Não te deixes destruir... Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas
recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha um poema.
E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos. Toma a tua parte. Vem a estas páginas e não entraves seu uso
Assim eu vejo a vida
A vida tem duas faces: Positiva e negativa O passado foi duro mas deixou o seu legado Saber viver é a grande sabedoria Que eu possa dignificar Minha condição de mulher, Aceitar suas limitações E me fazer pedra de segurança dos valores que vão desmoronando. Nasci em tempos rudes Aceitei contradições lutas e pedras como lições de vida e delas me sirvo Aprendi a viver.
Amigo
Vamos conversar Como dois velhos que se encontram no fim da caminhada. Foi o mesmo nosso marco de partida. Palmilhamos juntos a mesma estrada.
Eu era moça. Sentia sem saber seu cheiro de terra, seu cheiro de mato, seu cheiro de pastagens
É que havia dentro de mim, no fundo obscuro de meu ser vivências e atavismo ancestrais: fazendas, latifúndios, engenhos e currais.
Mas... ai de mim! Era moça da cidade. Escrevia versos e era sofisticada.
Você teve medo. O medo que todo homem sente da mulher letrada.
Não pressentiu, não adivinhou aquela que o esperava mesmo antes de nascer.
Indiferente tomaste teu caminho por estrada diferente. Longo tempo o esperei na encruzilhada, depois... depois... carreguei sozinha a pedra do meu destino.
Hoje, no tarde da vida, apenas, uma suave e perdida relembrança.
Antiguidades
Quando eu era menina bem pequena, em nossa casa, certos dias da semana se fazia um bolo, assado na panela com um testo de borralho em cima.
Era um bolo econômico, como tudo, antigamente. Pesado, grosso, pastoso. (Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina em crescimento. Gulosa, abria os olhos para aquele bolo que me parecia tão bom e tão gostoso.
A gente mandona lá de casa cortava aquele bolo com importância. Com atenção. Seriamente. Eu presente. Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo daquele bolo inteiro. Minha irmão mais velha governava. Regrava. Me dava uma fatia, tão fina, tão delgada... E fatias iguais às outras manas. E que ninguém pedisse mais ! E o bolo inteiro, quase intangível, se guardava bem guardado, com cuidado, num armário, alto, fechado, impossível.
Era aquilo, uma coisa de respeito. Não pra ser comido assim, sem mais nem menos. Destinava-se às visitas da noite, certas ou imprevistas. Detestadas da meninada.
Criança, no meu tempo de criança, não valia mesmo nada. A gente grande da casa usava e abusava de pretensos direitos de educação.
Por dá-cá-aquela-palha, ralhos e beliscão. Palmatória e chineladas não faltavam. Quando não, sentada no canto de castigo fazendo trancinhas, amarrando abrolhos. "Tomando propósito". Expressão muito corrente e pedagógica.
Aquela gente antiga, passadiça, era assim: severa, ralhadeira.
Não poupava as crianças. Mas, as visitas... - Valha-me Deus !... As visitas... Como eram queridas, recebidas, estimadas, conceituadas, agradadas !
Era gente superenjoada. Solene, empertigada. De velhas conversar que davam sono. Antiguidades...
Até os nomes, que não se percam: D. Aninha com Seu Quinquim. D. Milécia, sempre às voltas com receitas de bolo, assuntos de licores e pudins. D. Benedita com sua filha Lili. D. Benedita - alta, magrinha. Lili - baixota, gordinha. Puxava de uma perna e fazia crochê. E, diziam dela línguas viperinas: "- Lili é a bengala de D. Benedita". Mestre Quina, D. Luisalves, Saninha de Bili, Sá Mônica. Gente do Cônego Padre Pio.
D. Joaquina Amâncio... Dessa então me lembro bem. Era amiga do peito de minha bisavó. Aparecia em nossa casa quando o relógio dos frades tinha já marcado 9 horas e a corneta do quartel, tocado silêncio. E só se ia quando o galo cantava.
