Sinto os passos da Dor, essa cadência Que é já tortura infinda, que é demência! Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio A mesma angústia funda, sem remédio, Andando atrás de mim, sem me largar! ...
Saudades
Saudades! Sim... talvez... e porque não?... Se o nosso sonho foi tão alto e forte Que bem pensara vê-lo até à morte Deslumbrar-me de luz o coração!
Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão! Que tudo isso, Amor nos não importe. Se ele deixou beleza que conforte Deve-nos ser sagrado como o pão.
Quantas vezes, Amor, já te esqueci, Para mais doidamente me lembrar Mais doidamente me lembrar de ti!
E quem dera que fosse sempre assim: Quanto menos quisesse recordar Mais a saudade andasse presa a mim!
Supremo enleio
Quanta mulher no teu passado, quanta! Tanta sombra em redor! Mas que me importa? Se delas veio o sonho que conforta, A sua vinda foi três vezes santa!
Erva do chão que a mão de Deus levanta, Folhas murchas de rojo à tua porta... Quando eu for uma pobre coisa morta, Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!
Mas eu sou a manhã: apago estrelas! Hás-de ver-me, beijar-me em todas elas, Mesmo na boca da que for mais linda!
E quando a derradeira, enfim, vier, Nesse corpo vibrante de mulher Será o meu que hás-de encontrar ainda.
Tédio
Passo pálida e triste. Oiço dizer “Que branca que ela é! Parece morta! ” E eu que vou sonhando, vaga, absorta, Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...
Que diga o mundo e a gente o que quiser! — O que é que isso me faz?... o que me importa?... O frio que trago dentro gela e corta Tudo que é sonho e graça na mulher!
O que é que isso me importa?! Essa tristeza É menos dor intensa que frieza, É um tédio profundo de viver!
E é tudo sempre o mesmo,eternamente... O mesmo lago plácido,dormente dias, E os dias, sempre os mesmos,a correr...
Trazes-me em tuas mãos de vitorioso
Trazes-me em tuas mãos de vitorioso Todos os bens que a vida me negou, E todo um roseiral, a abrir, glorioso Que a solitária estrada perfumou.
Neste meio-dia límpido, radioso, Sinto o teu coração que Deus talhou Num pedaço de bronze luminoso, Como um berço onde a vida me pousou.
O silêncio, ao redor, é uma asa quieta... E a tua boca que sorri e anseia, Lembra um cálix de tulipa entreaberta...
Cheira a ervas amargas, cheira a sândalo... E o meu corpo ondulante de sereia Dorme em teus braços másculos de vândalo..
Tortura
Tirar dentro do peito a Emoção, A lúcida verdade, o Sentimento! -- E ser, depois de vir do coração, Um punhado de cinza esparso ao vento!...
Sonhar um verso de alto pensamento, E puro como um ritmo de oração! -- E ser, depois de vir do coração, O pó, o nada, o sonho dum momento...
São assim ocos, rudes, os meus versos: Rimas perdidas, vendavais dispersos, Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
Tarde no mar
A tarde é de oiro rútilo: esbraseia. O horizonte: um cacto purpurino. E a vaga esbelta que palpita e ondeia, Com uma frágil graça de menino,
Pousa o manto de arminho na areia E lá vai, e lá segue o seu destino! E o sol, nas casas brancas que incendeia, Desenha mãos sangrentas de assassino!
Que linda tarde aberta sobre o mar! Vai deitando do céu molhos de rosas Que Apolo se entretém a desfolhar...
E, sobre mim, em gestos palpitantes, As tuas mãos morenas, milagrosas, São as asas do sol, agonizantes...
Torre de névoa
Subi ao alto, à minha Torre esguia, Feita de fumo, névoas e luar, E pus-me, comovida, a conversar Com os poetas mortos, todo o dia.
Contei-lhes os meus sonhos, a alegria Dos versos que são meus, do meu sonhar, E todos os poetas, a chorar, Responderam-me então: “Que fantasia,
Criança doida e crente! Nós também Tivemos ilusões, como ninguém, E tudo nos fugiu, tudo morreu! ... ”
Calaram-se os poetas, tristemente... E é desde então que eu choro amargamente Na minha Torre esguia junto ao céu! ...
Toledo
Diluído numa taça de oiro a arder Toledo é um rubi. E hoje é nosso! O sol a rir... Vivalma... Não esboço Um gesto que me não sinta esvaecer...
As tuas mãos tacteiam-me a tremer... Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço, É como um jasmineiro em alvoroço Ébrio de sol, de aroma, de prazer!
Cerro um pouco o olhar, onde subsiste Um romântico apelo vago e mudo — Um grande amor é sempre grave e triste.
Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo... Uma torre ergue ao céu um grito agudo... Tua boca desfolha-me num beijo...
