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Apenas vi do dia a luz brilhante

I

Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá de Tubal no empório celebrado,
Em sangüíneo caráter foi marcado
Pelos destinos meu primeiro instante.
Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e enfim meu fado
Dos irmãos, e do pai me pôs distante.
Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura
Minhas faces com lágrimas inundo.
E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.


Das faixas infantis despido apenas

II

Das faixas infantis despido apenas,
Sentia o sacro fogo arder na mente;
Meu tenro coração inda inocente,
Iam ganhando as plácidas Camenas.
Faces gentis, angélicas, serenas,
De olhos suaves o volver fulgente,
Da ideia me extraíam de repente
Mil simples, maviosas cantilenas.
O tempo me soprou fervor divino,
E as Musas me fizeram desgraçado,
Desgraçado me fez o deus-menino.
A Amor quis esquivar-me, e ao dom sagrado:
Mas vendo no meu génio o mau destino,
Que havia de fazer? Cedi ao fado.


Incultas produções da mocidade

III

Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores.
Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração de seus favores.
E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento,
Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.


Chorosos versos meus desentoados

IV

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza, e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça tristeza envenenados;
Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados
Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania.
Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.


De suspirar em vão já fatigado

V
 
De suspirar em vão já fatigado,
Dando tréguas a meus males, eu dormia.
Eis que junto de mim sonhei que via
Da morte o gesto lívido e mirrado.
Curva fouce no punho descarnado
Sustentava a cruel, e me dizia:
¨Eu venho terminar tua agonia;
Morre, não penes mais, ó desgraçado...
¨Quis ferir-me, e de Amor foi atalhada.
Que armada de cruentos passadores
Aparece, e lhe diz com voz irada:
¨Emprega noutro objeto os teus rigores;
Que esta vida infeliz está guardada
Para vítima só de meus furores¨.


Morte, Juízo, Inferno e Paraíso

VI

Em que estado meu bem, por ti me vejo,
Em que estado infeliz, penoso, e duro!
Delido o coração de um fogo impuro
Meus pesados grilhões adoro e beijo.
Quando te logro mais, mais te desejo,
Quando te encontro mais, mais te procuro,
Quando mo juras mais, menos seguro
Julgo esse doce amor, que adorna o pejo.
Assim passo, assim vivo, assim meus fados
Me desarreigam da alma a paz, e o riso,
Sendo só meu sustento os meus cuidados.
E, de todo apagada a luz do siso,
Esquecem-me (ai de mim!) por teus agrados
Morte, juízo, inferno e paraíso.


Senhor, que estás no céu

VII

Senhor que estás no céu, que vês na terra
Meu frágil coração desfeito em pranto,
Pelas ânsias mortais, o ardor, o encanto
Com que lhe move Amor terrível guerra.
Já que poder imenso em ti se encerra,
Já que aos ingênuos ais atendes tanto,
Socorre-me, entre os Santos Sacrossanto,
Criminosas paixões de mim desterra.
Fugir aos laços de um gentil semblante
Não posso eu só: da tua mão preciso
Com que prostrou Davi o atroz gigante:
Fira-me a contrição, torne-me o siso,
Acode-me, Senhor, põe-me diante
Morte, juízo, inferno e paraíso.


Morres de fraco? Morres de atrevido

VIII

Aflito coração, que o teu tormento,
Que os teus desejos tácito devoras,
E ao doce objeto, ás perfeições adoras,
Só te vás explicar co(m) pensamento.
Infeliz coração, recobra alento,
Seca as inúteis lágrimas, que choras;
Tu cevas o teu mal, porque demoras
Os vôos ao ditoso atrevimento.
Inflama surdos ais, que o medo esfria;
Um bem tão suspirado, e tão subido,
Como se há de ganhar sem ousadia?
Ao vencedor afoute-se o vencido;
Longe o respeito, longe a cobardia;
Morres de fraco? Morres de atrevido.


Para criar tua alma e teu semblante

IX

Marília, nos teus olhos buliçosos
Os amores gentis seu facho acendem;
A teus lábios voando os ares fendem
Terníssimos desejos sequiosos:
Teus cabelos subtis e luminosos
Mil vistas cegam, mil vontades prendem;
E em arte aos de Minerva se não rendem
Teus alvos curtos dedos melindrosos:
Reside em teus costumes a candura.
Mora a firmeza no teu peito amante,
A razão com teu riso se mistura:
És dos céus o composto mais brilhante;
Deram-se as mãos Virtude e Formosura
Para criar tua alma e teu semblante.