O pessoal da casa, como era de bom-tom, se revezava fazendo sala. Rendidos de sono, davam o fora. No fim, só ficava mesmo, firme, minha bisavó.
D. Joaquina era uma velha grossa, rombuda, aparatosa. Esquisita. Demorona. Cega de um olho. Gostava de flores e de vestido novo. Tinha seu dinheiro de contado. Grossas contas de ouro no pescoço.
Anéis pelos dedos. Bichas nas orelhas. Pitava na palha. Cheirava rapé. E era de Paracatu. O sobrinho que a acompanhava, enquanto a tia conversava contando "causos" infindáveis, dormia estirado no banco da varanda. Eu fazia força de ficar acordada esperando a descida certa do bolo encerrado no armário alto. E quando este aparecia, vencida pelo sono já dormia. E sonhava com o imenso armário cheio de grandes bolos ao meu alcance.
De manhã cedo quando acordava, estremunhada, com a boca amarga, - ai de mim - via com tristeza, sobre a mesa: xícaras sujas de café, pontas queimadas de cigarro. O prato vazio, onde esteve o bolo, e um cheiro enjoado de rapé.
A gleba me transfigura
Sinto que sou abelha no seu artesanato. Meus versos tem cheiro de mato, dos bois e dos currais. Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas. (...) Minha identificação profunda e amorosa com a terra e com os que nela trabalham. A gleba me transfigura. Dentro da gleba, ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros. O roncar e focinhar dos porcos o cantar dos galos, o cacarejar das poedeiras, o latir do cães, eu me identifico. Sou arvore, sou tronco, sou raiz, sou folha, sou graveto sou mato, sou paiol e sou a velha tulha de barro.
pela minha voz cantam todos os pássaros, piam as cobras e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que vão pelas estradas. Sou espiga e o grão que retornam a terra. Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando, é o arado milenário que sulca. Meus versos tem relances de enxada, gume de foice e o peso do machado. Cheiro de currais e gosto de terra. (...) Amo aterra de um velho amor consagrado. Através de gerações de avós rústicos, encartados nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros. A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra. (...) Em mim a planta renasce e flosrece, sementeia e sobrevive. Sou a espiga e o grão fecundo que retorna à terra. Minha pena é enxada do plantador, é o arado que vai sulcando. Para a colheita das gerações. Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira. Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada e fecundada no ventre escuro da terra.
Considerações de Aninha
Melhor do que a criatura, fez o criador a criação. A criatura é limitada. O tempo, o espaço, normas e costumes. Erros e acertos. A criação é ilimitada. Excede o tempo e o meio. Projeta-se no Cosmos
Conclusões de Aninha
Estavam ali parados. Marido e mulher. Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça tímida, humilde, sofrida. Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho, e tudo que tinha dentro. Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar novo rancho e comprar suas pobrezinhas. O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula, entregou sem palavra. A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou, se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar E não abriu a bolsa. Qual dos dois ajudou mais? Donde se infere que o homem ajuda sem participar e a mulher participa sem ajudar. Da mesma forma aquela sentença: "A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar." Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada, o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso e ensinar a paciência do pescador. Você faria isso, Leitor? Antes que tudo isso se fizesse o desvalido não morreria de fome? Conclusão: Na prática, a teoria é outra.
Coração é terra que ninguém vê
Quis ser um dia, jardineira de um coração. Sachei, mondei - nada colhi. Nasceram espinhos e nos espinhos me feri. Quis ser um dia, jardineira de um coração. Cavei, plantei. Na terra ingrata nada criei. Semeador da Parábola... Lancei a boa semente a gestos largos... Aves do céu levaram. Espinhos do chão cobriram. O resto se perdeu na terra dura da ingratidão. Coração é terra que ninguém vê — diz o ditado. Plantei, reguei, nada deu, não. Terra de lagedo, de pedregulho, — teu coração. Bati na porta de um coração. Bati. Bati. Nada escutei. Casa vazia. Porta fechada, foi que encontrei...