Versos de orgulho
O mundo quer-me mal porque ninguém Tem asas como eu tenho! Porque Deus Me fez nascer princesa entre plebeus Numa torre de orgulho e de desdém.
Porque o meu Reino fica para além... Porque trago no olhar os vastos céus E os oiros e clarões são todos meus! Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!
O mundo! O que é o mundo, ó meu Amor? — O jardim dos meus versos todo em flor... A seara dos teus beijos pão bendito...
Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços... — São os teus braços dentro dos meus braços, Via Láctea fechando o Infinito.
Vão orgulho
Neste mundo vaidoso o amor é nada, É um orgulho a mais, outra vaidade, A coroa de loiros desfolhada Com que se espera a Imortalidade.
Ser Beatriz! Natércia! Irrealidade... Mentira... Engano de alma desvairada... Onde está desses braços a verdade, Essa fogueira em cinzas apagada?.. . Mentira! Não te quis ... não me quiseste, Eflúvios subtis dum bem celeste? Gestos... . palavras sem nenhum condão.
Mentira! Não fui tua ... não! Somente... Quis ser mais do que sou, mais do que gente, No alto orgulho de o ter sido em vão! ...
Voz que se cala
Amo as pedras, os astros e o luar Que beija as ervas do atalho escuro, Amo as águas de anil e o doce olhar Dos animais, divinamente puro.
Amo a hera que entende a voz do muro E dos sapos, o brando tilintar De cristais que se afagam devagar, E da minha charneca o rosto duro.
Amo todos os sonhos que se calam De corações que sentem e não falam, Tudo o que é Infinito e pequenino!
Asa que nos protege a todos nós! Soluço imenso, eterno, que é a voz Do nosso grande e mísero Destino! ...
Volúptia
No divino impudor da mocidade, Nesse êxtase pagão que vence a sorte, Num frémito vibrante de ansiedade, Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade... A núvem que arrastou o vento norte... — Meu corpo! Trago nele um vinho forte: Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço... São os dedos do sol quando te abraço, Cravados no teu peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos Vão-te envolvendo em círculos dantescos Felinamente, em voluptuosas danças..
Vulcões
Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal Não tem a lividez sinistra da montanha Quando a noite a inunda dum manto sem igual De neve branca e fria onde o luar se banha.
No entanto que fogo, que lavas, a montanha Oculta no seu seio de lividez fatal! Tudo é quente lá dentro...e que paixão tamanha A fria neve envolve em seu vestido ideal!
No gelo da indiferença ocultam-se as paixões Como no gelo frio do cume da montanha Se oculta a lava quente do seio dos vulcões...
Assim quando eu te falo alegre, friamente, Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!
Vozes do mar
Quando o sol vai caindo sob as águas Num nervoso delíquio d´ouro intenso, Donde vem essa voz cheia de mágoas Com que falas à terra, ó mar imenso?
Tu falas de festins, e cavalgadas De cavaleiros errantes ao luar? Falas de caravelas encantadas Que dormem em teu seio a soluçar?
Tens cantos d´epopéias? Tens anseios D´amarguras? Tu tens também receios, Ó mar cheio de esperança e majestade?!
Donde vem essa voz, ó mar amigo?... ...Talvez a voz do Portugal antigo, Chamando por Camões numa saudade!
Versos
Versos! Versos! Sei lá o que são versos... Pedaços de sorriso, branca espuma, Gargalhadas de luz, cantos dispersos, Ou pétalas que caem uma a uma...
Versos!... Sei lá! Um verso é o teu olhar, Um verso é o teu sorriso e os de Dante Eram o teu amor a soluçar Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!... Sei eu lá também que são... Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração Partido em mil pedaços são talvez...
Versos! Versos! Sei lá o que são versos... Meus soluços de dor que andam dispersos Por este grande amor em que não crês...
Velhinha
Se os que me viram já cheia de graça Olharem bem de frente para mim, Talvez, cheios de dor, digam assim: "Já ela é velha! Como o tempo passa!..."
Não sei rir e cantar por mais que faça! Ó minhas mãos talhadas em marfim, Deixem esse fio de ouro que esvoaça! Deixem correr a vida até ao fim!
Tenho vinte e três anos! Sou velhinha! Tenho cabelos brancos e sou crente... Já murmuro orações... falo sozinha...
E o bando cor-de-rosa dos carinhos Que tu me fazes, olho-os indulgente, Como se fosse um bando de netinhos..
Vaidade
Sonho que sou a Poetisa eleita, Aquela que diz tudo e tudo sabe, Que tem a inspiração pura e perfeita, Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade Para encher todo o mundo! E que deleita Mesmo aqueles que morrem de saudade! Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo... Aquela de saber vasto e profundo, Aos pés de quem a terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando, E quando mais no alto ando voando, Acordo do meu sonho... E não sou nada! ...