Por esta solidão que não consente

X

Por esta solidão que não consente
Nem do sol, nem da lua a claridade;
Ralando o peito já pela saudade
Dou mil gemidos a Marília ausente.
De seus crimes a mancha inda recente
Lava Amor, e triunfa da verdade;
A beleza, apesar da falsidade,
Me ocupa o coração, me ocupa a mente.
Lembram-me aqueles olhos tentadores,
Aquelas mãos, aquele riso, aquela
Boca suave, que respira amores...
Ah! Trazei-me, ilusões, a ingrata, a bela!
Pintai-me vós, ó sonhos, entre flores
Suspirando outra vez nos braços dela.


Olha, Marília, as flautas dos pastores

XI

Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre flores?
Vê como ali beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores.
Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folgas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurando gira:
Que alegre campo! Que amanhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,
Mais tristeza que a morte me causara.


A frouxidão no amor é uma ofensa
 
XII

A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão; fervor, e extremo;
Com extremo e fervor se recompensa.
Vê qual sou, vê qual és, vê que dif(e)rença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.
Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.
Talvez me enfadaria aspecto iroso;
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-se cativo, e não me faz ditoso.


Os garços olhos em que Amor brincava

XIII

Os garços olhos em que Amor brincava
Os rubros lábios, em que Amor se ria,
As longas tranças, de que Amor pendia,
As lindas faces, onde Amor Brilhava:
As melindrosas mãos, que Amor beijava,
Os níveos braços, onde Amor dormia,
Foram dados, Armânia, à terra fria,
Pelo fatal poder que a tudo agrava.
Seguiu-te Amor ao tácito jazigo,
Entre as irmãs cobertas de amargura;
E eu que faço (ai de mim!) como não os sigo!
Que há no mundo que ver, se a formosura,
Se Amor, se as Graças, se o prazer contigo
Jazem no eterno da sepultura?


Convite à Marília
 
XIV

Já se afastou de nós o inverno agreste
Envolto nos seus húmidos vapores;
A fértil Primavera,a mãe das flores,
O prado ameno de boninas veste:

Varrendo os ares o subtil Nordeste
Os torna azuis;as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros e Amores ,
E toma o fresco Tejo a cor celeste:

Vem,ó Marília,vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo:

Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!


Ó céus! Que sinto n'alma!

XV

Ó céus! Que sinto n'alma! Que tormento!
Que repentino frenesi me anseia!
Que veneno a ferver de veia em veia
Me gasta a vida, me desfaz o alento!
Tal era, doce amada, o meu lamento;
Eis que esse deus, que em prantos se recreia,
Me diz: - ¨A que se expõe quem não receia
Contemplar Ursulina um só momento!
¨Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura
De seus olhos travessos, e co´ um tiro
Puni tua sacrílega loucura:
De morte, por piedade hoje te firo;
Vai pois, vai merecer na sepultura
A tua linda ingrata algum suspiro.


Fiei-me nos sorrisos da ventura

XVI

Fiei-me nos sorrisos da ventura,
Em mimos feminis, como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura.
No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo úmido e oco
Pareço, até no tom lúgubre e rouco,
Triste sombra a carpir na sepultura.
Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta.
Ah! não me roubou tudo a negra sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.


Meu frágil coração, para que adoras?

XVII

Meu frágil coração, para que adoras,
Para que adoras, se não tens ventura?
Se uns olhos, de quem ardes na luz pura,
Folgando estão das lágrimas que choras?
Os dias vês fugir, voar as horas
Sem achar neles visos de ternura;
E inda a louca esperança te figura
O prémio dos martírios, que devoras!
Desfaze as trevas de um funesto engano,
Que não hás de vencer a inimizade
De um génio contra ti sempre tirano.
A justa, a sacrossanta divindade
Não força, não violenta o peito humano,
E queres constranger-lhe a liberdade?


Teus mimosos pés, meu bem, rendido

XVIII

A teus mimosos pés, meu bem, rendido,
Confirmo os votos, que a traição manchara;
Fumam de novo incensos sobre a ara
Que a vil ingratidão tinha abatido.
De novo sobre as asas de um gemido
Te of´(e)reço o coração, que te agravara;
Saudoso torno a ti, qual torna à cara
Perdida pátria o mísero banido.
Renovemos o nó por mim desfeito,
Que eu já maldigo o tempo desgraçado
Em que a teus olhos não vivi sujeito;
Concede-me outra vez o antigo agrado;
Que mais queres? Eu choro, e no meu peito
O punhal do remorso está cravado.