Das Pedras
Ajuntei todas as pedras que vieram sobre mim. Levantei uma escada muito alta e no alto subi. Teci um tapete floreado e no sonho me perdi.
Uma estrada, um leito, uma casa, um companheiro. Tudo de pedra.
Entre pedras cresceu a minha poesia. Minha vida... Quebrando pedras e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam Levantei a pedra rude dos meus versos aos que têm sede.
Eu Voltarei
Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho, servidor do próximo, honesto e simples, de pensamentos limpos. Seremos padeiros e teremos padarias. Muitos filhos à nossa volta. Cada nascer de um filho será marcado com o plantio de uma árvore simbólica. A árvore de Paulo, a árvore de Manoel, a árvore de Ruth, a árvore de Roseta. Seremos alegres e estaremos sempre a cantar. Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas, teremos uma fazenda e um Horto Florestal. Plantaremos o mogno, o jacarandá, o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro. Plantarei árvores para as gerações futuras. Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros. Terão moinhos e serrarias e panificadoras. Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens e mulheres, ligados profundamente ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar. E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros. Eu voltarei... A pedra do meu túmulo será enfeitada de espigas de trigo e cereais quebrados minha oferta póstuma às formigas que têm suas casinhas subterra e aos pássaros cantores que têm seus ninhos nas altas e floridas frondes. Eu voltarei...
Eu creio
Creio nos valores humanos e sou a mulher da terra. ... Creio na força do trabalho como elos e trança do progresso. na força do trabalho como elos e trança do progresso. Acredito numa energia imanente que virá um dia ligar a família humana numa corrente de fraternidade universal. Creio na salvação dos abandonados e na regeneração dos encarcerados, pela exaltação e dignidade do trabalho. ... Acredito nos jovens à procura de caminhos novos abrindo espaços largos na vida. Creio na superação das incertezas deste fim de século.
Lucros e Perdas
I
Eu nasci num tempo antigo, muito velho, muito velhinho, velhíssimo.
(...)
III
Fui menina do tempo antigo. Comandado pelos velhos: Barbados, bigodudos, dogmáticos botavam cerco na mocidade. Vigilantes fiscalizavam, louvavam, censuravam. Censores acatados. Ouvidos. Conspícuos. Felizmente, palavra morta.
(...)
V
Fui moça desse tempo. Tive meus muitos censores intra e extra-lar. Botaram-me o cerco. Juntavam-se, revelavam-se incansáveis. Boa gente. Queriam me salvar.
VI
Revendo o passado, balanceando a vida... No acervo do perdido, no tanto do ganhado está escriturado: "Perdas e danos, meus acertos. Lucros, meus erros. Daí a falta de sinceridade nos meus versos".
Mascarados
Saiu o Semeador a semear Semeou o dia todo e a noite o apanhou ainda com as mãos cheias de sementes. Ele semeava tranqüilo sem pensar na colheita porque muito tinha colhido do que outros semearam. Jovem, seja você esse semeador Semeia com otimismo Semeia com idealismo as sementes vivas da Paz e da Justiça.
Meu destino
Nas palmas de tuas mãos leio as linhas da minha vida. Linhas cruzadas, sinuosas, interferindo no teu destino. Não te procurei, não me procurastes – íamos sozinhos por estradas diferentes. Indiferentes, cruzamos Passavas com o fardo da vida... Corri ao teu encontro. Sorri. Falamos. Esse dia foi marcado com a pedra branca da cabeça de um peixe. E, desde então, caminhamos juntos pela vida...
