Apenas vi do dia a luz brilhante Lá de Tubal no empório celebrado, Em sangüíneo caráter foi marcado Pelos destinos meu primeiro instante. Aos dois lustros a morte devorante Me roubou, terna mãe, teu doce agrado; Segui Marte depois, e enfim meu fado Dos irmãos, e do pai me pôs distante. Vagando a curva terra, o mar profundo, Longe da pátria, longe da ventura Minhas faces com lágrimas inundo. E enquanto insana multidão procura Essas quimeras, esses bens do mundo, Suspiro pela paz da sepultura.
Das faixas infantis despido apenas
II
Das faixas infantis despido apenas, Sentia o sacro fogo arder na mente; Meu tenro coração inda inocente, Iam ganhando as plácidas Camenas. Faces gentis, angélicas, serenas, De olhos suaves o volver fulgente, Da ideia me extraíam de repente Mil simples, maviosas cantilenas. O tempo me soprou fervor divino, E as Musas me fizeram desgraçado, Desgraçado me fez o deus-menino. A Amor quis esquivar-me, e ao dom sagrado: Mas vendo no meu génio o mau destino, Que havia de fazer? Cedi ao fado.
Incultas produções da mocidade
III
Incultas produções da mocidade Exponho a vossos olhos, ó leitores: Vede-as com mágoa, vede-as com piedade, Que elas buscam piedade, e não louvores. Ponderai da Fortuna a variedade Nos meus suspiros, lágrimas e amores; Notai dos males seus a imensidade, A curta duração de seus favores. E se entre versos mil de sentimento Encontrardes alguns, cuja aparência Indique festival contentamento, Crede, ó mortais, que foram com violência Escritos pela mão do Fingimento, Cantados pela voz da Dependência.
Chorosos versos meus desentoados
IV
Chorosos versos meus desentoados, Sem arte, sem beleza, e sem brandura, Urdidos pela mão da Desventura, Pela baça tristeza envenenados; Vede a luz, não busqueis, desesperados, No mudo esquecimento a sepultura; Se os ditosos vos lerem sem ternura, Ler-vos-ão com ternura os desgraçados Não vos inspire, ó versos, cobardia Da sátira mordaz o furor louco, Da maldizente voz a tirania. Desculpa tendes, se valeis tão pouco; Que não pode cantar com melodia Um peito, de gemer cansado e rouco.
De suspirar em vão já fatigado
V
De suspirar em vão já fatigado, Dando tréguas a meus males, eu dormia. Eis que junto de mim sonhei que via Da morte o gesto lívido e mirrado. Curva fouce no punho descarnado Sustentava a cruel, e me dizia: ¨Eu venho terminar tua agonia; Morre, não penes mais, ó desgraçado... ¨Quis ferir-me, e de Amor foi atalhada. Que armada de cruentos passadores Aparece, e lhe diz com voz irada: ¨Emprega noutro objeto os teus rigores; Que esta vida infeliz está guardada Para vítima só de meus furores¨.
Morte, Juízo, Inferno e Paraíso
VI
Em que estado meu bem, por ti me vejo, Em que estado infeliz, penoso, e duro! Delido o coração de um fogo impuro Meus pesados grilhões adoro e beijo. Quando te logro mais, mais te desejo, Quando te encontro mais, mais te procuro, Quando mo juras mais, menos seguro Julgo esse doce amor, que adorna o pejo. Assim passo, assim vivo, assim meus fados Me desarreigam da alma a paz, e o riso, Sendo só meu sustento os meus cuidados. E, de todo apagada a luz do siso, Esquecem-me (ai de mim!) por teus agrados Morte, juízo, inferno e paraíso.
Senhor, que estás no céu
VII
Senhor que estás no céu, que vês na terra Meu frágil coração desfeito em pranto, Pelas ânsias mortais, o ardor, o encanto Com que lhe move Amor terrível guerra. Já que poder imenso em ti se encerra, Já que aos ingênuos ais atendes tanto, Socorre-me, entre os Santos Sacrossanto, Criminosas paixões de mim desterra. Fugir aos laços de um gentil semblante Não posso eu só: da tua mão preciso Com que prostrou Davi o atroz gigante: Fira-me a contrição, torne-me o siso, Acode-me, Senhor, põe-me diante Morte, juízo, inferno e paraíso.
Morres de fraco? Morres de atrevido
VIII
Aflito coração, que o teu tormento, Que os teus desejos tácito devoras, E ao doce objeto, ás perfeições adoras, Só te vás explicar co(m) pensamento. Infeliz coração, recobra alento, Seca as inúteis lágrimas, que choras; Tu cevas o teu mal, porque demoras Os vôos ao ditoso atrevimento. Inflama surdos ais, que o medo esfria; Um bem tão suspirado, e tão subido, Como se há de ganhar sem ousadia? Ao vencedor afoute-se o vencido; Longe o respeito, longe a cobardia; Morres de fraco? Morres de atrevido.
