Eu quero amor feinho. Amor feinho não olha um pro outro. Uma vez encontrado, é igual fé, não teóloga mais. Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo e filhos tem os quantos haja. Tudo que não fala, faz. Planta beijo de três cores ao redor da casa e saudade roxa e branca, da comum e da dobrada. Amor feinho é bom porque não fica velho. Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é: eu sou homem você é mulher. Amor feinho não tem ilusão, o que ele tem é esperança: eu quero amor feinho.
A serenata
Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mãos incríveis tocar flauta no jardim. Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa. Eu que rejeito e exprobro o que não for natural como sangue e veias descubro que estou chorando todo dia, os cabelos entristecidos, a pele assaltada de indecisão. Quando ele vier, porque é certo que vem, de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? A lua, os gerânios e ele serão os mesmos só a mulher entre as coisas envelhece. De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?
Casamento
Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como "este foi difícil" "prateou no ar dando rabanadas" e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. Por fim, os peixes na travessa, vamos dormir. Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva.
Corridinho
O amor quer abraçar e não pode. A multidão em volta, com seus olhos cediços, põe caco de vidro no muro para o amor desistir.
O amor usa o correio, o correio trapaceia, a carta não chega, o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo, desembarca do trem, chega na porta cansado de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena, pede água, bebe café, dorme na sua presença, chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho: é descuidar, o amor te pega, te come, te molha todo. Mas água o amor não é.
Cólera Divina
Quando fui ferida, por Deus, pelo Diabo, ou por mim mesma, - ainda não sei - percebi que não morrera, após três dias, ao rever pardais e moitinhas de trevo. Quando era jovem, só estes passarinhos, estas folhinhas bastavam para eu cantar louvores, dedicar óperas ao Rei. Mas um cachorro batido demora um pouco a latir, a festejar seu dono - ele, um bicho que não é gente - tanto mais eu que posso perguntar Por que razão me bates? Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas uma tênue sombra ainda cobre meu espírito. Quem me feriu perdoe-me.
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos - dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade da alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.
Meditação à beira de um poema
Podei a roseira no momento certo e viajei muitos dias, aprendendo de vez que se deve esperar biblicamente pela hora das coisas. Quando abri a janela, vi-a, como nunca a vira constelada, os botões, Alguns já com rosa- pálido espiando entre as sépalas, jóias vivas em pencas. Minha dor nas costas, meu desaponto com os limites do tempo, o grande esforço para que me entendam pulverizam-se diante do recorrente milagre. maravilhosas faziam-se as cíclicas perecíveis rosas. Ninguém me demoverá do que de repente soube à margem dos edifícios da razão: a misericórdia está intacta, vagalhões de cobiça, punhos fechados, altissonantes iras, nada impede ouro de corolas e acreditai: perfumes. Só porque é setembro
No meio da noite
Acordei meu bem pra lhe contar meu sonho: sem apoio de mesa ou jarro eram as buganvílias brancas destacadas de um escuro. Não fosforesciam, nem cheiravam, nem eram alvas. Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso. No quarto escuro, a única visível coisa, o próprio ato de ver. Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam: "A ressurreição já está sendo urdida, os tubérculos da alegria estão inchando úmidos, vão brotar sinos. " Doía como um prazer. Vendo que eu não mentia ele falou: as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo. Eu sou singelo. Fica singela também. Respondi que queria ser singela e na mesma hora, singela, singela, comecei a repetir singela. A palavra destacou-se novíssima como as buganvílias do sonho. Me atropelou. O que foi? - ele disse. - As buganvílias... Como nenhum de nós podia ir mais além, solucei alto e fui chorando, chorando, até ficar singela e dormir de novo.
O Amor no Éter
Há dentro de mim uma paisagem entre meio-dia e duas horas da tarde. Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água, entram e não neste lugar de memória, uma lagoa rasa com caniço na margem. Habito nele, quando os desejos do corpo, a metafísica, exclamam: como és bonito! Quero escrever-te até encontrar onde segregas tanto sentimento. Pensas em mim, teu meio-riso secreto atravessa mar e montanha, me sobressalta em arrepios, o amor sobre o natural. O corpo é leve como a alma, os minerais voam como borboletas. Tudo deste lugar entre meio-dia e duas horas da tarde.
O vestido
No armário do meu quarto escondo de tempo e traça meu vestido estampado em fundo preto. É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas à ponta de longas hastes delicadas. Eu o quis com paixão e o vesti como um rito, meu vestido de amante. Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido. É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada: eu estou no cinema e deixo que segurem a minha mão. De tempo e traça meu vestido me guarda.
O intenso brilho
É impossível no mundo estarmos juntos ainda que do meu lado adormecesses. O véu que protege a vida nos separa. O véu que protege a vida nos protege. aproveita, pois, que é tudo branco agora, à boca do precipício, neste vórtice e fala nesta clareira aberta pela insônia quero ouvir tua alma a que mora na garganta como em túmulos esperando a hora da ressurreição, fala meu nome antes que eu retorne ao dia pleno, à semi-escuridão