Mulher da vida, minha irmã
De todos os tempos. De todos os povos. De todas as latitudes. Ela vem do fundo imemorial das idades e carrega a carga pesada dos mais torpes sinônimos, apelidos e apodos: Mulher da zona, Mulher da rua, Mulher perdida, Mulher à-toa. Mulher da Vida, minha irmã. Pisadas, espezinhadas, ameaçadas. Desprotegidas e exploradas. Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito. Necessárias fisiologicamente. Indestrutíveis. Sobreviventes. Possuídas e infamadas sempre por aqueles que um dia as lançaram na vida. Marcadas. Contaminadas, Escorchadas. Discriminadas. Nenhum direito lhes assiste. Nenhum estatuto ou norma as protege. Sobrevivem como erva cativa dos caminhos, pisadas, maltratadas e renascidas. Flor sombria, sementeira espinhal gerada nos viveiros da miséria, da pobreza e do abandono, enraizada em todos os quadrantes da Terra. Um dia, numa cidade longínqua, essa mulher corria perseguida pelos homens que a tinham maculado. Aflita, ouvindo o tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras, ela encontrou-se com a Justiça. A Justiça estendeu sua destra poderosa e lançou o repto milenar: Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra. As pedras caíram e os cobradores deram s costas. O Justo falou então a palavra de eqüidade: “Ninguém te condenou, mulher... nem eu te condeno”. A Justiça pesou a falta pelo peso do sacrifício e este excedeu àquela. Vilipendiada, esmagada. Possuída e enxovalhada, ela é a muralha que há milênios detém as urgências brutais do homem para que na sociedade possam coexistir a inocência, a castidade e a virtude. Na fragilidade de sua carne maculada esbarra a exigência impiedosa do macho. Sem cobertura de leis e sem proteção legal, ela atravessa a vida ultrajada e imprescindível, pisoteada, explorada, nem a sociedade a dispensa nem lhe reconhece direitos nem lhe dá proteção. E quem já alcançou o ideal dessa mulher, que um homem a tome pela mão, a levante, e diga: minha companheira. Mulher da Vida, minha irmã. No fim dos tempos. No dia da Grande Justiça do Grande Juiz. Serás remida e lavada de toda condenação. E o juiz da Grande Justiça a vestirá de branco em novo batismo de purificação. Limpará as máculas de sua vida humilhada e sacrificada para que a Família Humana possa subsistir sempre, estrutura sólida e indestrurível da sociedade, de todos os povos, de todos os tempos. Mulher da Vida, minha irmã.
Mãe
Renovadora e reveladora do mundo A humanidade se renova no teu ventre. Cria teus filhos, não os entregues à creche. Creche é fria, impessoal. Nunca será um lar para teu filho. Ele, pequenino, precisa de ti. Não o desligues da tua força maternal. Que pretendes, mulher? Independência, igualdade de condições... Empregos fora do lar? És superior àqueles que procuras imitar. Tens o dom divino de ser mãe Em ti está presente a humanidade.
Mulher, não te deixes castrar. Serás um animal somente de prazer e às vezes nem mais isso. Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar. Tumultuada, fingindo ser o que não és. Roendo o teu osso negro da amargura.
Não sei...
Não sei... se a vida é curta... Não sei... Não sei... se a vida é curta ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que sacia, amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo: é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira e pura... enquanto durar.
O cântico da terra
Eu sou a terra, eu sou a vida. Do meu barro primeiro veio o homem. De mim veio a mulher e veio o amor. Veio a árvore, veio a fonte. Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte original de toda vida. Sou o chão que se prende à tua casa. Sou a telha da coberta de teu lar. A mina constante de teu poço. Sou a espiga generosa de teu gado e certeza tranqüila ao teu esforço. Sou a razão de tua vida. De mim vieste pela mão do Criador, e a mim tu voltarás no fim da lida. Só em mim acharás descanso e Paz.
Eu sou a grande Mãe Universal. Tua filha, tua noiva e desposada. A mulher e o ventre que fecundas. Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu. Teu arado, tua foice, teu machado. O berço pequenino de teu filho. O algodão de tua veste e o pão de tua casa.