Para criar tua alma e teu semblante
IX
Marília, nos teus olhos buliçosos Os amores gentis seu facho acendem; A teus lábios voando os ares fendem Terníssimos desejos sequiosos: Teus cabelos subtis e luminosos Mil vistas cegam, mil vontades prendem; E em arte aos de Minerva se não rendem Teus alvos curtos dedos melindrosos: Reside em teus costumes a candura. Mora a firmeza no teu peito amante, A razão com teu riso se mistura: És dos céus o composto mais brilhante; Deram-se as mãos Virtude e Formosura Para criar tua alma e teu semblante.
Por esta solidão que não consente
X
Por esta solidão que não consente Nem do sol, nem da lua a claridade; Ralando o peito já pela saudade Dou mil gemidos a Marília ausente. De seus crimes a mancha inda recente Lava Amor, e triunfa da verdade; A beleza, apesar da falsidade, Me ocupa o coração, me ocupa a mente. Lembram-me aqueles olhos tentadores, Aquelas mãos, aquele riso, aquela Boca suave, que respira amores... Ah! Trazei-me, ilusões, a ingrata, a bela! Pintai-me vós, ó sonhos, entre flores Suspirando outra vez nos braços dela.
Olha, Marília, as flautas dos pastores
XI
Olha, Marília, as flautas dos pastores Que bem que soam, como estão cadentes! Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes Os Zéfiros brincar por entre flores? Vê como ali beijando-se os Amores Incitam nossos ósculos ardentes! Ei-las de planta em planta as inocentes, As vagas borboletas de mil cores. Naquele arbusto o rouxinol suspira, Ora nas folgas a abelhinha pára, Ora nos ares sussurando gira: Que alegre campo! Que amanhã tão clara! Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira, Mais tristeza que a morte me causara.
A frouxidão no amor é uma ofensa
XII
A frouxidão no amor é uma ofensa, Ofensa que se eleva a grau supremo; Paixão requer paixão; fervor, e extremo; Com extremo e fervor se recompensa. Vê qual sou, vê qual és, vê que dif(e)rença! Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo; Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo; Em sombras a razão se me condensa. Tu só tens gratidão, só tens brandura, E antes que um coração pouco amoroso Quisera ver-te uma alma ingrata e dura. Talvez me enfadaria aspecto iroso; Mas de teu peito a lânguida ternura Tem-se cativo, e não me faz ditoso.
Os garços olhos em que Amor brincava
XIII
Os garços olhos em que Amor brincava Os rubros lábios, em que Amor se ria, As longas tranças, de que Amor pendia, As lindas faces, onde Amor Brilhava: As melindrosas mãos, que Amor beijava, Os níveos braços, onde Amor dormia, Foram dados, Armânia, à terra fria, Pelo fatal poder que a tudo agrava. Seguiu-te Amor ao tácito jazigo, Entre as irmãs cobertas de amargura; E eu que faço (ai de mim!) como não os sigo! Que há no mundo que ver, se a formosura, Se Amor, se as Graças, se o prazer contigo Jazem no eterno da sepultura?
Convite à Marília
XIV
Já se afastou de nós o inverno agreste Envolto nos seus húmidos vapores; A fértil Primavera,a mãe das flores, O prado ameno de boninas veste:
Varrendo os ares o subtil Nordeste Os torna azuis;as aves de mil cores Adejam entre Zéfiros e Amores , E toma o fresco Tejo a cor celeste:
Vem,ó Marília,vem lograr comigo Destes alegres campos a beleza, Destas copadas árvores o abrigo:
Deixa louvar da corte a vã grandeza: Quanto me agrada mais estar contigo Notando as perfeições da Natureza!
Ó céus! Que sinto n'alma!
XV
Ó céus! Que sinto n'alma! Que tormento! Que repentino frenesi me anseia! Que veneno a ferver de veia em veia Me gasta a vida, me desfaz o alento! Tal era, doce amada, o meu lamento; Eis que esse deus, que em prantos se recreia, Me diz: - ¨A que se expõe quem não receia Contemplar Ursulina um só momento! ¨Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura De seus olhos travessos, e co´ um tiro Puni tua sacrílega loucura: De morte, por piedade hoje te firo; Vai pois, vai merecer na sepultura A tua linda ingrata algum suspiro.
Fiei-me nos sorrisos da ventura
XVI
Fiei-me nos sorrisos da ventura, Em mimos feminis, como fui louco! Vi raiar o prazer; porém tão pouco Momentâneo relâmpago não dura. No meio agora desta selva escura, Dentro deste penedo úmido e oco Pareço, até no tom lúgubre e rouco, Triste sombra a carpir na sepultura. Que estância para mim tão própria é esta! Causais-me um doce e fúnebre transporte, Áridos matos, lôbrega floresta. Ah! não me roubou tudo a negra sorte: Inda tenho este abrigo, inda me resta O pranto, a queixa, a solidão e a morte.