A morte para os tristes é ventura

XIX
 
Quem se vê maltratado e combatido
Pelas cruéis angústias da indigência:
Quem sofre de inimigos a violência,
Quem geme de tiranos oprimido:
Quem não pode ultrajado e perseguido
Achar nos céus, ou nos mortais clemência:
Quem chora finalmente a dura ausência
De um bem, que para sempre está perdido:
Folgará de viver, quando não passa
Nem um momento em paz, quando amargura
O coração lhe arranca e despedaça?
Ah! Só deve agradar-lhe a sepultura,
Que a vida para os tristes é desgraça,
A morte para os tristes é ventura.


A morte para o justo é recompensa

XX

De radiosas virtudes escoltada
Deste imaturo adeus ao mundo triste
Co(m)´a mente no almo pólo, aonde existe
Bem, que sempre se goza e nunca enfada,
À fouce, a segar vidas destinada,
Mansíssima cordeira o colo uniste;
O que é do céu ao céu restituíste,
Restituíste ao nada o que é do nada.
E inda gemo, inda choro, alma querida,
Teu fado amigo, tua dita imensa,
Que em vez de pranto a júbilo convida!
Ah! Pio acordo minha mágoa vença;
É cativeiro para o justo a vida.
A morte para o justo é recompensa.


Lamenta solitário a perda da sua amada
 
XXI

O corvo grasnador e o mocho feio,
O sapo berrador e a rã molesta
São meus únicos sócios na floresta,
Onde carpindo estou,de angústia cheio:

Perdi todo o prazer,todo o receio...
Ah,malfadado amor,paixão funesta!
Ursulina perdi,nada me resta;
Madre terra !Agasalha-me em teu seio:

Da vibora mordaz permite,ó Sorte,
Que nos matos aspérrimos que piso
As plantas me envenene o ténue corte!

Ah!Que de Graças?Que é do paraíso?
A minha alma onde esta?Quem logra...ó Morte,
Quem logra de Ursulina o doce riso?


O templo do ciúme
 
XXII

Guiou-me ao templo do letal Ciúme
A Desesperação que em mim fervia,
O cabelo de horror se me arrepia
Ao recordar o formidável nume:

Fumegava-lhe aos pés tartáreo lume,
Crespa serpe as entranhas lhe roía;
Eram ministros seus a Aleivosia,
O Susto,a Morte,a Cólera,o Queixume:

«Cruel!»(grito em frenético transporte)
«Dos sócios teus ,no báratro gerados,
Dá-me um só,que te invejo,a Morte,a Morte.»

«Cessa»(diz),«os teus rogos são baldados:
Querem ter-te no mundo Amor, e a Sorte,
Para consolação dos desgraçados.»


Pungindo da realidade, procura alívio na ilusões

XXIII

Ãnsias terríveis,íntimos tormentos,
Negras imagens,hórridas lembranças,
Amargosas,mortais desconfianças,
Deixai-me sossegar alguns momentos:

Sofrei que logre os vãos contentamentos
Que sonham minhas doidas esperanças;
A posse de alvo rosto,e louras tranças,
Onde presos estão meus pensamentos:

Deixai-me confiar na formusura,
Cruéis!Deixai-me crer num doce engano,
Blasonar de fantástica ventura.

Que mais mal me quereis,que maior dano,
Do que vagar nas trevas da loucura,
Aborrecendo a luz do desengano?


Recreios campestres na companhia de Marília

XXIV

Olha bem,as pautas dos pastores
Que bem que soam,como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se!Olha ,não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali beijando-se os Amores
Incitam nosso ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores!

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira:

Que alegre campo!Que manhã tão clara!
Mas ah!Tudo o que vês,se eu te não vira,
Mais tristeza que a morte me causara.


Desenganado do amor e da fortuna
 
XXV

Fiei-me nos sorrisos da ventura,
Em mimos femenis ,como fui louco!
Vi raiar o prazer ;porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura:

No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo húmido e oco,
Pareço, até no tom lúgrubre e rouco,
Triste sombra a capir na sepultura:

Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce e fúnebre transporte,
Áridos matos,lôbrega floresta!

Ah!não me roubou tudo a negra sorte:
Inda tenho este abrigo,inda me resta
O pranto,a queixa,a solidão e a morte.


À constância de Dido
 
XXVI

Arde em vão por Elisa,em vão porfia
Contra a constância da heroína augusta
O bárbaro senhor d,África adusta,
Que do sangue de Jove se gloria:

Em vão lhe of,rece a vasta monarquia,
Aonde a espádua atlântica robusta
Sustenta os céus,o caminhante assusta,
E hórridos monstros indomáveis cria:

Não cede Elisa;e vendo que furioso
Usa da força o líbico tirano,
Ela intrépida escolhe um fim glorioso.

Mentes,mentes,injusto mantuano!
Dido infeliz foi vítima do esposo,
Foi vitíma da fé ,não do troiano.


Aos anos da Sra D.Maria Joaquina de Melo
 
XXVII

Há pouco a mãe das Graças,dos Amores,
Gerada pela espuma cristalina,
Baixou asas da etéra região divina
Nas asas dos Favóritos voadores:

«Ó das margens do Tejo habitadores!
Hoje torna a luzir»(disse Ericina)
«O ledo instante em que nasceu Marina,
Ínclito fruto de ínclitos maiores:

«Do céu,do mar,da terra os soberanos
Imprimindo-lhe encantos a milhares,
Criaram nela a glória dos humanos:

«Eia,cantai-lhe os dotes singulares,
Louvai seus olhos,aplaudi seus anos,
Queimai-lhe aromas, erigi-lhe altares.»


Volvendo a amar de novo uma dama desprezada

XXVII

A teus mimosos pés,meu bem,rendido,
Confirmo os votos,que a traição manchara;
Fumam de novo incensos sobre a ara,
Que a vil ingratidão tinha abatido:

De novo sobre as asas de um gemido
Te of,reço o coração,que te agravara;
Saudoso torno a ti,qual torna à cara
Perdída pátria o mísero banido:

Renovemos o nó por mim desfeito,
Que eu já maldigo o tempo desgraçado
Em que a teus olhos não vivi sujeito;

Concede-me outra vez o antigo agrado;
Que mais queres ?Eu choro,e no meu peito
O punhal do remorso está cravado.


Celebra as graças de Elmira

XXIX

Os suaves eflúvios,que respira
A flor de Vénus,a melhor das flores,
Exala de teus lábios tentadores,
Ó doce,ó bela,ó desejada Elmira;

A que nasceu das ondas ,se te vira,
A seu pesar cantara os teus louvores;
Ditoso quem por ti morre d,amores!
Ditoso quem por ti,meu bem,suspira!

E mil vezes ditoso o que merece
Um teu furtivo olhar,um teu sorriso,
Por quem da mãe formosa Amor se esquece!

O sacrílego ateu,sem lei,sem siso,
Contemple-te uma vez,que então conhece
Que é força haver um Deus e um Paraíso.


Antepõe o amor de Jónia às honras e riquezas

XXX

Esses tesouros ,esses bens sagrados
Para os cegos mortais,bens de que abunda
Ásia guerreira ,América fecunda,
Filhos da terra,pelo sol gerados:

Honras,grandezas ,títulos inchados,
Servil incenso,adulação jucunda,
Não quero,naõ,que sobre mim difunda
Amiga dextra de risonhos Fados:

Quero que as Fúrias hórridas m,escoltem,
Quero que contra mim,que em vão deliro,
Os racionais e irracionais se voltem:

Quero da morte o formidável tiro,
Contanto,ó Jónia,que meus lábios soltem
Nesses teus lábios o final suspiro.


Consolações na tirania de uma ingrata

XXXI

Meu frágil coração,para que adoras,
Para que adoras,se não tens ventura?
Se uns olhos,de quem ardes na luz pura,
Folgando estão das lágrimas que choras?

Os dias vês fugir,voar as horas,
Sem achar neles visos de ternura;
E inda a louca esperança te figura
O prémio dos martírios,que devoras!

Desfaze as trevas de um funesto engano,
Que não hás -de vencer a inimizade
De um génio contra ti sempre tirano:

A justa,a sacrossanta divinidade
Não força,não violenta o peito humano,
E queres constranger-lhe a liberdade?


À morte de uma formosa dama

XXXII

Os garços olhos,em que Amor brincava,
Os rubros lábios,em que Amor se ria,
As longas tranças,de que Amor pendia,
As lindas faces,onde Amor brilhava:

As melindrosas mãos ,que Amor beijava,
Os níveos braços,onde Amor dormia,
Foram dados,Armânia,à terra fria,
Pelo fatal poder que a tudo agrava:

Seguiu-te Amor ao tácito jazigo,
Entre as irmãs cobertas de amargura;
E eu que faço(ai de mim!) como os não sigo!

Que há no mundo que ver,se a formosura,
Se Amor,se as Graças,se o prazer contigo,
Jazem no eterno horror da sepultura?


Queixumes contra um rival preferido

XXXIII

Não disfarces,Marília;por Josino
Já nos teus olhos a paixão flameja;
E em que parte estará,que se não veja
O tenro deus,o alígero menino?

Inda que ostentes de ânimo ferino,
Há quem teu níveo peito abrase e reja;
Porém,Marília,dize-me qual seja
A causa justa de um amor tão fino?

Nesse,que as esquivanças te suaviza,
Encontras uma férvida ternura,
Um coração brioso,uma alma lisa?