E um dia bem distante a mim tu voltarás. E no canteiro materno de meu seio tranqüilo dormirás.
Plantemos a roça. Lavremos a gleba. Cuidemos do ninho, do gado e da tulha. Fartura teremos e donos de sítio felizes seremos.
O Poeta e a poesia
Não é o poeta que cria a poesia. E sim, a poesia que condiciona o poeta. Poeta é a sensibilidade acima do vulgar. Poeta é o operário, o artífice da palavra. E com ela compõe a ourivesaria de um verso. Poeta é ser ambicioso, insatisfeito, procurando no jogo das palavras, no imprevisto texto, atingir a perfeição inalcançável. O autêntico sabe que jamais chegará ao prêmio Nobel. O medíocre se acredita sempre perto dele. Alguns vêm a mim. Querem a palavra, o incentivo, a apreciação. Que dizer a um jovem ansioso na sede precoce de lançar um livro... Tão pobreainda a sua bagagem cultural, tão restrito seu vocabulário, enxugando lágrimas que não chorou, dores que não sentiu, sofrimentos imaginários que não experimentou. Falam exaltados de fome e saudades, tão desgastadas de tantos já passados. Primário nos rudimentos de sua escrita e aquela pressa moça de subir. Alcançar estatura de poeta, publicar um livro. Oriento para a leitura, reescrever, processar seus dados concretos. Não fechar o caminho, não negar possibilidades. É a linguagem deles, seus sonhos. A escola não os ajudou, inculpados, eles. Todos nós temos a dupla personalidade. O id e o ego. Um representa a sua vida física, material completa. Pode ser brilhante, enriquecida de valores que ajudam a ser felizes, pode ser angustiada e vacilante, incerta, insatisfeita. Mesmo possuindo o que deseja, nada satisfazendo. O id representa sua vida interior paralela, ambivalente, exercendo seu comando em descargas nervosas, no eterno conflito entre a razão e o impulso incontrolado. Dupla vida inter e extra, personalidade se contrapondo. Pode ser trivial e dependente, podemos fazê-la rica e cheia de nobreza, nos valendo da força incomensurável do pensamento positivo emanado da vida interior que é o nosso mundo, invisível a todos, sensível ao nosso ego. Há sempre uma hora maldita na vida de um homem. Pode levá-lo ao crime e às paredes sombrias de uma cela escura. Um curto circuito nas suas baterias carregadas, uma descarga nas linhas de transmissão potencial. Daí, fatos aberrantes que surpreendem. Conclusões demolidoras de um passado brilhante.
Poeminha Amoroso
Este é um poema de amor tão meigo, tão terno, tão teu... É uma oferenda aos teus momentos de luta e de brisa e de céu... E eu, quero te servir a poesia numa concha azul do mar ou numa cesta de flores do campo. Talvez tu possas entender o meu amor. Mas se isso não acontecer, não importa. Já está declarado e estampado nas linhas e entrelinhas deste pequeno poema, o verso; o tão famoso e inesperado verso que te deixará pasmo, surpreso, perplexo... eu te amo, perdoa-me, eu te amo..."