Meu frágil coração, para que adoras?
XVII
Meu frágil coração, para que adoras, Para que adoras, se não tens ventura? Se uns olhos, de quem ardes na luz pura, Folgando estão das lágrimas que choras? Os dias vês fugir, voar as horas Sem achar neles visos de ternura; E inda a louca esperança te figura O prémio dos martírios, que devoras! Desfaze as trevas de um funesto engano, Que não hás de vencer a inimizade De um génio contra ti sempre tirano. A justa, a sacrossanta divindade Não força, não violenta o peito humano, E queres constranger-lhe a liberdade?
Teus mimosos pés, meu bem, rendido
XVIII
A teus mimosos pés, meu bem, rendido, Confirmo os votos, que a traição manchara; Fumam de novo incensos sobre a ara Que a vil ingratidão tinha abatido. De novo sobre as asas de um gemido Te of´(e)reço o coração, que te agravara; Saudoso torno a ti, qual torna à cara Perdida pátria o mísero banido. Renovemos o nó por mim desfeito, Que eu já maldigo o tempo desgraçado Em que a teus olhos não vivi sujeito; Concede-me outra vez o antigo agrado; Que mais queres? Eu choro, e no meu peito O punhal do remorso está cravado.
A morte para os tristes é ventura
XIX
Quem se vê maltratado e combatido Pelas cruéis angústias da indigência: Quem sofre de inimigos a violência, Quem geme de tiranos oprimido: Quem não pode ultrajado e perseguido Achar nos céus, ou nos mortais clemência: Quem chora finalmente a dura ausência De um bem, que para sempre está perdido: Folgará de viver, quando não passa Nem um momento em paz, quando amargura O coração lhe arranca e despedaça? Ah! Só deve agradar-lhe a sepultura, Que a vida para os tristes é desgraça, A morte para os tristes é ventura.
A morte para o justo é recompensa
XX
De radiosas virtudes escoltada Deste imaturo adeus ao mundo triste Co(m)´a mente no almo pólo, aonde existe Bem, que sempre se goza e nunca enfada, À fouce, a segar vidas destinada, Mansíssima cordeira o colo uniste; O que é do céu ao céu restituíste, Restituíste ao nada o que é do nada. E inda gemo, inda choro, alma querida, Teu fado amigo, tua dita imensa, Que em vez de pranto a júbilo convida! Ah! Pio acordo minha mágoa vença; É cativeiro para o justo a vida. A morte para o justo é recompensa.
Lamenta solitário a perda da sua amada
XXI
O corvo grasnador e o mocho feio, O sapo berrador e a rã molesta São meus únicos sócios na floresta, Onde carpindo estou,de angústia cheio:
Perdi todo o prazer,todo o receio... Ah,malfadado amor,paixão funesta! Ursulina perdi,nada me resta; Madre terra !Agasalha-me em teu seio:
Da vibora mordaz permite,ó Sorte, Que nos matos aspérrimos que piso As plantas me envenene o ténue corte!
Ah!Que de Graças?Que é do paraíso? A minha alma onde esta?Quem logra...ó Morte, Quem logra de Ursulina o doce riso?
O templo do ciúme
XXII
Guiou-me ao templo do letal Ciúme A Desesperação que em mim fervia, O cabelo de horror se me arrepia Ao recordar o formidável nume:
Fumegava-lhe aos pés tartáreo lume, Crespa serpe as entranhas lhe roía; Eram ministros seus a Aleivosia, O Susto,a Morte,a Cólera,o Queixume:
«Cruel!»(grito em frenético transporte) «Dos sócios teus ,no báratro gerados, Dá-me um só,que te invejo,a Morte,a Morte.»
«Cessa»(diz),«os teus rogos são baldados: Querem ter-te no mundo Amor, e a Sorte, Para consolação dos desgraçados.»
Sofrei que logre os vãos contentamentos Que sonham minhas doidas esperanças; A posse de alvo rosto,e louras tranças, Onde presos estão meus pensamentos:
Deixai-me confiar na formusura, Cruéis!Deixai-me crer num doce engano, Blasonar de fantástica ventura.
Que mais mal me quereis,que maior dano, Do que vagar nas trevas da loucura, Aborrecendo a luz do desengano?
Recreios campestres na companhia de Marília
XXIV
Olha bem,as pautas dos pastores Que bem que soam,como estão cadentes! Olha o Tejo a sorrir-se!Olha ,não sentes Os Zéfiros brincar por entre as flores?
Vê como ali beijando-se os Amores Incitam nosso ósculos ardentes! Ei-las de planta em planta as inocentes, As vagas borboletas de mil cores!
Naquele arbusto o rouxinol suspira, Ora nas folhas a abelhinha pára, Ora nos ares sussurrando gira:
Que alegre campo!Que manhã tão clara! Mas ah!Tudo o que vês,se eu te não vira, Mais tristeza que a morte me causara.
