No desequilíbrio dos mares, as proas giram sozinhas... Numa das naves que afundaram é que certamente tu vinhas.
Eu te esperei todos os séculos sem desespero e sem desgosto, e morri de infinitas mortes guardando sempre o mesmo rosto
Quando as ondas te carregaram meus olhos, entre águas e areias, cegaram como os das estátuas, a tudo quanto existe alheias.
Minhas mãos pararam sobre o ar e endureceram junto ao vento, e perderam a cor que tinham e a lembrança do movimento.
E o sorriso que eu te levava desprendeu-se e caiu de mim: e só talvez ele ainda viva dentro destas águas sem fim.
Cantiguinha
Meus olhos eram mesmo água - te juro - mexendo um brilho vidrado, verde-claro, verde-escuro.
Fiz barquinhos de brinquedo -te juro - fui botando todos eles naquele rio tão puro.
Veio vindo a ventania -te juro - as águas mudam seu brilho, quando o tempo anda inseguro.
Quando as águas escurecem -te juro - todos os barcos se perdem, entre o passado e o futuro.
São dois rios os meus olhos - te juro - noite e dia correm, correm, mas não acho o que procuro.
De um lado cantava o sol
De um lado cantava o sol, do outro, suspirava a lua. No meio, brilhava a tua face de ouro, girassol!
Ó montanha da saudade a que por acaso vim: outrora, foste um jardim, e és, agora, eternidade! De longe, recordo a cor da grande manhã perdida. Morrem nos mares da vida todos os rios do amor?
Ai! celebro-te em meu peito, em meu coração de sal, Ó flor sobrenatural, grande girassol perfeito!
Acabou-se-me o jardim! Só me resta, do passado, este relógio dourado que ainda esperava por mim . . .
Encomenda
Desejo uma fotografia como esta o senhor vê? como esta: em que para sempre me ria com um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria, Derrame luz na minha testa. Deixe esta ruga, que me empresta um certo ar de sabedoria. Não meta fundos de floresta nem de arbitrária fantasia... Não...Neste espaço que ainda resta, ponha uma cadeira vazia.
Explicação
O pensamento é triste; o amor insuficiente; e eu quero sempre mais do que vem nos milagres. Deixo que a terra me sustente guardo o resto para mais tarde. Deus não fala comigo e eu sei que me conhece. A antigos ventos dei as lágrimas que tinha. A estrela sobe, a estrela desce ... - espero a minha própria vinda. (Navego pela memória sem margens. Alguém conta a minha história E alguém mata os personagens.)
Fio
No fio da respiração, rola a minha vida monótona, rola o peso do meu coração.
Tu não vês o jogo perdendo-se como as palavras de uma canção.
Passas longe, entre nuvens rápidas, com tantas estrelas na mão...
Para que serve o fio trêmulo em que rola o meu coração?
Houve um poema
Houve um poema, entre a alma e o universo. Não há mais. Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos. Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.
Houve um poema: Parecia perfeito. Cada palavra em seu lugar, como as pétalas nas flores e as tintas no arco-íris. No centro, mensagem doce E intransmitida jamais.
Houve um poema: e era em mim que surgia, vagaroso. Já não me lembro, e ainda me lembro. As névoas da madrugada envolvem sua memória. É uma ténue cinza. O coral do horizonte é um rastro de sua cor. Derradeiro passo.
Houve um poema. Há esta saudade. Esta lágrima e este orvalho - simultâneos - que caem dos olhos e do céu.
Lua Adversa
Tenho fases, como a lua. Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vem, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso.
E roda a melancolia seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém (tenho fases, como a lua...) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu...
Meu sonho
Parei as águas do meu sonho para teu rosto se mirar. Mas só a sombra dos meus olhos ficou por cima, a procurar... Os pássaros da madrugada não têm coragem de cantar, vendo o meu sonho interminável e a esperança do meu olhar. Procurei-te em vão pela terra, perto do céu, por sobre o mar. Se não chegas nem pelo sonho, por que insisto em te imaginar ? Quando vierem fechar meus olhos, talvez não se deixem fechar. Talvez pensem que o tempo volta, e que vens, se o tempo voltar.
Murmúrio
Traze-me um pouco das sombras serenas que as nuvens transportam por cima do dia! Um pouco de sombra, apenas, - vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares que a noite sustenta no teu coração! A alvura, apenas, dos ares: - vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança, aroma perdido, saudade da flor! - Vê que nem te digo - esperança! - Vê que nem sequer sonho - amor!
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face?
Reinvenção
A vida só é possível reinventada.
Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas. . . Ah! tudo bolhas que vêm de fundas piscinas de ilusionismo... mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços. Projeto-me por espaços cheios da tua Figura. Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcança... Só - no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva. Só - na trevas fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Se eu fosse apenas...
Se eu fosse apenas uma rosa, Com que prazer me desfolhava, Já que a vida é tão dolorosa E não te sei dizer mais nada!
Se eu fosse apenas água ou vento, Com que prazer me desfaria, Como em teu próprio pensamento Vais desfazendo a minha vida!
Perdoa-me causar-te a mágoa Desta humana amarga demora! De ser menos breve do que a água, Mais durável que o vento e a rosa...
Serenata
Permita que eu feche os meus olhos, pois é muito longe e tão tarde! Pensei que era apenas demora, e cantando pus-me a esperar-te.
Permite que agora emudeça: que me conforme em ser sozinha. Há uma doce luz no silencio, e a dor é de origem divina.
Permite que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo.
Sou Poeta
Eu canto porque o instante existe E a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: Sou poeta.
Irmão das coisas fugidias, Não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias No vento.
Se desmorono ou se edifico, Se permaneço ou me desfaço, - Não sei, não sei. Não sei se fico Ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: Mais nada.
Timidez
Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída das montanhas dos instantes desmancha todos os mares e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes, entre os ventos taciturnos, apago meus pensamentos, ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres, os mundos vão navegando nos ares certos do tempo, até não se sabe quando...
e um dia me acabarei.
Um céu maior que este mundo
Permite que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo