Monstros e homens lado a lado, Não à margem, mas na própria vida. Absurdos monstros que circulam Quase honestamente. Homens atormentados, divididos, fracos. Homens fortes, unidos, temperados.
Ao rosto vulgar dos dias, A vida cada vez mais corrente, As imagens regressam já experimentadas, Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.
Imaginar, primeiro, é ver. Imaginar é conhecer, portanto agir.
A meu favor
A meu favor Tenho o verde secreto dos teus olhos Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor O tapete que vai partir para o infinito Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor As paredes que insultam devagar Certo refúgio acima do murmúrio Que da vida corrente teime em vir O barco escondido pela folhagem O jardim onde a aventura recomeça.
A vazia sandália de S. Francisco
A gratidão da macieira e a amnésia do gato nunca pautaram o curso dos meus dias. Fiquem onde estão! foi a minha ordem para a macieira e para o gato, anda bem exteriores ao meu fraco por eles.
Salvei-os (e salvei-me!) de uma fábula cuja moral necessariamente devia ser eu, o parlante amigo de macieiras e conhecidos de gatos.
Dá um certo desconforto malbaratar assim amigos em dois reinos da natureza. Mas também dá liberdade.
Há uma gente que desponta do outro lado do vale. Está a correr para cá. São os meus semelhantes. Com eles vou desentender-me (mais que certo!), mas a ideia que deles faço é ainda um laço.
Repousem em paz as macieiras e os gatos.
A central das frases
... já te disse que são os do primeiro... ... e afinal não pudemos telefonar... ... ai nem queira saber o engenheiro... ... se me dão licença eu vou contar... ... penses nisso era só o que faltava... ... não as outras duas é que são as tais... ... mas o senhor presidente autorizava... ... na avenida centenas de pardais... ... de facto muito inteligente... ... ó filha por aqui fazes favor... ... que veio ontem para falar com a gente... ... é mesmo lá ao fim do corredor...
Amigo
Mal nos conhecemos Inaugurámos a palavra amigo!
"Amigo" é um sorriso De boca em boca, Um olhar bem limpo, Uma casa, mesmo modesta, que se oferece. Um coração pronto a pulsar Na nossa mão!
"Amigo" (recordam-se, vocês aí, Escrupulosos detritos?) "Amigo" é o contrário de inimigo! "Amigo" é o erro corrigido, Não o erro perseguido, explorado, É a verdade partilhada, praticada.
"Amigo" é a solidão derrotada! "Amigo" é uma grande tarefa, Um trabalho sem fim, Um espaço sem fim, Um espaço útil, um tempo fértil, "Amigo" vai ser, é já uma grande festa!
Cão
Cão passageiro, cão estrito, Cão rasteiro cor de luva amarela, Apara-lápis, fraldiqueiro, Cão liquefeito, cão estafado, Cão de gravata pendente, Cão de orelhas engomadas, De remexido rabo ausente, Cão ululante, cão coruscante, Cão magro, cão tétrico, maldito, A desfazer-se num ganido, A refazer-se num latido, Cão disparado: cão aqui, Cão além, e sempre cão. Cão amarrado, preso a um fio de cheiro, Cão a esburgar o osso Essencial do dia a dia, Cão estouvado de alegria, Cão formal de poesia, Cão-sonêto de ão-ão bem martelado, Cão moldo de pancada E condoído do dono, Cão: esfera do sono, Cão de pura invenção, cão pré-fabricado, Cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija, Cão de olhos que afligem, Cão-problema... Sai depressa, ó cão, deste poema!
De Porta em Porta
- Quem? O infinito? Diz-lhe que entre. Faz bem ao infinito estar entre gente.
- Uma esmola? Coxeia? Ao que ele chegou! Podes dar-lhe a bengala que era do avô.
- Dinheiro? Isso não! Já sei, pobrezinho, que em vez de pão ia comprar vinho...
- Teima? Que topete! Quem se julga ele se um tigre acabou nesta sala em tapete?
- Para ir ver a mãe? Essa é muito forte! Ele não tem mãe e não é do Norte...
- Vitima de quê? O dito está dito. Se não tinha estofo quem o mandou ser infinito?
Em todo o caso
Remancha, poeta, Remancha e desmancha O teu belo plano De escrever p'la certa. Não há "p'la certa", poeta! Mas em todo o caso acerta Nem que seja a um verso por ano...
E de novo, Lisboa...
E de novo, Lisboa, te remancho, numa deriva de quem tudo olha de viés: esvaído, o boi no gancho, ou o outro vermelho que te molha.
Sangue na serradura ou na calçada, que mais faz se é de homem ou de boi? O sangue é sempre uma papoila errada, cerceado do coração que foi.