Seus méritos quais são?...Mas,ó loucura!
Quem é feliz,que méritos precisa?
Que dons há-de mister quem tem ventura?


A Ursulina distante

XXXIV

Ursulina gentil,benigna e pura,
Eis nas asas subtis de um ai cansado
A ti meu coração voa alagado
Em torrentes de sangue e de ternura:

Põe-lhe os olhos,meu bem;vê com brandura
Seu miseravél,doloroso estado;
Que nas garras da morte já cravado
A fé,que te jurava,inda te jura:

Põe-lhe os olhos ,meu bem ,suavemente,
Põe-lhe os mimosos dedos na ferida,
Palpa de Amor a vítima inocente;

E por milagres deles ,ó querida,
Verás cerrar-se o golpe,e de repente
Em ondas de prazer tornar-lhe a vida.


Queixas contra a ingratidão de Marília

XXXV

Em veneno letífero nadando,
No roto peito o coração me arqueja;
E ante meus olhos hórrido negreja
De mortais aflições espesso bando:

Por ti Marília,ardendo,e delirando
Entre as garras aspérrimas da Inveja,
Amaldiçoo Amor,que ri,e adeja
Pelos ares,cos Zéfiros brincando:

Recreia-se o traidor com meus clamores,
E meu cioso pranto...ó Jove,ó nume,
Que vibras os coriscos vingadores!

Abafa as ondas do tartáreo lume,
Que para os que provam teus furores
Tens inferno pior,tens ciúme.


Oferenda a Nise

XXXVI

Do abusto,ó Nise,a Vénus consagrado
Envisquei hoje um trémulo raminho,
Pousou nele este incauto passarinho,
E pelos tenros pés ficou pegado:

Então,depois de o ter na mão fechado,
Corri,dizendo alegre:«Eu advinho
Que há-de Nise estimar que o meu carinho
Lhe dedique este músico do prado.»

Disse;e no mesmo instante a simples ave
Desata a linda voz e pricinpia
Um canto harmonioso,agudo e grave:

Ah!por ser tua,entendo que dizia
Que a prisão mais gostosa e mais suave
Que a própria liberdade encontraria!


Insônia

XXXVII

Ó retrato da morte,ó Noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda ,Amor,que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os,como costumas ,ouve , enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga:

E vós,ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos,mochos piadores,
Inimigos ,como eu,da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.


Festejando o dia natalício de Anarda

XXXVIII

Vinde,Prazeres,que por entre flores
Nos jardins de Citera andais brincando,
E vós,despidas Graças,que dançando
Trinais alegres sons encantadores:

Deusa dos gostos,deusa dos amores,
Ah!,dos filhinhos teus ajunta o bando,
E vem nas asas de Favónio brando
Dar força ,dar beleza,a meus louvores.

Da linda Anarda minha voz aspira
A cantar o natal;tu,por clemência,
O teu fiel cantor,deidade,inspira:

Do trácio vate empresta-me a cadência,
E faze que mereça a minha lira
Os cândidos sorrisos da inocência.


Lastimando a ingratidão de Nise

XXXIX

Canta ao som dos grilhões o prisioneiro,
Ao som da tempestade o nauta ousado,
Um porque espera o fim cativeiro,
Outro antevendo o porto desejado:

Explora a vida ao tigre mosqueado,
Gira sertões o sôfrego mineiro,
Da esperança dos lucros encantado,
Que anima o peito vil e interesseiro:

Por entre armadas hostes destemido
Rompe o sequaz do horrífico Mavorte,
Co triunfo,coa glória no sentido:

Só eu (tirano Amor!,tirana sorte!)
Só eu por Nise ingrata aborrecido
Para ter fim meu pranto espero a morte.


O ciúme

XL

Entre as tartáreas forjas,sempre acesas,
Jaz aos pés do tremendo,estígio nume,
O carrancudo,o rábido Ciúme,
Ensanguentadas as corruptas presas:

Traçando o plano de cruéis empresas,
Fervendo em ondas de sulfúreo lume,
Vibra da fauces o letal cardume
De hórridos males ,de hórridas tristezas;

Pelas terríveis Fúrias instigado
Lá sai o Inferno,e para mim se avança
O negro monstro,de áspides toucado:

Olhos em brasa de revés me lança,
Ó dor!Ó raiva,Ó morte!...Ei-lo a meu lado,
Ferrando as garras na vipérea trança.


A esquivança de Armia

XLI

Pela porta de ferro ,onde ululando
O cão trifauce está perpetuamente,
Entraste,Orfeu,coa cítara eloquente
Os monstros infernais domesticos:

Penedos com teus sons amontando
Lá ergues Tebas ,Anfíon cadente;
Pulsa Aríon a lira,e de repente
Vê delfins,vê tritões no mar dançando:

Tu,linguagem do Céu,tu,melodia,
A tudo encantas,para tudo és forte,
Menos para aplacar a ingrata Armia:

Mais fácil te há-de-ser.domando a sorte,
Ir de novo à tartára monarquia
Ver outra vez o cárcere da morte!


