A pálida luz da manhã de inverno, O cais e a razão Não dão mais 'sperança, nem menos 'sperança sequer, Ao meu coração. O que tem que ser Será, quer eu queira que seja ou que não. No rumor do cais, no bulício do rio Na rua a acordar Não há mais sossego, nem menos sossego sequer, Para o meu 'sperar. O que tem que não ser Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.
Fernando Pessoa
A 'sperança, como um fósforo inda aceso
A 'sperança, como um fósforo inda aceso, Deixei no chão, e entardeceu no chão ileso. A falha social do meu destino Reconheci, como um mendigo preso.
Cada dia me traz com que 'sperar O que dia nenhum poderá dar. Cada dia me cansa de Esperança ... Mas viver é sperar e se cansar.
O prometido nunca será dado Porque no prometer cumpriu-se o fado. O que se espera, se a esperança e gosto, Gastou-se no esperá-lo, e está acabado.
Quanta ache vingança contra o fado Nem deu o verso que a dissesse, e o dado Rolou da mesa abaixo, oculta a conta. Nem o buscou o jogador cansado.
Fernando Pessoa
A morte chega cedo
A morte chega cedo, Pois breve é toda vida O instante é o arremedo De uma coisa perdida.
O amor foi começado, O ideal não acabou, E quem tenha alcançado Não sabe o que alcançou.
E tudo isto a morte Risca por não estar certo No caderno da sorte Que Deus deixou aberto.
Fernando Pessoa
A alcova
Desce não se por onde Até não me encontrar. Ascende um leve fumo Das minhas sensações. Deixo de me incluir Dentro de mim. Não há Cá-dentro nem lá-fora.
E o deserto está agora Virado para baixo.
A noção de mover-me Esqueceu-se do meu nome. Na alma meu corpo pesa-me. Sinto-me um reposteiro Pendurado na sala Onde jaz alguém morto.
Qualquer coisa caiu E tiniu no infinito.
Fernando Pessoa
Ao longe, ao luar, No rio uma vela Serena a passar, Que é que me revela?
Não sei, mas meu ser Tornou-se-me estranho, E eu sonho sem ver Os sonhos que tenho.
Que angústia me enlaça? Que amor não se explica? É a vela que passa Na noite que fica.
Fernando Pessoa
As horas pela alameda Arrastam vestes de seda,
Veste de seda sonhada Pela alameda alongada
Sob o azular do luar... E ouve-se no ar a expirar
A expirar mar nunca expira Uma flauta que delira,
Que é mais a ideia de ouvi-la Que ouvi-la quase tranquila
Pelo ar a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...
Fernando Pessoa
Aranha
Aranha do meu destino Faz teias de eu não pensar. Não soube o que era em menino, Sou adulto sem o achar. É que a teia, de espalhada Apanhou-me o querer ir... Sou uma vida baloiçada Na consciência de existir. A aranha da minha sorte Faz teia de muro a muro... Sou presa do meu suporte.
Fernando Pessoa
VI
Ah, tudo é símbolo e analogia! O vento que passa, a noite que esfria, São outra coisa que a noite e o vento Sombras de vida e de pensamento.
Tudo o que vemos é outra coisa. A maré vasta, a maré ansiosa, É o eco de outra maré que está Onde é real o mundo que há.
Tudo o que temos é esquecimento. A noite fria, o passar do vento, São sombras de mãos, cujos gestos são A ilusão madre desta ilusão.
Fernando Pessoa
Abat-Jour
A lâmpada acesa (Outrem a acendeu) Baixa uma beleza
Sobre o chão que é meu. No quarto deserto Salvo o meu sonhar, Faz no chão incerto Um círculo a ondear.
E entre a sombra e a luz Que oscila no chão Meu sonho conduz Minha inatenção.
Bem sei... Era dia E longe de aqui... Quanto me sorria O que nunca vi!
E no quarto silente Com a luz a ondear Deixei vagamente Até de sonhar...
Fernando Pessoa
Abdicação
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços E chama-me teu filho. Eu sou um rei que voluntariamente abandonei O meu trono de sonhos e cansaços. Minha espada, pesada a braços lassos, Em mão viris e calmas entreguei; E meu ceptro e coroa — eu os deixei Na antecâmara, feitos em pedaços Minha cota de malha, tão inútil, Minhas esporas de um tinir tão fútil, Deixei-as pela fria escadaria. Despi a realeza, corpo e alma, E regressei à noite antiga e calma Como a paisagem ao morrer do dia.
Fernando Pessoa
A minha vida é um barco abandonado
A minha vida é um barco abandonado Infiel, no ermo porto, ao seu destino. Por que não ergue ferro e segue o atino De navegar, casado com o seu fado ?