Groselha, na esplanada, bebe a velha, e um cartaz, da parede, nos convida a dar o sangue. Franzo a sobrancelha: dizem que o sangue é vida; mas que vida?
Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui, na terra onde nasceste e eu nasci?
Fala
Fala a sério e fala no gozo Fá-la pela calada e fala claro Fala deveras saboroso Fala barato e fala caro Fala ao ouvido fala ao coração Falinhas mansas ou palavrão Fala à miúda mas fá-la bem Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe Fala francês fala béu-béu Fala fininho e fala grosso Desentulha a garganta levanta o pescoço Fala como se falar fosse andar Fala com elegância - muito e devagar.
Gaivota
Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro, dos sete mares andarilho, fosse quem sabe o primeiro a contar-me o que inventasse, se um olhar de novo brilho no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida as aves todas do céu, me dessem na despedida o teu olhar derradeiro, esse olhar que era só teu, amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração no meu peito morreria, meu amor na tua mão, nessa mão onde perfeito bateu o meu coração.
Há palavras que nos beijam
Há palavras que nos beijam Como se tivessem boca. Palavras de amor, de esperança, De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas Quando a noite perde o rosto; Palavras que se recusam Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas Entre palavras sem cor, Esperadas inesperadas Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama Letra a letra revelado No mármore distraído No papel abandonado)
Palavras que nos transportam Aonde a noite é mais forte, Ao silêncio dos amantes Abraçados contra a morte.
Inventário
Um dente d'ouro a rir dos panfletos Um marido afinal ignorante Dois corvos mesmo muito pretos Um polícia que diz que garante A costureira muito desgraçada Uma máquina infernal de fazer fumo Um professor que não sabe quase nada Um colossalmente bom aluno Um revolver já desiludido Uma criança doida de alegria Um imenso tempo perdido Um adepto da simetria Um conde que cora ao ser condecorado Um homem que ri de tristeza Um amante perdido encontrado Um gafanhoto chamado surpresa O desertor cantando no coreto Um malandrão que vem pe-ante-pé Um senhor vestidíssimo de preto Um organista que perde a fé Um sujeito enganando os amorosos Um cachimbo cantando a marselhesa Dois detidos de fato perigosos Um instantinho de beleza Um octogenário divertido Um menino coleccionando estampas Um congressista que diz Eu não prossigo Uma velha que morre a páginas tantas
L'Angélus de Millet
Recolhidos os camponeses de Millet olham a terra, quando o céu, às Trindades, os convoca. Forquilha, cesto, carro, homem, mulher - já tão longe na história!
O Beijo
Congresso de gaivotas neste céu Como uma tampa azul cobrindo o Tejo. Querela de aves, pios, escaracéu. Ainda palpitante voa um beijo.
Donde teria vindo! (não é meu...) De algum quarto perdido no desejo? De algum jovem amor que recebeu Mandado de captura ou de despejo?
É uma ave estranha colorida, Vai batendo como a própria vida, Um coração vermelho pelo ar.
E é a força sem fim de duas bocas, De duas bocas que se juntam, loucas! De inveja as gaivotas a gritar...
O amor é o amor - e depois? Vamos ficar os dois a imaginar, a imaginar?... O meu peito contra o teu peito cortando o mar, cortando o ar. Num leito há todo o espaço para amar! Na nossa carne estamos sem destino, sem medo, sem pudor, e trocamos - somos um? somos dois? - espírito e calor! O amor é o amor - e depois?
O rompimento à beira da lágrima
Enquanto a vela respirava, Ela suspirava elan- guescida. Que esvasiava ela com a vela? Que enchia eu com ela e com a vela? Tão efluvial, meu deus, a despedida!
No empranchado dessa fragata, numa panela (ou nessa lata?) a caldeirada (ao lado, o vergas com o vinho) que um ganga acocorado, enquanto assobiava, mexia com um pauzinho
Poema pouco original do medo
O medo vai ter tudo pernas ambulâncias e o luxo blindado de alguns automóveis Vai ter olhos onde ninguém o veja mãozinhas cautelosas enredos quase inocentes ouvidos não só nas paredes mas também no chão no tecto no murmúrio dos esgotos e talvez até (cautela!) ouvidos nos teus ouvidos O medo vai ter tudo fantasmas na ópera sessões contínuas de espiritismo milagres cortejos frases corajosas meninas exemplares seguras casas de penhor maliciosas casas de passe conferências várias congressos muitos ótimos empregos poemas originais e poemas como este projetos altamente porcos heróis (o medo vai ter heróis!) costureiras reais e irreais operários (assim assim) escriturários (muitos) intelectuais (o que se sabe) a tua voz talvez talvez a minha com a certeza a deles Vai ter capitais países suspeitas como toda a gente muitíssimos amigos beijos namorados esverdeados amantes silenciosos ardentes e angustiados Ah o medo vai ter tudo tudo (Penso no que o medo vai ter e tenho medo que é justamente o que o medo quer) O medo vai ter tudo quase tudo e cada um por seu caminho havemos todos de chegar quase todos a ratos Sim a ratos
Pedra-Final
Tanta gente, tantos enredos até ficarmos para sempre quedos! Para sempre? Não! Que outros (mínimos) seres já trabalham na nossa remoção.