Desengano de amor

XLII

Triste quem ama,cego quem se fia
Da feminina voz na vã promessa!
Aspira a vê-la estável!Mais depressa
O facho apagará que espalha o dia:

Alada exalação,que na sombria
Tácita noite os ares atravessa,
Foi comigo a paixão volúvel dessa
Que o peito me afagava e me feria:

Do desengano o bálsamo lhe aplico,
E a teus laços,Amor ,sem medo exponho
Dos benéficos céus o dom mais rico:

Vejo mil Circes plácido risonho;
E se fé me prometem,ouço,e fico
Como quem despertou de aéreo sonho.


Amor triunfando da magia

XLIII

Busquei num ermo Algânia feiticeira,
Que de abrasado feixe a par jazia;
Fui ver se atro conjunto me extorquia
Do laço antigo esta alma prisioneira:

Expus-lhe minha fé minha cegueira,
Tracei meus males,e a rugosa estria
Cedendo às ternas mágoas,que me ouvia,
Cuspiu três vezes na voraz fogueira:

Trémulas preces murmurou,e eu mudo;
Eis que as melenas em sinal d,espanto
Eriça com semblante carrancudo:

«Meu rito é vão»(me diz)«e é vão teu pranto;
O poderoso Amor zomba de tudo,
Não vence encanto algum d,Amor o encanto.»


A razão dominada pela formosura

XLIV

Importuna Razão,não me persigas,
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei de Amor,se a força da ternura
Nem domas,nem contrastas,nem mitigas:

Se acusas os mortais,e os não abrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão,não me persigas.

É teu fim,teu projecto,encher de pejo
Esta alma,frágil vítima daquela
Que,injusta e vária,noutros laços vejo:

Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga a desdenhe; e o meu desejo
É carpir,delirar morrer por ela.


Queixumes contra os desprezados da sua amada

XLV

Ó trevas,que enlutais a natureza,
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra,e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza:

Manes,surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plutão se goza,
Não aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que vós minha tristeza:

Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formusura:

Volvei pois,sombras vãs,ao fogo eterno;
E lamentando a minha desventura
Movereis à piedade o mesmo inferno.


Visão amorosa

XLVI

No carro de marfim sentada a Lua
Da antiga mãe das sombras triunfava,
Quando a furtivos gostos me guiava
Amor, a quem me entrega a sorte crua:

«Hoje»(me disse o nume)«há-de-ser tua
A ninfa mais gentil que o Tejo lava;
Não deram tanta glória à minha aljava
Nem Vénus a carpir,nem Tétis nua:

«Ali dorme o teu bem...vê,que momento!...»
Olho ,corro anelante ,aos pés lhe caio,
Mas tentando abraçá-la o vento;

Meu peito arqueja em súbito desmaio;
Eis que soa esta voz de horrendo acento:
«Profano!Expia o crime,e teme o raio!»


Recordações de uma ingrata

XLVII

Inda em meu frágil coração fumega
A cinza desse fogo em que ele ardia:
A memória da tua aleivosia
Meu sossego inda aqui desassossega:

A vil traição,que as almas nos despega,
Não tem cabal poder na simpatia:
Gastar o mar importuno a rocha fria,
Melhor que o desengano a paixão cega;

Bem como o flavo sol,que a terra abraça,
Por mais que o vejo densamente oposto,
Atraído vapor fere,e repassa:

Tal,para misturar gosto e desgosto,
Na sombra de teus crimes brilha a graça,
Com que o pródigo Céu criou teu rosto.


Desejos da presença do objecto amado

XLVIII

Já o Inverno, expremendo as cãs nevosas,
Geme , de horrendas nuvens carregado;
Luz o aéreo fuzil, e o mar inchado
Investe ao pólo em serras escumosas;

Ó benignas manhãs!,tardes saudosas,
Em que folga o pastor,medrando o gado,
Em que brincam no ervoso e fértil prado
Ninfas e Amores,Zéfiros e Rosas!

Voltai,retrocedei,formosos dias:
Ou antes vem, tu, doce beleza
Que noutros campos mil prazeres crias;

E ao ver-te sentirá minha alma acesa
Os perfumes ,o encanto,as alegrias,
Da estação que remoça a natureza.


Conjuros a Anarda para que retribua o seu amor

XLIX

Mimosa,linda Anarda,atende,atende
Às doces mágoas do rendido Elmano;
Cum meigo riso,cum suave engano,
Consola o triste amor,que não te ofende.