Desenganado do amor e da fortuna
XXV
Fiei-me nos sorrisos da ventura, Em mimos femenis ,como fui louco! Vi raiar o prazer ;porém tão pouco Momentâneo relâmpago não dura:
No meio agora desta selva escura, Dentro deste penedo húmido e oco, Pareço, até no tom lúgrubre e rouco, Triste sombra a capir na sepultura:
Que estância para mim tão própria é esta! Causais-me um doce e fúnebre transporte, Áridos matos,lôbrega floresta!
Ah!não me roubou tudo a negra sorte: Inda tenho este abrigo,inda me resta O pranto,a queixa,a solidão e a morte.
À constância de Dido
XXVI
Arde em vão por Elisa,em vão porfia Contra a constância da heroína augusta O bárbaro senhor d,África adusta, Que do sangue de Jove se gloria:
Em vão lhe of,rece a vasta monarquia, Aonde a espádua atlântica robusta Sustenta os céus,o caminhante assusta, E hórridos monstros indomáveis cria:
Não cede Elisa;e vendo que furioso Usa da força o líbico tirano, Ela intrépida escolhe um fim glorioso.
Mentes,mentes,injusto mantuano! Dido infeliz foi vítima do esposo, Foi vitíma da fé ,não do troiano.
Aos anos da Sra D.Maria Joaquina de Melo
XXVII
Há pouco a mãe das Graças,dos Amores, Gerada pela espuma cristalina, Baixou asas da etéra região divina Nas asas dos Favóritos voadores:
«Ó das margens do Tejo habitadores! Hoje torna a luzir»(disse Ericina) «O ledo instante em que nasceu Marina, Ínclito fruto de ínclitos maiores:
«Do céu,do mar,da terra os soberanos Imprimindo-lhe encantos a milhares, Criaram nela a glória dos humanos:
«Eia,cantai-lhe os dotes singulares, Louvai seus olhos,aplaudi seus anos, Queimai-lhe aromas, erigi-lhe altares.»
Volvendo a amar de novo uma dama desprezada
XXVII
A teus mimosos pés,meu bem,rendido, Confirmo os votos,que a traição manchara; Fumam de novo incensos sobre a ara, Que a vil ingratidão tinha abatido:
De novo sobre as asas de um gemido Te of,reço o coração,que te agravara; Saudoso torno a ti,qual torna à cara Perdída pátria o mísero banido:
Renovemos o nó por mim desfeito, Que eu já maldigo o tempo desgraçado Em que a teus olhos não vivi sujeito;
Concede-me outra vez o antigo agrado; Que mais queres ?Eu choro,e no meu peito O punhal do remorso está cravado.
Celebra as graças de Elmira
XXIX
Os suaves eflúvios,que respira A flor de Vénus,a melhor das flores, Exala de teus lábios tentadores, Ó doce,ó bela,ó desejada Elmira;
A que nasceu das ondas ,se te vira, A seu pesar cantara os teus louvores; Ditoso quem por ti morre d,amores! Ditoso quem por ti,meu bem,suspira!
E mil vezes ditoso o que merece Um teu furtivo olhar,um teu sorriso, Por quem da mãe formosa Amor se esquece!
O sacrílego ateu,sem lei,sem siso, Contemple-te uma vez,que então conhece Que é força haver um Deus e um Paraíso.
Antepõe o amor de Jónia às honras e riquezas
XXX
Esses tesouros ,esses bens sagrados Para os cegos mortais,bens de que abunda Ásia guerreira ,América fecunda, Filhos da terra,pelo sol gerados:
Honras,grandezas ,títulos inchados, Servil incenso,adulação jucunda, Não quero,naõ,que sobre mim difunda Amiga dextra de risonhos Fados:
Quero que as Fúrias hórridas m,escoltem, Quero que contra mim,que em vão deliro, Os racionais e irracionais se voltem:
Quero da morte o formidável tiro, Contanto,ó Jónia,que meus lábios soltem Nesses teus lábios o final suspiro.
Consolações na tirania de uma ingrata
XXXI
Meu frágil coração,para que adoras, Para que adoras,se não tens ventura? Se uns olhos,de quem ardes na luz pura, Folgando estão das lágrimas que choras?
Os dias vês fugir,voar as horas, Sem achar neles visos de ternura; E inda a louca esperança te figura O prémio dos martírios,que devoras!
Desfaze as trevas de um funesto engano, Que não hás -de vencer a inimizade De um génio contra ti sempre tirano:
A justa,a sacrossanta divinidade Não força,não violenta o peito humano, E queres constranger-lhe a liberdade?
À morte de uma formosa dama
XXXII
Os garços olhos,em que Amor brincava, Os rubros lábios,em que Amor se ria, As longas tranças,de que Amor pendia, As lindas faces,onde Amor brilhava:
As melindrosas mãos ,que Amor beijava, Os níveos braços,onde Amor dormia, Foram dados,Armânia,à terra fria, Pelo fatal poder que a tudo agrava:
Seguiu-te Amor ao tácito jazigo, Entre as irmãs cobertas de amargura; E eu que faço(ai de mim!) como os não sigo!