Ah! falta quem o lance ao mar, e alado Torne seu vulto em velas; peregrino Frescor de afastamento, no divino Amplexo da manhã, puro e salgado.
Morto corpo da acção sem vontade Que o viva, vulto estéril de viver, Boiando à tona inútil da saudade.
Os limos esverdeiam tua quilha, O vento embala-te sem te mover, E é para além do mar a ansiada Ilha.
Fernando Pessoa
Às vezes, em sonho triste Nos meus desejos existe Longinquamente um país Onde ser feliz consiste Apenas em ser feliz.
Vive-se como se nasce Sem o querer nem saber. Nessa ilusão de viver O tempo morre e renasce Sem que o sintamos correr.
O sentir e o desejar São banidos dessa terra. O amor não é amor Nesse país por onde erra No meu longínquo divagar.
Nem se sonha nem se vive: É uma infância sem fim. Parece que se revive Tão suave é viver assim Nesse impossível jardim.
Fernando Pessoa
Chove. É dia de Natal
Chove. É dia de Natal. Lá para o Norte é melhor: Há a neve que faz mal, E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente Porque é dia de o ficar. Chove no Natal presente. Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse O Natal da convenção, Quando o corpo me arrefece Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra E o Natal a quem o fez, Pois se escrevo ainda outra quadra Fico gelado dos pés.
Fernando Pessoa
Cantigas de portugueses São como barcos no mar - Vão de uma alma para outra Com riscos de naufragar.
Fernando Pessoa
Cartas de Amor
Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas.
As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas.
Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.
A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)
Fernando Pessoa
Em meus momentos escuros Em que em mim não há ninguém, E tudo é névoas e muros Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte De onde em mim sou aterrado, Vejo o longínquo horizonte Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço, E, ainda que seja ilusão O exterior em que me esqueço, Nada mais quero nem peço. Entrego-lhe o coração.
Fernando Pessoa
Entre o sono e sonho, Entre mim e o que em mim É o quem eu me suponho Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens, Diversas mais além, Naquelas várias viagens Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito A casa que hoje sou. Passa, se eu me medito; Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre No que me liga a mim Dorme onde o rio corre - Esse rio sem fim.
Fernando Pessoa
Eros e Psique
Conta a lenda que dormia Uma Princesa encantada A quem só despertaria Um Infante, que viria De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado, Vencer o mal e o bem, Antes que, já libertado, Deixasse o caminho errado Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida, Se espera, dormindo espera, Sonha em morte a sua vida, E orna-lhe a fronte esquecida, Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado, Sem saber que intuito tem, Rompe o caminho fadado, Ele dela é ignorado, Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino Ela dormindo encantada, Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro Tudo pela estrada fora, E falso, ele vem seguro, E vencendo estrada e muro, Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera, À cabeça, em maresia, Ergue a mão, e encontra hera, E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
Em toda a noite o sono não veio
Em toda a noite o sono não veio. Agora Raia do fundo Do horizonte, encoberta e fria, a manhã. Que faço eu no mundo ? Nada que a noite acalme ou levante a aurora, Coisa séria ou vã. Com olhos tontos da febre vã da vigília Vejo com horror O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim Do mundo e da dor _ Um dia igual aos outros, da eterna família De serem assim. Nem o símbolo ao menos vale, a significação Da manhã que vem Saindo lenta da própria essência da noite que era, Para quem Por tantas vezes ter sempre 'sperado em vão, Já nada 'spera.
Fernando Pessoa
Há um murmúrio na floresta, Há uma nuvem e não há. Há uma nuvem e nada resta Do murmúrio que ainda está No ar a parecer que há.
É que a saudade faz viver, E faz ouvir, e ainda ver, Tudo o que foi e acabará Antes que tenha de o esquecer Como a floresta esquece já.
Fernando Pessoa
Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser...
Alvaro de Campos
Horizonte
O mar anterior a nós, teus medos Tinham coral e praias e arvoredos. Desvendadas a noite e a cerração, As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidéreo Esplendia sobre as naus da iniciação. Linha severa da longínqua costa-- Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha; Mais perto, abre-se a terra em sons e cores: E, no desembarcar, há aves, flores, Onde era só, de longe a abstrata linha
O sonho é ver as formas invisíveis Da distância imprecisa, e, com sensíveis Movimentos da esperança e da vontade, Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -- Os beijos merecidos da Verdade.