De teus cabelos ondeados pende
Meu coração,fiel para seu dano;
Coa luz dos olhos teus Cupido ufano
Sustenta o puro fogo,em que me acende

Causa gentil das lágrimas que choro,
A tudo te antepõe minha ternura,
E quanto adoro o Céu,teu rosto adoro:

O golpe que me deste amima e cura...
Mais ai! Que em vão suspiro,em vão te imploro:
Não pertence a piedade à formusura.


Delírio amoroso

L

Meus olhos,atentai no meu jazigo,
Que o momento da morte está chegado;
Lá soa o corvo,intérprete do fado;
Bem o entendo,bem sei, fala comigo:

Triunfa,Amor,gloria-te;inimigo;
E tu,que vês com dor meu duro estado,
Volve à terra o cadáver macerado,
O despojo mortal do triste amigo:

Na campa que o cobrir,piedoso Albano,
Ministra aos corações que Amor flagela
Terror,piedade,aviso e desengano:

Abre em meu nome este epitáfo nela:
«Eu fui,ternos mortais,o terno Elmano;
Morri d,ingratidões,matou-me Isabela.»


Deplorando a morte de nise

LI

Já no calado monumento escuro
Em cinzas se desfez teu corpo brando;
E puder eu ver,ó Nise,o doce,o puro
Lume dos olhos teus ir-se apagando!

Hórridas brenhas,solidões procuro,
Grutas sem luz frenético demando,
Onde maldigo o fado acerbo e duro,
Teu riso,teus afagos suspirando:

Darei da minha dor contínua prova,
Em sombras cevarei minha saudade,
Insacíavel sempre,e sempre nova:

Até que torne a gozar da claridade
Da luz,que me inflamou,que se renova
No seio da brilhante eternidade.


Emprega o poder da magia para domar a resistência da sua amada

LII

Oleno,meia-noite está caindo:
Acende a vela azul,queima as verbanas,
Torra os ossos da rã chamusca as pernas
Da esquerda gralha,que apanhei dormindo:

Co pé,coa vara,o ar e o chão ferindo
Enquanto o filtro portentos ordenas,
Eu irei,e a meu brado ouvindo apenas
Virão do Inferno as Górgonas surgindo:

Eia,avante o prestígio,não cessemos
Da irresistível mágica porfia,
Contra quem vê sem dó nossos extremos;

Que se hoje o fel tragamos da agonia,
Amanhã doce néctar libaremos
Tu nos braços de Nise,eu nos de Armia.


Imprecações contra uma ingrata

LIII
(Improvisado)

Vai-te,fera cruel,vai-te,inimiga,
Horror do mundo,escândalo da gente,
Que um férreo peito,uma alma que não sente,
Não merece a paixão,que me afadiga:

O Céu te falte,a Terra te persiga,
Negras fúrias o Inferno te apresente,
E de baça tristeza o voraz dente
Morda o vil coração,que Amor não liga:

Disfarçados ,mortíferos venenos
Entre licor suave em áurea taça
Mão vingativa te prepare ao menos:

E seja,seja tal tua desgraça,
Que ainda por mais leves,mais pequenos,
Os meus tormentos invejar te faça.


Protestos de constância eterna

LIV

Não temas ,ó Ritalia,que o choroso,
O desvelado Elmano,a fé quebrante,
Não desconfies do singelo amante
Que tu podes,tu só ,fazer ditoso:

Serena o coração tenro e cioso,
Que inda minh,alma te há- de ser constante
Se,o primeiro que a tua ,andar errante
Pelas margens do Letes preguiçoso:

Naquela ao sol inacessível parte,
Dos manes taciturnos entre o bando
Ao negro esquecimento hei-de furtar-te:

E o pensamento alígero voando
Por abafados ares,visitar-te
Dali virá,meu bem,de quando em quando


Invocação à noite

LV

Ó deusa,que proteges dos amantes
O destro furto,o crime deleitoso,
Abafa com teu manto pavoroso
Os importunos astros vigilantes:

Quero adoçar meus lábios anelantes
No seio de Ritália melindroso;
Estorva que os maus olhos do invejoso
TurbemD,amor os sôfregos instantes:

Tétis formosa,tal encanto inspire
Ao namorado Sol teu níveo rosto,
Que nunca de teus braços se retire!

Tarda ao menos o carro à Noite oposto,
Até que eu desfaleça,até que expire
Nas ternas ânsias, no inefável gosto.


