Os navios existem e existe o teu rosto encostado ao rosto dos navios. Sem nenhum destino flutuam nas cidades, partem no vento, regressam nos rios.
Na areia branca, onde o tempo começa, uma criança passa de costas para o mar. Anoitece. Não há dúvida, anoitece. É preciso partir, é preciso ficar.
Os hospitais cobrem-se de cinza Ondas de sombra quebram nas esquinas. Amo-te... E abrem-se janelas mostrando a brancura das cortinas.
As palavras que te envio são interditas até, meu amor, pelo halo das searas; se alguma regressasse, nem já reconhecia o teu nome nas minhas curvas claras.
Dói-me esta água, este ar que se respira, dói-me esta solidão de pedra escura, e estas mãos nocturnas onde aperto os meus dias quebrados na cintura.
E a noite cresce apaixonadamente. Nas suas margens vivas, desenhadas, cada homem tem apenas para dar um horizonte de cidades bombardeadas.
Eugénio Andrade
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mão à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! Era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! e eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor..., já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.
Eugénio de Andrade
As palavras
São como um cristal, as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio. Outras, orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória. Inseguras navegam: barcos ou beijos, as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes, leves.Tecidas são de luz e são a noite. E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade
Escrevo
Escrevo já com a noite em casa. Escrevo sobre a manhã em que escutava o rumor da cal ou do lume, e eras tu somente a dizer o meu nome. Escrevo para levar à boca o sabor da primeira boca que beijei a tremer. Escrevo para subir às fontes. E voltar a nascer.
Eugénio de Andrade
É quando a chuva cai, é quando olhado devagar que brilha o corpo. Para dizê-lo a boca é muito pouco, era preciso que também as mãos vissem esse brilho, dele fizessem não só a música, mas a casa. Todas as palavras falam desse lume, sabem à pele dessa luz molhada.
Eugénio de Andrade
Frente a frente
Nada podeis contra o amor. Contra a cor da folhagem, contra a carícia da espuma, contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte, a mais vil, isso podeis - e é tão pouco.
Eugénio de Andrade
O sorriso
Creio que foi o sorriso, 0 sorriso foi quem abriu a porta. Era um sorriso com muita luz lá dentro, apetecia entrar nele, tirar a roupa, ficar nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade
O amor
Estou a amar-te como o frio corta os lábios.
A arrancar a raiz ao mais diminuto dos rios.
A inudar-te de facas, de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas a boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos itinerários de espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.
Eugénio de Andrade
Onde os lábios
Os lábios. Distante, arrefecida chama. Não só os lábios, também as estrelas são distantes. E os bosques. E as nascentes. Também as nascentes são distantes. As nascentes onde os lábios, onde as estrelas bebem.. Só o deserto é próximo, só o deserto.
Eugénio de Andrade
Poema XVIII
Impetuoso, o teu corpo é como um rio onde o meu se perde. Se escuto, só oiço o teu rumor. De mim, nem o sinal mais breve.
Imagem dos gestos que tracei, irrompe puro e completo. Por isso, rio foi o nome que lhe dei. E nele o céu fica mais perto.
Eugénio de Andrade
Que voz lunar insinua o que não pode ter voz?
Que rosto entorna na noite todo o azul da manhã?
Que beijo de oiro procura uns lábios de brisa e água?
Que branca mão devagar quebra os ramos do silêncio?
Eugénio de Andrade
Trazia consigo a graça das fontes quando anoitece. Era o corpo como um rio em sereno desafio com as margens quando desce.
Andava como quem passa sem ter tempo de parar. Ervas nasciam dos passos cresciam troncos dos braços quando os erguia no ar.
Sorria como quem dança. E desfolhava ao dançar o corpo, que lhe tremia num ritmo que ele sabia que os deuses devem usar.
E seguia o seu caminho, porque era um deus que passava. Alheio a tudo o que via, enleado na melodia duma flauta que tocava.