Que há no mundo que ver,se a formosura, Se Amor,se as Graças,se o prazer contigo, Jazem no eterno horror da sepultura?
Queixumes contra um rival preferido
XXXIII
Não disfarces,Marília;por Josino Já nos teus olhos a paixão flameja; E em que parte estará,que se não veja O tenro deus,o alígero menino?
Inda que ostentes de ânimo ferino, Há quem teu níveo peito abrase e reja; Porém,Marília,dize-me qual seja A causa justa de um amor tão fino?
Nesse,que as esquivanças te suaviza, Encontras uma férvida ternura, Um coração brioso,uma alma lisa?
Seus méritos quais são?...Mas,ó loucura! Quem é feliz,que méritos precisa? Que dons há-de mister quem tem ventura?
A Ursulina distante
XXXIV
Ursulina gentil,benigna e pura, Eis nas asas subtis de um ai cansado A ti meu coração voa alagado Em torrentes de sangue e de ternura:
Põe-lhe os olhos,meu bem;vê com brandura Seu miseravél,doloroso estado; Que nas garras da morte já cravado A fé,que te jurava,inda te jura:
Põe-lhe os olhos ,meu bem ,suavemente, Põe-lhe os mimosos dedos na ferida, Palpa de Amor a vítima inocente;
E por milagres deles ,ó querida, Verás cerrar-se o golpe,e de repente Em ondas de prazer tornar-lhe a vida.
Queixas contra a ingratidão de Marília
XXXV
Em veneno letífero nadando, No roto peito o coração me arqueja; E ante meus olhos hórrido negreja De mortais aflições espesso bando:
Por ti Marília,ardendo,e delirando Entre as garras aspérrimas da Inveja, Amaldiçoo Amor,que ri,e adeja Pelos ares,cos Zéfiros brincando:
Recreia-se o traidor com meus clamores, E meu cioso pranto...ó Jove,ó nume, Que vibras os coriscos vingadores!
Abafa as ondas do tartáreo lume, Que para os que provam teus furores Tens inferno pior,tens ciúme.
Oferenda a Nise
XXXVI
Do abusto,ó Nise,a Vénus consagrado Envisquei hoje um trémulo raminho, Pousou nele este incauto passarinho, E pelos tenros pés ficou pegado:
Então,depois de o ter na mão fechado, Corri,dizendo alegre:«Eu advinho Que há-de Nise estimar que o meu carinho Lhe dedique este músico do prado.»
Disse;e no mesmo instante a simples ave Desata a linda voz e pricinpia Um canto harmonioso,agudo e grave:
Ah!por ser tua,entendo que dizia Que a prisão mais gostosa e mais suave Que a própria liberdade encontraria!
Insônia
XXXVII
Ó retrato da morte,ó Noite amiga Por cuja escuridão suspiro há tanto! Calada testemunha de meu pranto, De meus desgostos secretária antiga!
Pois manda ,Amor,que a ti somente os diga, Dá-lhes pio agasalho no teu manto; Ouve-os,como costumas ,ouve , enquanto Dorme a cruel, que a delirar me obriga:
E vós,ó cortesãos da escuridade, Fantasmas vagos,mochos piadores, Inimigos ,como eu,da claridade!
Em bandos acudi aos meus clamores; Quero a vossa medonha sociedade, Quero fartar meu coração de horrores.
Festejando o dia natalício de Anarda
XXXVIII
Vinde,Prazeres,que por entre flores Nos jardins de Citera andais brincando, E vós,despidas Graças,que dançando Trinais alegres sons encantadores:
Deusa dos gostos,deusa dos amores, Ah!,dos filhinhos teus ajunta o bando, E vem nas asas de Favónio brando Dar força ,dar beleza,a meus louvores.
Da linda Anarda minha voz aspira A cantar o natal;tu,por clemência, O teu fiel cantor,deidade,inspira:
Do trácio vate empresta-me a cadência, E faze que mereça a minha lira Os cândidos sorrisos da inocência.
Lastimando a ingratidão de Nise
XXXIX
Canta ao som dos grilhões o prisioneiro, Ao som da tempestade o nauta ousado, Um porque espera o fim cativeiro, Outro antevendo o porto desejado:
Explora a vida ao tigre mosqueado, Gira sertões o sôfrego mineiro, Da esperança dos lucros encantado, Que anima o peito vil e interesseiro:
Por entre armadas hostes destemido Rompe o sequaz do horrífico Mavorte, Co triunfo,coa glória no sentido:
Só eu (tirano Amor!,tirana sorte!) Só eu por Nise ingrata aborrecido Para ter fim meu pranto espero a morte.