Poema do Milho
Milho ... Punhado plantado nos quintais. Talhões fechados pelas roças. Entremeado nas lavouras, Baliza marcante nas divisas. Milho verde. Milho seco . Bem granado, cor de ouro. Alvo. às vezes vareia, - espiga roxa, vermelha, salpintada. Milho virado, maduro, onde o feijão enrama Milho quebrado, debulhado na festa das colheitas anuais. Bandeira de milho levada para os montes largada pelas roças: Bandeiras esquecidas na fartura. Respiga descuidada dos pássaros e dos bichos. Milho empaiolado . abastança tranqüila do rato, do caruncho. do cupim. Palha de milho para o colchão. Jogada pelos pastos. Mascada pelo gado. Trançada em fundos de cadeiras. Queimada nas coivaras. Leve mortalha de cigarros. Balaio de milho trocado com o vizinho no tempo da planta. "- Não se planta, nos sítios, semente da mcsma terra". Ventos rondando, redemoinhando. Ventos de outubro. Tempo mudado. Revôo de saúva. Trovão surdo, tropeiro. Na vazante do brejo, no lameiro, o sapo-fole, o sapo-ferreiro, o sapo-cachorro. Acauã de rnadrugada marcando o tempo, chamando chuva. Roça nova encoivarada, começo de brotação. Roça velha destocada. Palhada batida, riscada de arado. Barrufo de chuva. Cheiro de terra; cheiro de mato, Terra molhada, Terra saroia. Noite chuvada, relampeada. Dia sombrio. Tempo mudado, dando sinais. Observatório: lua virada. Lua pendida . . Circo amarelo, distanciado, marcando chuva. Calendário, Astronomia do lavrador. planta de milho na lua-nova. Sistema velho colonial. Planta de enxada. Seis grãos na cova, quatro na regra, dois de quebra. Terra arrastada com o pé , pisada, incalcada, mode os bichos. Lanceado certo-cabo-da-enxada.. Vai, vem . . . sobe, desce . . . terra molhada, terra saroia . . . Seis grãos na cova; quatro na regra, dois de quebra Sobe. Desce . , . Camisa de riscado, calça de mescla Vai, vem . . . golpeando a terra, o plantador. Na sombra da moita, na volta do toco - o ancorote d'água: Cavador de milho, que está fazendo? A que milênios vem você plantando. Capanga de grãos dourados a tiracolo. Crente da Terra, Sacerdote da terra. Pai da terra. Filho da terra. Ascendente da terra. Descendente da terra. Ele; mesmo; terra. Planta com fé religiosa. Planta sozinho, silencioso. Cava e planta. Gestos pretéritos, imemoriais.. Oferta remota; patriarcal. Liturgia milenária. Ritual de paz. Em qualquer parte da Terra um homem estará sempre plantando recriando a Vida. Recomeçando o Mundo. Milho plantado; dormindo no chão, aconchegados seis grãos na cova. Quatro na regra, dois de quebra. Vida inerte que a terra vai multiplicar E vem a perseguição: o bichinho anônimo que espia, pressente. A formiga-cortadeira - quenquém. A ratinha do chão, exploradeira. A rosca vigilante na rodilha, O passo-preto vagabundo, galhofeiro, vaiando, sorrindo . . . aos gritos arrancando, mal aponta. O cupim clandestino roendo, minando, só de ruindade. E o miho realiza o milagre genético de nascer: Germina. Vence os inimigos, Aponta aos milhares. - Seis grãos na cova. - Quatro na regra, dois de quebra, Um canudinho enrolado. Amarelo-pálido, frágil, dourado, se levanta. Cria sustância. Passa a verde. Liberta-se. Enraíza, Abre folhas espaldeiradas. Encorpa. Encana. Disciplina, com os poderes de Deus. Jesus e São João desceram de noite na roça , botaram a bênção no milho, E veio com eles uma chuva maneira, criadeira, fininha, uma chuva velhinha, de cabelos brancos, abençoando a infância do milho. O mato vem vindo junto, Sementeira. As pragas todas, conluiadas. Carrapicho. Amargoso. Picão. Marianinha. Caruru-de-espinho. Pé-de-galinha. Colchão. Alcança, não alcança. Competição. Pac . . . Pac . . . Pac . . . a enxada canta. Bota o mato abaixo. arrasta uma terrinha para o pé da planta. "...