Vênus reconhecendo a superioridade da beleza de Nise

LVI

Aquela que na esfera luminosa,
Precedendo a manhã,qual astro brilha,
Mãe dos Amores,das espumas filha,
Que o mar na concha azul passeia airosa:

Apenas viu sorrir Nise formosa,
A quem dos corações o Deus se humilha,
Do cinto desatando a áurea presilha,
No regaço lho pôs,leda e mimosa:

«Não te é,bem sei»(lhe diz),«não te é preciso;
Para atrair vontades à ternura
Basta-te um gesto,basta-te um sorrizo:

«Mas deves possuí-lo,ó ninfa pura,
Como troféu,que dê ao mundo aviso
De que Vénus te cede em formosura.»


Visão realizada

LVII

Sonhei que a mim correndo o gnídeo nume
Vinha coa Morte,co Ciúme ao lado,
E me bradava:«Escolhe,desgraçado,
Queres a Morte,ou queres o Ciúme?

«Não é pior daquela fouce o gume
Que a ponta dos farpões que tens provado;
Mas o monstro voraz,por mim criado,
Quando horror há no Inferno em si resume.»

Disse; e eu dando um suspiro:«Ah,não m,espantes
Coa vista dessa fúria!...Amor,clemência!
Antes mil mortes,mil infernos antes!»

Nisto acordei com dor,com impaciência;
E não vos encontrando,olhos brilhantes,
Vi que era a minha morte a vossa ausência!


O poeta asseteado por amor

LVIII

Ó Céus!Que sinto n,alma!Que tormento!
Que repentino frenesi me anseia!
Que veneno a ferver de veia em veia
Me gasta a vida,me desfaz o alento!

Tal era,doce amada,o meu lamento,
Eis que esses deus,que em prantos se receia,
Me diz:«A que se expõe quem não receia
Contemplar Ursulina um só momento!

«Insano!Eu bem te vi dentre a luz pura
De seus olhos travessos,e cum tiro
Puni tua sacrílega loucura:

«De morte,por piedade hoje te firo;
Vai pois,vai merecer na sepultura
À tua linda ingrata algum suspiro.»


Retrato de uma formosura esquiva

LIX
(Improvisado)

Da minha ingrata Flérida gentil
Os verdes olhos esmeraldas são;
E de cândida prata a lisa mão,
Onde eu dum beijo passaria a mil:

A trança ,cor do Sol,rede subtil
Em que se foi prender meu coração,
É d,ouro,o pai da túmida ambição,
Prole fatal do cálido Brasil:

Seu peito delicado e tentador
É porção de alabasto,a quem jamais
Penetraram farpões do deus traidor;

Mas como há-de a tirana ouvir meus ais,
Como há-de esta cruel sentir amor,
Se é composta de pedras e metais!


Predição cumprida

LX

Tragado o peito de cruéis pesares,
Em doloroso e rábido transporte,
Contra Amor,de quem pende a minha sorte,
Voavam meus queixumes a milhares:

Eis que,desde os azuis serenos ares,
Me grita o Deus:«Tua alma se conforte,
Que nem sempre o Furor,o Estrago,a Morte,
Ministros hão-de ser dos meus altares:

«Aquela paz,aquele gosto,aquela
Ventura,que até agora te hei negado,
Guardei nos olhos de Ritália bela.»

Disse ,e limpando o rosto amargurado,
Corro da ninfa aos pés,encontro nela
Quanto Amor pode dar,e o Céu ,e o Fado.


Pretendendo abrandar a esquivança de Ursulina

LXI

Desprega as asas,tímida Esperança,
Minha consolação não desanimes:
Adeja,voa;os cultos não são crimes,
Nem Jove a quem o adora os raios lança

Com ais de um coração que não descança,
Terno,benigno dó vai ver se imprimes
Na formosa Ursulina,ou se reprimes
Ténue porção de ríspida esquivança.

Chorosas preces,trémulo respeito,
Exercita com ela,e tu,mimoso
Cândido amor,que escravo me tens feito,

Para adoçar-lhe o génio desdenhoso
Deixa-lhe os olhos,salta-lhe no peito,
Ñão perdes nada,e fazes-me ditoso.


Desesperança

LXII

Nise,das Graças e de Amor tesouro,
Voto implorado me firmava um dia,
Na face meiga a cândida alegria,
Aos ventos derramada a trança d,ouro:

Eis que junto de nós ave de agouro
Três vezes esvoaça,pousa e pia;
Os ares prenhe sombra enluta,esfria
E o raio estragador cai sobre um louro.

No repentino horror,que a cena altera,
Quereria talvez dizer-me o fado
Que naõ tinha o meu bem alma sincera?

Ah!Só quis persuadir um desgraçado
Que de o felicitar capaz não era
Nem a glória de ser por Nise amado.





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