Retrato
O'Neill (Alexandre), moreno português, cabelo asa de corvo; da angústia da cara, nariguete que sobrepuja de través a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês (omita-se o olho triste e a testa iluminada) o retrato moral também tem os seus quês (aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!) e tem a veleidade de o saber fazer (pois amor não há feito) duas maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer Mas sofre de ternura, bebe de mais ri-se do que neste soneto sobre si mesmo disse...
Soneto
Sonetos garantidos por dois anos. E é muito já, leitor que mos compraste Para encontrar a alma, que trocaste Por rádios, frigoríficos, enganos ...
Essa tristeza sobre pernas faz-te Temeroso e cruel e tonto e traste. Nem pior nem melhor que outros fulanos, Não vês a Bomba e crês nos marcianos ...
E é para ti que escrevo, é para ti Que um verso lanço - O mão! - como o destino, e nele ponho mesura, desatino,
Rasgo, invenção, lugar-comum, protesto? Antes para soldado ou para resto, Escroto de velho, ronco de suíno...
Toma lá cinco!
Encolhes os ombros, mas o tempo passa... Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!
Um dente que estava são e agora não, Um cabelo que ainda ontem preto era, Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração, E na cara uma ruga que não espera, que não espera...
No andar de cima, uma nova criança Vai bater no teu crânio os pequeninos pés. Mas deixa lá, rapaz, tem esperança: Este ano talvez venhas a ser o que não és...
Talvez sejas de enredos fácil presa, Eterno marido, amante de um só dia... Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza! Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...
Talvez lances de amor um foguetão sincero Para algum coração a milhões de anos-dor Ou desesperado te resolvas por um mero Tiro na boca, mas de alcance maior...
Grande asneira, rapaz, grande asneira seria Errar a vida e não errar a pontaria...
Talvez te deixes por uma vez de fitas, De versos de mau hálito e mau sestro, E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas (Como mulheres são mais fiéis, de resto...)
Um adeus português
Nos teus olhos altamente perigosos vigora ainda o mais rigoroso amor a luz dos ombros pura e a sombra duma angústia já purificada Não tu não podias ficar presa comigo à roda em que apodreço apodrecemos a esta pata ensanguentada que vacila quase medita e avança mugindo pelo túnel de uma velha dor Não podias ficar nesta cadeira onde passo o dia burocrático o dia-a-dia da miséria que sobe aos olhos vem às mãos aos sorrisos ao amor mal soletrado à estupidez ao desespero sem boca ao medo perfilado à alegria sonâmbula à vírgula maníaca do modo funcionário de viver Não podias ficar nesta casa comigo em trânsito mortal até ao dia sórdido canino policial até ao dia que não vem da promessa puríssima da madrugada mas da miséria de uma noite gerada por um dia igual Não podias ficar presa comigo à pequena dor que cada um de nós traz docemente pela mão a esta pequena dor à portuguesa tão mansa quase vegetal Mas tu não mereces esta cidade não mereces esta roda de náusea em que giramos até à idiotia esta pequena morte e o seu minucioso e porco ritual esta nossa razão absurda de ser Não tu és da cidade aventureira da cidade onde o amor encontra as suas ruas e o cemitério ardente da sua morte tu és da cidade onde vives por um fio de puro acaso onde morres ou vives não de asfixia mas às mãos de uma aventura de um comércio puro sem a moeda falsa do bem e do mal Nesta curva tão terna e lancinante que vai ser que já é o teu desaparecimento digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti
Velha fábula em bossa nova
Minuciosa formiga não tem que se lhe diga: leva a sua palhinha asinha, asinha. Assim devera eu ser e não esta cigarra que se põe a cantar e me deita a perder. Assim devera eu ser: de patinhas no chão, formiguinha ao trabalho e ao tostão. Assim devera eu ser se não fora não querer.
Vamos decifrar ruínas
Vamos decifrar ruínas Identificar os mortos Denunciar os traidores e atraiçoar a poesia Envolta nas palavras Que respiram ausência poder Vamos dizer sem maiúsculas o amor a vida e a morte.