- Carpa bem feita vale por duas . . ." Quando pode. Quando não... sarobeia. Chega terra O milho avoa. Cresce na vista dos olhos. Aumenta de dia. Pula de noite. Verde Entonado, disciplinado, sadio. Agora ... A lagarta da folha, lagarta rendeira . . . Quem é que vê ? Faz a renda da folha no quieto da noite. Dorme de dia no olho da planta, Gorda; Barriguda. Cheia. Expurgo : . . nada . . . força da lua . . , Chovendo acaba - a Deus querê. " O mio tá bonito ... " "-Vai sê bão o tempo pras lavoras todas .” "- O mio tá marcando . . . " Condicionando o futuro: "- O roçado de seu Féli tá qui fais gosto ... Um refrigério " "- O mio lá tá verde qui chega a s'tar azur..." - Conversam vizinhos e compadres. Milho crescendo, garfando, esporando nas defesas... Milho embandeirado. Embalado pelo vento. "Do chão ao pendão, 60 dias vão". Passou aguaceiro, pé-de-vento. " - O milho acamou . . . " "- Perdido?" . . . Nada... Ele arriba com os poderes de Deus ... " E arribou mesmo; garboso, empertigado, vertical No cenário vegetal um engraçado boneco de frangalhos sobreleva, vigilante. Alegria verde dos periquitos gritadores . . . Bandos em sequência . . . Evolução . . . Pouso . . . retrocesso. Manobras em conjunto. Desfeita formação. Roedores grazinando, se fartando, foliando, vaiando os ingênuos espantalhos. "Jesus e São João andaram de noite passeando na lavoura e botaram a bênção no milho" Fala assim gente de roça e fala certo. Pois não está lá na taipa do rancho o quadro deles, passeando dentro dos trigais? Analogias . . . Coerências. Milho embandeirado bonecando em gestação. - Senhor! . . . Como a roça cheira bem ! Flor de milho, travessa e festiva. Flor feminina, esvoaçante, faceira. Flor masculina - lúbrica, desgraciosa. Bonecas de milho túrgidas, negaceando, se mostrando vaidosas. Túnicas, sobretúnicas . . . saias, sobre-saias . . . Anáguas . . . camisas verdes. Cabelos verdes . . . ~Cabeleiras soltas, lavadas, despenteadas. . . - O milharal é desfile de beleza vegetal. Cabeleiras vermelhas, bastas, onduladas. Cabelos prateados, verde-gaio. Cabelos roxos, lisos, encrespados. Destrançados. Cabelos compridos, curtos, queimados, despenteados . Xampu de chuvas . . . Flagrâncias novas no milharal. - Senhor, como a roça cheira bem!... As bandeiras altaneiras vão se abrindo em formação. Pendões ao vento. Extravasão da libido vegetal. procissão fálica, pagã. Um sentido genésico domina o milharal. Flor masculina erótica, libidinosa, polinizando, fecundando a florada adolescente das bonecas: Boneca de milho, vestida de palha ... Sete cenários defendem o grão Gordas, esguias, delgadas; alongadas Cheias, fecundadas. Cabelos soltos excitantes. Vestidas de palha. Sete cenários defendem o grão, Bonecas verdes, vestidas de noiva Afrodisíacas, nupciais . . . De permeio algumas virgens loucas . . . Descuidadas. Desprovidas. Espigas falhadas. Fanadas. Macheadas. Cabelos verdes. Cabelos brancos. Vermelho-amarelo-roxo, requeimado ... E o pólen dos pendões fertilizando ... Uma fragrância quente, sexual invade num espasmo o milharal. A boneca fecundada vira espiga. Amortece a grande exaltação. Já não importam as verdes cabeleiras rebeladas A espiga cheia salta da haste. O pendão fálico vira ressecado, esmorecido, No sagrado rito da fecundação. Tons maduros de amarelo. Tudo se volta para a terra-mãe. O tronco seco é um suporte, agora, onde o feijão verde trança, enrama, enflora. Montes de milho novo, esquecidos, marcando claros no verde que domina a roça. Bandeiras perdidas na fartura das colheitas. Bandeiras largadas, restolhadas. E os bandos de passo-pretos galhofeiros gritam e cantam na respiga das palhadas. "Não andeis a respigar" - diz o preceito bíblico O grão que cai é o direito da terra. A espiga perdida - pertence às aves que têm seus ninhos e filhotes a cuidar. Basta para ti, lavrador, o monte alto e a tulha cheia. Deixa a respiga para os que não plantam nem colhem - O pobrezinho que passa. - Os bichos da terra e os pássaros do céu.