Fernando Pessoa
Natal
Nasce um Deus. Outros morrem. A Verdade Nem veio nem se foi: o Erro mudou. Temos agora uma outra Eternidade, E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra. Louca, a Fé vive o sonho do seu culto. Um novo deus é só uma palavra. Não procures nem creias: tudo é oculto.
Fernando Pessoa
No ouro sem fim da tarde morta
No ouro sem fim da tarde morta, Na poeira de ouro sem lugar Da tarde que me passa à porta Para não parar,
No silêncio dourado ainda Dos arvoredos verde fim, Recordo. Eras antiga e linda E estás em mim...
Tua memória há sem que houvesses, Teu gesto, sem que fosses alguém, Como uma brisa me estremeces E eu choro um bem...
Perdi-te. Não te tive. A hora É suave para a minha dor. Deixa meu ser que rememora Sentir o amor,
Ainda que amar seja um receio, Uma lembrança falsa e vã, E a noite deste vago anseio Não tenha manhã.
Fernando Pessoa
O que há em mim é sobretudo cansaço Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis, As paixões violentas por coisa nenhuma, Os amores intensos por o suposto alguém. Essas coisas todas -Essas e o que faz falta nelas eternamente -; Tudo isso faz um cansaço, Este cansaço, Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada -Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser...
E o resultado? Para eles a vida vivida ou sonhada, Para eles o sonho sonhado ou vivido, Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... Para mim só um grande, um profundo, E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, Um supremíssimo cansaço. Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...
Álvaro de Campos
O amor, quando se revela...
O amor, quando se revela, Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p'ra ela, Mas não lhe sabe falar.
O lago mudo
Contemplo o lago mudo Que uma brisa estremece. Não sei se penso em tudo Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz, Não sinto a brisa mexê-lo Não sei se sou feliz Nem se desejo sê-lo.
Trémulos vincos risonhos Na água adormecida. Por que fiz eu dos sonhos A minha única vida?
Fernando Pessoa
O Luar
O luar quando bate na relva Não sei que cousa me lembra... Lembra-me a voz da criada velha Contando-me contos de fadas. E de como Nossa Senhora vestida de mendiga Andava à noite nas estradas Socorrendo as crianças maltratadas ... Se eu já não posso crer que isso é verdade, Para que bate o luar na relva?
Alberto Caeiro
Ó sino da minha aldeia, Dolente na tarde calma, Cada tua badalada Soa dentro da minha alma.
E é tão lento o teu soar, Tão como triste da vida, Que já a primeira pancada Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto, Quando passo, sempre errante, És para mim como um sonho, Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua, Vibrante no céu aberto, Sinto mais longe o passado, Sinto a saudade mais perto.
Fernando Pessoa
Pousa um momento, Um só momento em mim, Não só o olhar, também o pensamento. Que a vida tenha fim Nesse momento!
No olhar a alma também Olhando-me, e eu a ver Tudo quanto de ti o teu olhar tem. A ver até esquecer que tu és tu também.
Só tua alma sem tu Só o teu pensamento E eu onde, alma sem eu. Tudo o que sou Ficou com o momento E o momento parou.
Fernando Pessoa
Sou um evadido
Sou um evadido. Logo que nasci Fecharam-me em mim, Ah, mas eu fugi.
Se a gente se cansa Do mesmo lugar, Do mesmo ser Por que não se cansar?
Minha alma procura-me Mas eu ando a monte, Oxalá que ela Nunca me encontre.
Ser um é cadeia, Ser eu é não ser. Viverei fugindo Mas vivo a valer.
Fernando Pessoa
Sabes quem sou? Eu não sei.
Sabes quem sou? Eu não sei. Outrora, onde o nada foi, Fui o vassalo e o rei. É dupla a dor que me dói. Duas dores eu passei.
Fui tudo que pode haver. Ninguém me quis esmolar; E entre o pensar e o ser Senti a vida passar Como um rio sem correr.
Fernando Pessoa
Vaga saudade, tanto Dóis como a outra que é A saudade de quanto Existiu aqui ao pé.
Tu, que és do que nunca houve, Punges como o passado A que existir não aprouve.
Fernando Pessoa
Vaga, no azul amplo solta
Vaga, no azul amplo solta, Vai uma nuvem errando. O meu passado não volta. Não é o que estou chorando.
O que choro é diferente. Entra mais na alma da alma. Mas como, no céu sem gente A nuvem flutua calma.
E isto lembra uma tristeza E a lembrança é que entristece, Dou à saudade a riqueza De emoção que a hora tece.
Mas, em verdade, o que chora Na minha amarga ansiedade Mais alto que a nuvem mora, Está para além da saudade.
Não sei o que é nem consinto À alma que o saiba bem. Visto da dor com que minto Dor que a minha alma tem.