O ciúme
XL
Entre as tartáreas forjas,sempre acesas, Jaz aos pés do tremendo,estígio nume, O carrancudo,o rábido Ciúme, Ensanguentadas as corruptas presas:
Traçando o plano de cruéis empresas, Fervendo em ondas de sulfúreo lume, Vibra da fauces o letal cardume De hórridos males ,de hórridas tristezas;
Pelas terríveis Fúrias instigado Lá sai o Inferno,e para mim se avança O negro monstro,de áspides toucado:
Olhos em brasa de revés me lança, Ó dor!Ó raiva,Ó morte!...Ei-lo a meu lado, Ferrando as garras na vipérea trança.
A esquivança de Armia
XLI
Pela porta de ferro ,onde ululando O cão trifauce está perpetuamente, Entraste,Orfeu,coa cítara eloquente Os monstros infernais domesticos:
Penedos com teus sons amontando Lá ergues Tebas ,Anfíon cadente; Pulsa Aríon a lira,e de repente Vê delfins,vê tritões no mar dançando:
Tu,linguagem do Céu,tu,melodia, A tudo encantas,para tudo és forte, Menos para aplacar a ingrata Armia:
Mais fácil te há-de-ser.domando a sorte, Ir de novo à tartára monarquia Ver outra vez o cárcere da morte!
Desengano de amor
XLII
Triste quem ama,cego quem se fia Da feminina voz na vã promessa! Aspira a vê-la estável!Mais depressa O facho apagará que espalha o dia:
Alada exalação,que na sombria Tácita noite os ares atravessa, Foi comigo a paixão volúvel dessa Que o peito me afagava e me feria:
Do desengano o bálsamo lhe aplico, E a teus laços,Amor ,sem medo exponho Dos benéficos céus o dom mais rico:
Vejo mil Circes plácido risonho; E se fé me prometem,ouço,e fico Como quem despertou de aéreo sonho.
Amor triunfando da magia
XLIII
Busquei num ermo Algânia feiticeira, Que de abrasado feixe a par jazia; Fui ver se atro conjunto me extorquia Do laço antigo esta alma prisioneira:
Expus-lhe minha fé minha cegueira, Tracei meus males,e a rugosa estria Cedendo às ternas mágoas,que me ouvia, Cuspiu três vezes na voraz fogueira:
Trémulas preces murmurou,e eu mudo; Eis que as melenas em sinal d,espanto Eriça com semblante carrancudo:
«Meu rito é vão»(me diz)«e é vão teu pranto; O poderoso Amor zomba de tudo, Não vence encanto algum d,Amor o encanto.»
A razão dominada pela formosura
XLIV
Importuna Razão,não me persigas, Cesse a ríspida voz que em vão murmura; Se a lei de Amor,se a força da ternura Nem domas,nem contrastas,nem mitigas:
Se acusas os mortais,e os não abrigas, Se (conhecendo o mal) não dás a cura, Deixa-me apreciar minha loucura, Importuna Razão,não me persigas.
É teu fim,teu projecto,encher de pejo Esta alma,frágil vítima daquela Que,injusta e vária,noutros laços vejo:
Queres que fuja de Marília bela, Que a maldiga a desdenhe; e o meu desejo É carpir,delirar morrer por ela.
Queixumes contra os desprezados da sua amada
XLV
Ó trevas,que enlutais a natureza, Longos ciprestes desta selva anosa, Mochos de voz sinistra,e lamentosa, Que dissolveis dos fados a incerteza:
Manes,surgidos da morada acesa Onde de horror sem fim Plutão se goza, Não aterreis esta alma dolorosa, Que é mais triste que vós minha tristeza:
Perdi o galardão da fé mais pura, Esperanças frustrei do amor mais terno, A posse de celeste formusura:
Volvei pois,sombras vãs,ao fogo eterno; E lamentando a minha desventura Movereis à piedade o mesmo inferno.
Visão amorosa
XLVI
No carro de marfim sentada a Lua Da antiga mãe das sombras triunfava, Quando a furtivos gostos me guiava Amor, a quem me entrega a sorte crua:
«Hoje»(me disse o nume)«há-de-ser tua A ninfa mais gentil que o Tejo lava; Não deram tanta glória à minha aljava Nem Vénus a carpir,nem Tétis nua:
«Ali dorme o teu bem...vê,que momento!...» Olho ,corro anelante ,aos pés lhe caio, Mas tentando abraçá-la o vento;
Meu peito arqueja em súbito desmaio; Eis que soa esta voz de horrendo acento: «Profano!Expia o crime,e teme o raio!»
Recordações de uma ingrata
XLVII
Inda em meu frágil coração fumega A cinza desse fogo em que ele ardia: A memória da tua aleivosia Meu sossego inda aqui desassossega:
A vil traição,que as almas nos despega, Não tem cabal poder na simpatia: Gastar o mar importuno a rocha fria, Melhor que o desengano a paixão cega;
Bem como o flavo sol,que a terra abraça, Por mais que o vejo densamente oposto, Atraído vapor fere,e repassa:
Tal,para misturar gosto e desgosto, Na sombra de teus crimes brilha a graça, Com que o pródigo Céu criou teu rosto.
