Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Busque Amor novas artes, novo engenho Pera matar-me, e novas esquivanças, Que não pode tirar-me as esperanças, Que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho! Vede que perigosas seguranças! Que não temo contrastes nem mudanças, Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, enquanto não pode haver desgosto Onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê,
Que dias há que na alma me tem posto Um não sei quê, que nasce não sei onde, Vem não sei como e dói não sei porquê.
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Erros meus, má fortuna, amor ardente Em minha perdição se conjuraram; Os erros e a fortuna sobejaram, Que pera mim bastava amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente A grande dor das cousas que passaram, Que as magoadas iras me ensinaram A não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos; Dei causa [a] que a Fortuna castigasse As minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos. Oh! quem tanto pudesse, que fartasse Este meu duro Génio de vinganças!
Onde acharei lugar tão apartado
Onde acharei lugar tão apartado E tão isento em tudo da ventura, Que, não digo eu de humana criatura, Mas nem de feras seja frequentado?
Algum bosque medonho e carregado, Ou selva solitária, triste e escura, Sem fonte clara ou plácida verdura, Enfim, lugar conforme a meu cuidado?
Porque ali, nas entranhas dos penedos, Em vida morto, sepultado em vida, Me queixe copiosa e livremente;
Que, pois a minha pena é sem medida, Ali triste serei em dias ledos E dias tristes me farão contente.
O fogo que na branda cera ardia
O fogo que na branda cera ardia, Vendo o rosto gentil que eu na alma vejo, Se acendeu de outro fogo do desejo, Por alcançar a luz que vence o dia.
Como de dous ardores se incendia, Da grande impaciência fez despejo, E, remetendo com furor sobejo, Vos foi beijar na parte onde se via.
Ditosa aquela flama, que se atreve A apagar seus ardores e tormentos Na vista de que o mundo tremer deve!
Namoram-se, Senhora, os Elementos De vós, e queima o fogo aquela neve Que queima corações e pensamentos.
Se me vem tanta glória só de olhar-te, É pena desigual deixar de ver-te; Se presumo com obras merecer-te, Grão paga de um engano é desejar-te.
Se aspiro por quem és a celebrar-te, Sei certo por quem sou que hei-de ofender-te; Se mal me quero a mim por bem querer-te, Que prémio querer posso mais que amar-te?
Porque um tão raro amor não me socorre? Ó humano tesouro! Ó doce glória! Ditoso quem à morte por ti corre!
Sempre escrita estarás nesta memória; E esta alma viverá, pois por ti morre, Porque ao fim da batalha é a vitória.
Vencido está de amor
Vencido está de amor Meu pensamento O mais que pode ser Vencida a vida, Sujeita a vos servir e Instituída, Oferecendo tudo A vosso intento.
Contente deste bem, Louva o momento Outra vez renovar Tão bem perdida; A causa que me guia A tal ferida, Ou hora em que se viu Seu perdimento.
Mil vezes desejando Está segura Com essa pretensão Nesta empresa, Tão estranha, tão doce, Honrosa e alta
Voltando só por vós Outra ventura, Jurando não seguir Rara firmeza, Sem ser no vosso amor Achado em falta.