O Passado...
O salão da frente recende a cravo. Um grupo de gente moça se reúne ali. "Clube Literário Goiano". Rosa Godinho. Luzia de Oliveira. Leodegária de Jesus, a presidência. Nós, gente menor, sentadas, convencidas, formais. Respondendo à chamada. Ouvindo atentas a leitura da ata. Pedindo a palavra. Levantando idéias geniais. Encerrada a sessão com seriedade, passávamos à tertúlia. O velho harmônio, uma flauta, um bandolim. Músicas antigas. Recitativos. Declamavam-se monólogos. Dialogávamos em rimas e risos. D. Virgínia. Benjamim. Rodolfo. Ludugero. Veros anfitriões. Sangrias. Doces. Licor de rosa. Distinção. Agrado. O Passado... Homens sem pressa, talvez cansados, descem com leva madeirões pesados, lavrados por escravos em rudes simetrias, do tempo das acutas. Inclemência. Caem pedaços na calçada. Passantes cautelosos desviam-se com prudência. Que importa a eles o sobrado? Gente que passa indiferente, olha de longe, na dobra das esquinas, as traves que despencam. -Que vale para eles o sobrado? Quem vê nas velhas sacadas de ferro forjado as sombras debruçadas? Quem é que está ouvindo o clamor, o adeus, o chamado?... Que importa a marca dos retratos na parede? Que importam as salas destelhadas, e o pudor das alcovas devassadas... Que importam? E vão fugindo do sobrado, aos poucos, os quadros do Passado.
Segue-me
Presidiário, busca-me na solidão da tua cela e eu te levarei no caminho da recuperação e da paz. Estou encostado a ti. Procura-me com o coração daquele salteador condenado, a quem perdoei todos os crimes pela força do arrependimento e esperança da salvação. Chama por mim. Ouvirei o teu clamor. Tomarei nas minhas tuas mãos armadas e farei de ti um trabalhador pacífico da terra. Segue-me. Estou ao teu lado, sou tua sombra. Abrirei os cárceres do teu espírito, encherei de luz, não só tua cela escura, senão, também, a cela escura do teu entendimento Segue-me. Jovem, eu te livrarei do vício e do fracasso. Da droga destruidora e te farei direito, Pelos caminhos entortados. Segue-me.
Todas as Vidas
Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando para o fogo. Benze quebranto. Bota feitiço... Ogum. Orixá. Macumba, terreiro. Ogã, pai-de-santo... Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho. Seu cheiro gostoso d'água e sabão. Rodilha de pano. Trouxa de roupa, pedra de anil. Sua coroa verde de São-caetano. Vive dentro de mim a mulher cozinheira. Pimenta e cebola. Quitute bem feito. Panela de barro. Taipa de lenha. Cozinha antiga toda pretinha. Bem cacheada de picumã. Pedra pontuda. Cumbuco de coco. Pisando alho-sal. Vive dentro de mim a mulher do povo. Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharada. Vive dentro de mim a mulher roceira. -Enxerto de terra, Trabalhadeira. Madrugadeira. Analfabeta. De pé no chão. Bem parideira. Bem criadeira. Seus doze filhos, Seus vinte netos. Vive dentro de mim a mulher da vida. Minha irmãzinha... tão desprezada, tão murmurada... Fingindo ser alegre seu triste fado. Todas as vidas dentro de mim: Na minha vida - a vida mera das obscuras!