Desejos da presença do objecto amado
XLVIII
Já o Inverno, expremendo as cãs nevosas, Geme , de horrendas nuvens carregado; Luz o aéreo fuzil, e o mar inchado Investe ao pólo em serras escumosas;
Ó benignas manhãs!,tardes saudosas, Em que folga o pastor,medrando o gado, Em que brincam no ervoso e fértil prado Ninfas e Amores,Zéfiros e Rosas!
Voltai,retrocedei,formosos dias: Ou antes vem, tu, doce beleza Que noutros campos mil prazeres crias;
E ao ver-te sentirá minha alma acesa Os perfumes ,o encanto,as alegrias, Da estação que remoça a natureza.
Conjuros a Anarda para que retribua o seu amor
XLIX
Mimosa,linda Anarda,atende,atende Às doces mágoas do rendido Elmano; Cum meigo riso,cum suave engano, Consola o triste amor,que não te ofende.
De teus cabelos ondeados pende Meu coração,fiel para seu dano; Coa luz dos olhos teus Cupido ufano Sustenta o puro fogo,em que me acende
Causa gentil das lágrimas que choro, A tudo te antepõe minha ternura, E quanto adoro o Céu,teu rosto adoro:
O golpe que me deste amima e cura... Mais ai! Que em vão suspiro,em vão te imploro: Não pertence a piedade à formusura.
Delírio amoroso
L
Meus olhos,atentai no meu jazigo, Que o momento da morte está chegado; Lá soa o corvo,intérprete do fado; Bem o entendo,bem sei, fala comigo:
Triunfa,Amor,gloria-te;inimigo; E tu,que vês com dor meu duro estado, Volve à terra o cadáver macerado, O despojo mortal do triste amigo:
Na campa que o cobrir,piedoso Albano, Ministra aos corações que Amor flagela Terror,piedade,aviso e desengano:
Abre em meu nome este epitáfo nela: «Eu fui,ternos mortais,o terno Elmano; Morri d,ingratidões,matou-me Isabela.»
Deplorando a morte de nise
LI
Já no calado monumento escuro Em cinzas se desfez teu corpo brando; E puder eu ver,ó Nise,o doce,o puro Lume dos olhos teus ir-se apagando!
Hórridas brenhas,solidões procuro, Grutas sem luz frenético demando, Onde maldigo o fado acerbo e duro, Teu riso,teus afagos suspirando:
Darei da minha dor contínua prova, Em sombras cevarei minha saudade, Insacíavel sempre,e sempre nova:
Até que torne a gozar da claridade Da luz,que me inflamou,que se renova No seio da brilhante eternidade.
Emprega o poder da magia para domar a resistência da sua amada
LII
Oleno,meia-noite está caindo: Acende a vela azul,queima as verbanas, Torra os ossos da rã chamusca as pernas Da esquerda gralha,que apanhei dormindo:
Co pé,coa vara,o ar e o chão ferindo Enquanto o filtro portentos ordenas, Eu irei,e a meu brado ouvindo apenas Virão do Inferno as Górgonas surgindo:
Eia,avante o prestígio,não cessemos Da irresistível mágica porfia, Contra quem vê sem dó nossos extremos;
Que se hoje o fel tragamos da agonia, Amanhã doce néctar libaremos Tu nos braços de Nise,eu nos de Armia.
Imprecações contra uma ingrata
LIII (Improvisado)
Vai-te,fera cruel,vai-te,inimiga, Horror do mundo,escândalo da gente, Que um férreo peito,uma alma que não sente, Não merece a paixão,que me afadiga:
O Céu te falte,a Terra te persiga, Negras fúrias o Inferno te apresente, E de baça tristeza o voraz dente Morda o vil coração,que Amor não liga:
Disfarçados ,mortíferos venenos Entre licor suave em áurea taça Mão vingativa te prepare ao menos:
E seja,seja tal tua desgraça, Que ainda por mais leves,mais pequenos, Os meus tormentos invejar te faça.
Protestos de constância eterna
LIV
Não temas ,ó Ritalia,que o choroso, O desvelado Elmano,a fé quebrante, Não desconfies do singelo amante Que tu podes,tu só ,fazer ditoso:
Serena o coração tenro e cioso, Que inda minh,alma te há- de ser constante Se,o primeiro que a tua ,andar errante Pelas margens do Letes preguiçoso:
Naquela ao sol inacessível parte, Dos manes taciturnos entre o bando Ao negro esquecimento hei-de furtar-te:
E o pensamento alígero voando Por abafados ares,visitar-te Dali virá,meu bem,de quando em quando
Invocação à noite
LV
Ó deusa,que proteges dos amantes O destro furto,o crime deleitoso, Abafa com teu manto pavoroso Os importunos astros vigilantes:
Quero adoçar meus lábios anelantes No seio de Ritália melindroso; Estorva que os maus olhos do invejoso TurbemD,amor os sôfregos instantes:
Tétis formosa,tal encanto inspire Ao namorado Sol teu níveo rosto, Que nunca de teus braços se retire!
Tarda ao menos o carro à Noite oposto, Até que eu desfaleça,até que expire Nas ternas ânsias, no inefável gosto.
Vênus reconhecendo a superioridade da beleza de Nise
LVI
Aquela que na esfera luminosa, Precedendo a manhã,qual astro brilha, Mãe dos Amores,das espumas filha, Que o mar na concha azul passeia airosa:
Apenas viu sorrir Nise formosa, A quem dos corações o Deus se humilha, Do cinto desatando a áurea presilha, No regaço lho pôs,leda e mimosa:
«Não te é,bem sei»(lhe diz),«não te é preciso; Para atrair vontades à ternura Basta-te um gesto,basta-te um sorrizo:
«Mas deves possuí-lo,ó ninfa pura, Como troféu,que dê ao mundo aviso De que Vénus te cede em formosura.»
Visão realizada
LVII
Sonhei que a mim correndo o gnídeo nume Vinha coa Morte,co Ciúme ao lado, E me bradava:«Escolhe,desgraçado, Queres a Morte,ou queres o Ciúme?
«Não é pior daquela fouce o gume Que a ponta dos farpões que tens provado; Mas o monstro voraz,por mim criado, Quando horror há no Inferno em si resume.»
Disse; e eu dando um suspiro:«Ah,não m,espantes Coa vista dessa fúria!...Amor,clemência! Antes mil mortes,mil infernos antes!»
Nisto acordei com dor,com impaciência; E não vos encontrando,olhos brilhantes, Vi que era a minha morte a vossa ausência!
O poeta asseteado por amor
LVIII
Ó Céus!Que sinto n,alma!Que tormento! Que repentino frenesi me anseia! Que veneno a ferver de veia em veia Me gasta a vida,me desfaz o alento!
Tal era,doce amada,o meu lamento, Eis que esses deus,que em prantos se receia, Me diz:«A que se expõe quem não receia Contemplar Ursulina um só momento!
«Insano!Eu bem te vi dentre a luz pura De seus olhos travessos,e cum tiro Puni tua sacrílega loucura:
«De morte,por piedade hoje te firo; Vai pois,vai merecer na sepultura À tua linda ingrata algum suspiro.»
Retrato de uma formosura esquiva
LIX (Improvisado)
Da minha ingrata Flérida gentil Os verdes olhos esmeraldas são; E de cândida prata a lisa mão, Onde eu dum beijo passaria a mil:
A trança ,cor do Sol,rede subtil Em que se foi prender meu coração, É d,ouro,o pai da túmida ambição, Prole fatal do cálido Brasil:
Seu peito delicado e tentador É porção de alabasto,a quem jamais Penetraram farpões do deus traidor;
Mas como há-de a tirana ouvir meus ais, Como há-de esta cruel sentir amor, Se é composta de pedras e metais!
Predição cumprida
LX
Tragado o peito de cruéis pesares, Em doloroso e rábido transporte, Contra Amor,de quem pende a minha sorte, Voavam meus queixumes a milhares:
Eis que,desde os azuis serenos ares, Me grita o Deus:«Tua alma se conforte, Que nem sempre o Furor,o Estrago,a Morte, Ministros hão-de ser dos meus altares:
«Aquela paz,aquele gosto,aquela Ventura,que até agora te hei negado, Guardei nos olhos de Ritália bela.»
Disse ,e limpando o rosto amargurado, Corro da ninfa aos pés,encontro nela Quanto Amor pode dar,e o Céu ,e o Fado.
Pretendendo abrandar a esquivança de Ursulina
LXI
Desprega as asas,tímida Esperança, Minha consolação não desanimes: Adeja,voa;os cultos não são crimes, Nem Jove a quem o adora os raios lança
Com ais de um coração que não descança, Terno,benigno dó vai ver se imprimes Na formosa Ursulina,ou se reprimes Ténue porção de ríspida esquivança.
Chorosas preces,trémulo respeito, Exercita com ela,e tu,mimoso Cândido amor,que escravo me tens feito,
Para adoçar-lhe o génio desdenhoso Deixa-lhe os olhos,salta-lhe no peito, Ñão perdes nada,e fazes-me ditoso.
Desesperança
LXII
Nise,das Graças e de Amor tesouro, Voto implorado me firmava um dia, Na face meiga a cândida alegria, Aos ventos derramada a trança d,ouro:
Eis que junto de nós ave de agouro Três vezes esvoaça,pousa e pia; Os ares prenhe sombra enluta,esfria E o raio estragador cai sobre um louro.
No repentino horror,que a cena altera, Quereria talvez dizer-me o fado Que naõ tinha o meu bem alma sincera?
Ah!Só quis persuadir um desgraçado Que de o felicitar capaz não era Nem a glória de ser por Nise amado.